Mugamu.

Me surgem várias palavras quando me vem sua lembrança na cabeça. Uma lembrança rápida, me vem felicidade. Uma lembrança demorada, paixão. Uma lembrancinha de aniversário, de batizado, me lembra saudade. Uma lembrança qualquer, amor. Eu nunca estive da maneira, do jeito que eu estou, envolvido, emaranhado, entrançado, com alguém, por alguém, como estou por você. Desde os primeiros momentos, daquela grosseria (foi sim!) que eu fiz com você, eu não sei, pareceu tudo muito estranho, mas não uma estranheza monstruosa, eu digo, estranho do tipo, nos encontramos, nos achamos. Depois de lá, a gente sabe como foi. Muitos sabem como foi. E como continua sendo.

Acho que meu período longe – nosso período separado – foi como um teste, uma quarentena (não como aquela do seu sonho. ou será que igual?). Nos conhecemos como as pessoas se conhecem nos dias de hoje, querendo ou não: não mais pessoalmente, virtualmente. Certo que já tínhamos nos visto, falado, dado risadas, várias outras coisas. Mas o começo, o jeito como nos conhecemos, nos damos (ainda continuamos nos conhecendo, diariamente, a cada encontro e troca de palavras e várias outras coisas), do que hoje eu tenho e considero como relacionamento, foi bem diferente. Concorda comigo? Diferente pois passamos 3 meses sem trocar olhares, sem gestos, toques, mas sabíamos que nos mesmos olhares separados, um brilho irradiava quando via o nome de um e do outro aparecendo na tela pronto para contar as novidades, o que se passava, o que acontecia, como estava. Que a vontade de tocar na mão um do outro, de sentir o corpo num abraço, do bater do coração, da minha diástole e sístole que até hoje só bate no compasso do seu nome, era maior que dez mil Everests. Que foi necessário um se ter longe do outro para ver que um queria o outro mais perto possível, grudado. E quanto a nossa vontade de tele-transporte? Creio que até hoje ninguém mais teve vontade tão grande de se tele-transportar, nem que seja para passar uma noite só, olhando as estrelas, na areia, falando besteiras mil e rindo feito hienas.

Um não parava de pensar no outro, de querer estar perto do outro, de só ir prum lugar se o outro estivesse senão nem valia muito a pena ir. Era esperar para chegar Sexta e ir ao seu encontro. A semana toda se falando pela internet, eu tentando ao máximo esconder meus sentimentos, não queria dar na cara, principalmente na situação que estávamos, pra chegar a noite, ir ver uma banda qualquer, beber cerveja e contemplar sua pessoa, ri, falar, estar com você. Noites, dias, manhãs, tardes trocando mensagens. Certo que alguns contratempos, algumas barreiras haviam. Mas se não fosse por elas, será que o que há hoje, existiria da mesma forma? Aliás, foi por causa delas que nos temos um ao outro. Não tem como negar. E pelo menos por isso, podemos dizer obrigado, de uma maneira ou de outra.

Eu não queria fazer tantos rodeios, não quero prolongar muito o texto. Sabe garota, em você eu tenho o que sempre desejei. O corpo, o jeito, o modo, a maneira, a pessoa. Você tem um pensamento, que não canso de dizer, é maravilhoso. Adoro suas fantasias. Aguenta minhas perturbações, minhas babilônias. Você é inteligente, esperta, astuta. Você não tem medo de qualquer coisinha, foi menina de brincar na rua. Você ri das minhas tolices, acha engraçado quando danço que nem um mamute bêbado. Fica braba com meus erros, com meus telefonemas não dados. E isso é bom, pois ficar presa num sentimento único não é bom pra ninguém. Você me dá orgulho, me traz admiração. Você, sabe, você me deixa sem palavra, sem fôlego. Eu tento escrever, tento pôr no papel o que penso, o que me passa, mas são muitas coisas, uma avalanche e a minha cabeça, que já é do jeito que é, entra em piripaque.

E que o que eu sempre quis foi um amor que eu pudesse dizer o que eu sinto não só por gestos, demonstrações, que claro, são importantes, não nego, mas que eu pudesse dizer pela música. As músicas, todas aquelas que trocamos carinho, que falávamos pelas mesmas o que as palavras, as mesmas que acho que uso tão bem, não conseguiam dizer. Que o que o coração sentia e a distância não deixava ele mostrar, a música, as músicas, faziam o outro ter a certeza que do outro lado um queria ter o outro, ganha um lugar de destaque. Muitas vezes encontramos nos ditos dos outros, nas melodias, canções, o verdadeiro sentimento que temos em nós. E essa eu dedico para você. Te amo.

Leia isso. Não é petróleo, não é ouro, não é armamento. É arte. Arte é o que há de mais caro no mundo. Não quero saber de pesquisas, nem de fontes, dados, etc. Não creio que uma única arma é vendida por 25 milhões de alguma moeda que anda valendo mais que as outras. Até mais em alguns casos. Os grandes e milionários investem em seu dinheiro em arte. Um Picasso vale mais que uma AK-47. Um Van Gogh mais que uma Glock. Um Rembrant mais que sei lá… Uma funda. O cara foi o maior banqueiro do Brasil – ou perto disso – e olha o que ele tinha na casa dele. Olha como era a casa dele. Querem transformar a casa dele num museu. E olhe as exposições de arte. Patrocínio do caralho a quatro corporações. E o governo. Ah! O governo e seus benefícios/incentivos fiscais. Um exemplo é o quanto de verbas são destinadas as produções cinematográficas – não só isso, veja a lei Rouanet – de modo fácil e rápido. Quem quer ficar rico, quem quer ser rico, pousar de rico, arte é o caminho. Compre, faça um leilão, seja um patrono, coisas assim e veja como o dinheiro vai se fazer um passe de mágica. E sem medo cito a televisão, rádio. Afinal, o cinema/filmes que passam na TV não podem ser considerados arte também? Como dizia Chico Science: Computadores fazem arte. Artistas fazem dinheiro.

É estranho escrever isso se na minha vida tudo anda nos conformes. Não quero assustar ninguém com o que escrevo, mas faço o tipo Crumb (oh! mais um pobre coitado que vive a reclamar!). Eu imagino que quem escreva filmes de terror não tenha na sua vida o tom macabro que imprime em seus roteiros. Na minha é do mesmo jeito. Tem sol, estrelas, casa, suco de maçã, sorvete, uma garota linda. Tudo bem de boa. Só sei lá, é como o mesmo Crumb diz (ou não sei quem): É mais fácil desenhar desgraça do que coisas boas. Desgraça você pode fazer o que quiser, coisas boas tem que cuidar pra não ultrapassar a bondade, não ficar meiguinho demais. Deve ser, deve ser.

E agora?
Tudo acabou
Tudo fechou
Exploda-se
Não tem mais nada
Não sobrou
Foi como uma peste
Amigos, família, vizinhos
Nada, nem uma formiga
Pra morder seu pé
Fudeu.
Não tem mais nada
Dinheiro, fama, jóias, títulos
Isso não serve aqui
E agora?
Não era você o meninão
O galante, galo velho
Agora não é mais

O papai, a mamãe
Fizeram o que gostariam
E gostaram de ter feito
Desistiram de você
Eles só queriam lucro
Pedrinhas de brilhante
E viram que você não dava nenhum
Não tem mais carro
não tem mais cama quentinha
Tá na hora de virar homem
Tá na hora de começar a tirar
O pelo da cara
E bota a gravata no pescoço
E acordar cedo, pegar a maleta
E bater a marreta
E agora?

Não era você o pimposo?
Sorrisão, rebolado no bambole
Garotão estrelado, carro importado
Não tem mais nada.
O sonho acabou, o disco parou
Viagens, noites, saliva gasta
Achou que era só dar um pulinho?
Agora é com você
Eu sei que é difícil
Mas chega uma hora que nós temos
E chegou a hora de você
É o que deve ser feito
Você, que nunca fez nada
E agora?
Você nunca fez nada
Vai fazer o que?
A chave não entra
A campainha não funciona
O interfone não toca
Se não há ninguém
Há você?

Qual vai ser a desculpa
Qual vai ser o sintoma dessa vez?
O que você vai dizer?
O que vai escrever?
Você sabe escrever
Ou vai pagar pra alguém dizer
O que você não consegue
Você nem pode pagar também
Vai virar menininha de esquina?
Rodar a bolsa e mostrar a calcinha?
Pois não consegue juntar 1 mais 2
E formar o 3
Vai conseguir juntar a e b
E formar o c?
Não, né.

É.
O pior de tudo é que quando
Eu te vejo
Eu vejo um pouco de mim mesmo
Não sei também o que dizer, não sei
O que fazer
Tanto que o estou fazendo
É puro xerox, puro plágio
Sem originalidade
Vão ler e falar
Pra eu parar de copiar
Não nego
Agora é você
Como foi o José
Vão me processar
Vou ser procurado
Falsificado como vodka
Não vou ter pra onde correr
Não tenho dinheiro
Pra pagar advogado

E vou parar
Onde o filho chora e a mãe não escuta
A sua até pode escutar
Mas o que ela vai falar?
Pra quem ela vai ligar?
Ela vai se importar?
Será que ela vai ter que escrever
A bíblia de novo
Pra salvar você?
Não adiantar virar João
Nem Genésio, muito menos Murilo
E então?
É.
E então?

Responde seu bosta.

Jornalista. Desde pequeno tinha esse sonho. Nas filmagens da familia, aparecia sempre como um galazinho, reporterzinho dos acontecimentos das festas. Boa aparência, dentes brancos, nariz no lugar. Começou na faculdade, fazia sucesso entre as colegas e os professores. Entrevistava um ali, outro aqui, se portava bem diante as câmeras, se saia bem no videotape. Não demorou muito, fez alguns projetos, alguns prêmios lhe foram dados. Na escrita não tinha muito destaque, mas na fala, no porte, era disparado uma referencia, desde o começo do curso. Era um “rueiro” nato. Recém formado, com boas indicações, falavam que seria um ótimo apresentador. Saiu e logo começou, apresentado um programa numa emissorazinha, terceira no ibope. Foi chamando as atenções dos diretores, tinha uma maneira diferente de ser portar frente as câmeras, que já vinha lhe rendendo elogios desde os tempos estudantis.

Começou de manhã, às 5 já estava no estudio, lendo e relendo as matérias, fazendo anotações. Profissional. Às 7 entrava no ar, ia até às 8 e já estava fora às 9. Fazia outras filmagens, para outros jornais, durante o horário matutino. Ia ganhando destaque, seduzindo os diretores e as estagiarias. Ficou 4 meses nessa quando passou para reporter do meio dia. Durou dois meses. Foi para a segunda do ibope. Seu passe estava valendo. Beleza vende, atrai anunciantes e isso era mais um motivo para um rosto bonito aparecer frente as câmeras e ter destaque certo. Cobria esportes, política, policial, foi chamado uma, duas vezes para alguma cobertura internacional, casos em países próximos. Seu nome começava a chamar atenção. Foi crescendo, se tornando conhecido. Já sabiam quem ele era, era chamado pelo nome de lojas de 1.99 até restaurantes da moda. Cresceu e parou na principal. De lá pro topo, meio ano.

Na principal, chegou dividindo bancada com o número 1 da mesma. Era de alcance estadual a divulgação de seu nome. Ficou conhecido de norte a sul. Fazia a apresentação ao meio dia e aparecia de novo no jornal da noite. Carros, verdinhas, mulheres. Foi sendo seduzido pela fama. Foi não, tinha. Festas, bebidas, perdição. Junto com isso, a escalação pra uma cobertura pra matriz. Chance de ouro. Nacional. Havia ocorrido alguns desastres e ele pensava “Foda-se quem morreu. Foda-se. Vou passar aquela imagem de surpreso, fazer bonito, que só quem é foda sabe e assim ganhar meu passe VIP”. E não foi diferente. Do estado para o Brasil. Começou devagarinho, mas só de estar ali já fazia o orgulho e o ego serem gigantes. De vez enquanto atendia seu estado, mas Rio e São Paulo tinham se tornado suas fontes preferidas. A capital também. De matérias e de badalação.

Pegou algumas atrizes, outras mais, umas menos importantes. Não só atrizes, como o meio social importante das metrópoles e fez seu nome nesse patamar também. Quando viu, estava apresentando o jornal do meio dia paulista. Bonito na pose, dividia a bancada com feras do jornalismo, que com o tempo de trabalho que ele tinha não haviam ainda passado da função de office boy. Tempo. Foi ganhando mais, tendo mais, fazendo mais e mais. Não parava. O café e o cigarro já não bastavam. Baguinhas brancas, azuis, vermelhas, plásticas, vitaminas, academia, suplementos, cocaína. Tudo para ficar mais bonito, mais atraente, mais visível. O jornalismo não era só denuncia, só fatos, matérias, noticias, era também venda, anúncios, publicidade, negócios. Tinha que falar bem e bonito de quem pagava seu bônus mensal.

Ganhou a bancada do telejornal da noite, apresentado por um casal famosíssimo, dupla de bancada durante 10 anos, sendo substituídos em poucas ocasiões. Causou algum desconforto, mas nada que abalasse muito a emissora, apesar das fofocas que sempre aparecem. O dono da emissora, um verdadeiro Midas, via ele como o menino de ouro e não perdeu a oportunidade de ampliar seu toque. Muitos faziam campanha contra, dos colegas até as revistas de cunho popular ou de politicagem, mas ele dava as costas para as mesmas. Orientado pelo patrão. Primeiro apresentou com o marido. Correu tudo bem até a quinta aparição, quando as ordens de cima mudaram as ordens do processo. Iria dividir as luzes com a esposa. E ocorreu a reviravolta. Viraram amantes. 3 meses depois, ela deixou o companheiro de bancada de 10 anos, 9 de casamento e se juntou com o de 4 meses de bancada, 2 de “conhecimento”.

Foi um escandalo. O ex, traido de maneira cruel, foi internado num colapso nervoso. No jornal, ninguém falava nada. Não vi, não sei, não conheço. Foram morar juntos num endereço nobre, apartamento nobre. E seguiram a vida de glamour. Os jornalistas mais importantes do país. Ele em 5 anos tinha construído um império ao seu redor inimaginável para tão pouco tempo. Foi do 0 ao 100 mais rápido que um trem bala. Uma noite, no seu camarim, cheirou tanto que parecia que a boca tinha sido grampeada para manter o sorriso. Antes de entrar em cena, lhe perguntaram se estava tudo bem, tudo tranqüilo. Ele respondeu com a naturalidade de um monge, já prevendo 1 minuto o futuro da programação: 3, 2, 1, no ar. Em 30 segundos, estarei anunciando a reviravolta dos congressistas. 15 segundos adiante, meu coração disparará e suarei feito um boi indo para o abatedouro frente ao teleprompt. 10 segundos, minha visão vai desaparecer, no momento que falo do amistoso da seleção. Enxergarei o escuro, o negro, o abismo. Na sala de comando ficarão atordoados, berrarão no meu ouvido, como formigas atingidas pela chuva querendo salvar o formigueiro. 5 segundos, minha cabeça desmoronará em cima do teclado de onde transmito a mentira nacional para 190 milhões de conterrâneos. Morrerei por overdose em pleno horário nobre. “Estamos com dificuldades técnicas. Voltaremos em breve”. Boa noite.

O que mais falta ser feito? O que mais falta acontecer? No sentido de vergonha, o que falta para atingir o pico máximo da vergonhice (ou da falta dela)?. Na TV, não só nela, mas como nos meios audiovisuais mais evidentes, vemos que tudo que poderia ser produzido está sendo feito. Estamos chegando num ápice. A inovação deixou de ser essência, tendo apenas como vista o lucro, a popularidade, não importando o que deve ser feito para alcançar isso. Do Japão ao Ushuaia, tudo que mostre o ser humano em situações constrangedoras é produzido, deixando de lado a cultura pelo qual o mesmo se situa. Big Brothers a parte, a fama faz com que o mesmo coma até merda numa casquinha de sorvete em busca dos seus 5 minutos de fama, já que 15 é muito tempo no mundo atual.

Você pode sair com um vestido de carne na rua que as pessoas vão achar estranho, mas dirão que não passa de uma imitação de Lady Gaga. Coloridos, de cortes de cabelos diferentes, pinduricalhos. O senso do ridículo e do mau gosto vem sofrendo updates a cada passar de ano ou até de mes, de um modo extremamente rápido, fazendo com que não tenhamos tempo nem de absorver o que nos foi recém posto para comer. Entretanto ele não chega a chocar ou fomos nós que não temos mais motivos de choque. Acho que seria esse o ponto onde gostaria de chegar. O senso de choque das pessoas quanto as situações constrangedoras. Hoje parar na internet e ter um video de 1.000,000 de acesso com você comendo moscas embalado com tequila é motivo de comemoração. Não temos mais o medo de mostrar a cara, já que em breve seremos esquecidos, pois surgirá algo mais bizarro para rirmos e desviarmos nossos olhares. A teoria do “entre, curta a onda, saia” (ou uma coisa nas mesmas palavras) nem tem como ser aplicada, ou se é aplicada se desenvolve em pouquíssimos casos, onde voce deve se aprofundar com paciência/parcimônia, porém muitos afluentes se formam em seu estudo e fazem com que em muitas vezes voce absorva informações desnecessárias, o que causa uma extrema desatenção e perda de foco.

Não sei se as palavras escritas demonstraram bem o ponto que quero chegar. Você sair vestido de mulher, sendo homem, na rua, já não causaria o mesmo espanto há 20 anos atrás. Nos tempos atuais se tornou normal, ainda mais com tantas “tribos”, ser exuberante (podendo adaptar diversos termos aqui), no sentido de ridículo, e ser achado normal por isso. Com o excesso de informações, outro mal que temos, e a globalização (por favor, sem crucificações socialistas anti-capitalistas) tudo se tornou um só e tudo ao mesmo tempo. Fico a imaginar as tradições culturais perdidas com isso, da medicina chinesa nos cafundós da terra de Mao aos artesanatos locais de Florianópolis. É complicado viver num ambiente onde a rapidez das coisas fazem com que as mesmas se tornem descartáveis e obsoletas tão rapidamente, com sua TV LCD Plasma 42″, que não vai prestar em 2 anos, pois não veio com seu receptor digital. É complicado viver num mundo em que você já não sabe nada, pois precisa saber de tudo.

Festival Escute! – Celula Cultural Mane Paulo

Pela primeira vez nunca jamais vista aqui e nem feita por mim, a resenha de alguma coisa…

Estava eu de passagem pela Hommies House Crew Managementship, quando surgiu a ideia de acompanharmos o segundo dia do festival Escute!, realizado n@ Célula Cultural, em Florianópolis. Não havia ido no primeiro dia (que contou com as bandas que você verá no flyer), mas a premissa do festival, de fazer frente ao Planeta Atlântida, realizado pela RBS e considerado o maior festival de atrações variadas do sul do Brasil, além de estabelecer o seguinte fundamento de Quanto Vale o Show?, nos animou bastante, pois se fosse ruim, nosso dinheiro seria destinado a outros caminhos, como tequilas e cervejas. Mas não foi. E nosso dinheiro foi destinado a outros caminhos, mesmo assim.

Enquanto na segunda noite do P.A, Nando Reis, CBJr., Restart e tantas outras bandas que se você não esteve em coma nos últimos 5 anos já deve ter ouvido falar, na segunda noite do E!, Porno de Bolso, Da Caverna, Produto e Os Skrotes, nessa ordem, colocaram o povo, que preferiu ver artistas locais de boa qualidade ao invés de prestigiar artistas nacionais e internacionais, alguns de qualidade duvidavel, para balançar os quadris, bater os pés e erguer suas mãos em homenagem ao chifrudo vermelinho. Eu, Gordo, Buxexa, Liu e uma centena de pessoas, algumas conhecidas e que conhecemos no local, acompanhamos os shows (alguns apenas escutamos de longe e isso é válido, pois o som se propagava bem), entretanto, apenas Eu darei a visão do que foi o espetáculo.


Porno de Bolso subiu ao palco (que não era giratório, nem 3D Cinemax) por volta da uma da manhã. Com um vocalista que parecia o gordinho barbudo do “Se Beber, Não Case” em trajes de pescador moderninho e um baterista que era a cópia do Antonio Conselheiro com sotaque mané, fizeram um show mediano na minha visão. Eles já estão na cena faz algum tempo, sendo que este foi o primeiro show deles que eu vi, mas como a primeira impressão é a que fica, não fiquei com uma impressão empolgada ou certa. Rock decente, instrumentos afinados e agitados, mas quem sabe, por ser a primeira banda da noite (ou não), que geralmente é só um aquecimento, não empolgou o público que hora fugia da chuva e os assistia e hora voltava pro pátio e ficava bebericando cervejas e fumando cigarros os ouvindo à distância. E foi isso.

Logo após horário de descanço gratuíto obrigatório de propaganda sexoanal vieram os Da Caverna. Vina, Vitor e Lelé, guitarra, baixo e bateria, conhecido por suas (boas) letras de putaria e outros assuntos adolescentes e seus (bons) arranjos rock`n`roll puro fizeram o simples e (bom) e agradaram a todos. Já os tinha visto tocar em alguma festa na UFSC e tinha gostado bastante. “Só sei que eu tava muito louco/Só sei que eu tava muito louco“, “Vou transar no Fusca/Eu não tenho grana/Pra pagar motel” e “Good Morning/Beautiful Girl/Open The Window/Sky Is Blue/The Book Is On The Table” (esta última executada no bis, a única banda que voltou) e outras músicas (mas eu só me lembro dessas e não sei o resto da letra que falava pra pegar na teta) colocaram o povo pra cantar junto e chacoalhar quadris freneticamente. Nada mais a dizer. Show legal, banda legal, público legal, muito legal. Legal.

Pessoas conhecidas de outros carnavais passavam pela minha frente. Integrantes de outras bandas, jornalistas, blogueiros, gente da moda, design, artes em geral e um cara barbudo, que já tinha visto numa foto na revista VIP algum tempo desses falando sobre barba e queda de cabelo, se faziam presentes. Veio na mente a definição que @ Célula é onde o povo antigo da ilha se reune, um povo mais “cult” velha guarda, enquanto o 1007 (um quase novo El Divino) é onde a nova guarda da ilha faz sua história. Já o Blues, bom, é o Blues. @ Célula Cultural Mané Paulo foi fundad@ em algum ano nos meados os anos 2000 e teve com coordenador por algum tempo o jornalista Gastão Moreira. Nomes como Curumin, Tijuqueira, Dazaranha, Mallu Magalhães, Samambaia Sound Club, Dead Fish, Sugar Kane, John Bala Jones e outros que a memória velha não lembra já passaram por ali. Cerveja, Tequila, Gim Tonica (uma novidade) e água são servidas a preços modestos. Ficou faltando a Caipirinha, que era muito boa. Tem segundo andar, que antigamente era decorado com posters de diversos temas e hoje tem como papel de parede cartazes verdes com o retrato do Zico. É um dos últimos redutos numa ilha que carece com opções culturais diferenciados.

Seguindo a noite, o terceiro trio (esqueci de mencionar isso: todas bandas eram trios) foi a pesada e violenta Produto. O vocalista/guitarrista mais parecia o Rafinha Bastos, de tamanho e tatuagens, e o baixista que parecia o cara gordo aquele desenho que eles pilotavam um carro robo, tocaram por cerca de algum tempo não estabelecido e despertaram nos presentes a vontade de transformar o salão de festa numa roda punk, fato que infelizmente, não aconteceu (lágrimas). Com letras que eu não entendi nada (e mesmo assim empolgaram bastante) e com um som pesado e pancadão, Produto mostra que ainda existe violência músical numa ilha pacata, cujo o som das ondinhas quebrando na areia predomina. Não tenho muito registros sobre a banda, mas vendo-os pela primeira vez, gostei bastante. Vai ser bom ver outros shows e me sentir dentro duma máquina de lavar novamente.

Fechando o espetáculo, Os Skrotes. Com Chico no baixo, Igor nos teclados (e um theremin num Korg mutcho doido) e Guilherme Ledoux, que fez o documentário sobre o Toicinho Batera (muito legal!), na bateria, desprovidos de voz alguma e providos de um bom jazz misturado com salsa, metal, funky, Sublime, Pantera e tantos outros ritmos e bandas, mexeram com os ouvidos e corpos dos que ali estavam presentes. Apresentação de gala da banda que desponta como grande revelação da música instrumental brasileira e de como um excelente nome na cena musical da cidade. Chico, vale lembrar, também participou juntamente com Ulyssis Dutra, Benê Chiréia e Mário Junior dum projeto que os uniu e seus respectivos instrumentos pela primeira vez para dar forma a uma sonoridade instigante e bailante.

E foi isso e ano que vem, na mesma batdata e, só alguém sabe, no mesmo batcanal, tem mais. Uma noite, 4 trios, cervejas, água, pessoas, conversas, risadas e diversão. Ao meu ver, valeu mais que pagar alguns tantos reais para ver o que ano que vem vai estar ai de novo (e que é só ligar a tv e ser feliz). Uma pena não ter ido ver a primeira noite, que, bem possível, estava no nível da segunda. Vale lembrar também que a renda do evento foi toda destinada as vítimas do Rio de Janeiro. Uma boa e inteligente ação duma rapaziada que não faz por menos e mostra que, apesar de viver numa terra onde mais se preza asfalto do que cultura, ainda existe alguém que se mexe pra trazer/fazer boas ações prum público que sabe bem o que quer.