Em nenhum de seus outros filmes Darren Aronofsky conseguiu alcançar nivel de terror, suspense e pressão psicologica tão grande como em Cisne Negro. O filme, concorrente em 5 categorias da Academia e baseado em O Lago dos Cisnes, peça de ballet composta por Tchaikovsky, que aparenta ser um assunto tão corriqueiro, mostra um novo tipo de terror, que se não aparece desta maneira, se faz totalmente renovado. Com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel e participação especial de Winona Ryder, Cisne Negro dá ar novo aos filmes psicológicos, dando uma aula aos novatos que engajam-se nessa carreira com preferência aos sustos e gritos.

Se em PI, o nova-iorquino de 42 anos utilizou de números, teorias, alucinações e jogos de gato e rato para atormentar o personagem Max, o suspense, a loucura não se fazem maior do que no mundo das sapatilhas. Nem em Réquiem para um Sonho, filme que o alavancou, com os personagens de sofrendo as conseqüências do vicio das drogas de todas as maneiras, as cenas de pressão e tensão superam as situações que Nina, interpretada por Portman de maneira exata, passa até o objetivo final. O Lutador e a Fonte da Vida, este último o único que não assisti e que formam a lista de dirigidos por Darren, não merecem citações. Não por serem ruins, mas porque não seguem o roteiro perturbador dos outros três.

Cisne Negro mostra a já citada Nina tentando conseguir o papel de Rainha Cisne na peça, que foi da recém-aposentada Beth, personagem de Ryder, onde teria que interpretar tanto o Cisne Branco, puro e celestial, como o Negro, perverso e diabólico. No desenrolar da história a psicose pelo papel vai tomando a cabeça da jovem. Primeiro, uma mãe com cara e jeito de maluca, feita por Barbara Hershey, extremamente convicente, dependente, em diversos modos e maneiras, da filha. Depois, Thomas, por Cassel, perfeccionista diretor da companhia, que atenta a jovem como o Diabo atentou Cristo, sugerindo métodos pouco convencionais para ajudar a bailarina. Por último, Lily, Mila Kunis de forma sagaz, bailarina vinda de São Francisco, que concorre ao Cisne também e instala de vez a neurose na vida da moça. O resto só assistindo o filme para entender o caos.

As perturbações que o filme traz é o que o faz tão significativo. As torturas que Portman se impõe e que passa pelas mãos dos “vilões”, junto com as “brincadeiras” de sua cabeça, colocam o espectador em aflição. Fica a impressão que desse papel a atriz não passaria, exemplar a Heath Ledger, tamanho é o desgosto e gasto emocional que aparenta passar. O mundo do ballet, que parece ser feito de flores e fantasias, aparece no filme de modo duro, cru e cruel. Disputa, inveja e dor transformaram o que parecia ser um espetáculo de beleza e graciosidade numa luta de egos e de força. Darren Aronofsky fez um filme onde um pacato cisne se transforma numa sanguinolenta ave de rapina, fazendo com que você comece a ver a Ana Botafogo, ou até mesmo o Carlinhos de Jesus, com outros olhos.

Amanheceu tranquilo. Tudo aquilo que me foi dito, anunciado, não aconteceu. Eu sei que ele é meu Pai, que devo considerar perdão, mas após tanta preparação pessoal e nada daquilo acontece, fico com uma mágoa, um certo rancor. Ontem de noite fui levado, certo que com alguma violência, mas no julgamento foi determinado que minhas palavras não havia nenhuma mentira. Na verdade, omiti fatos. O medo, não nego, tomou conta de mim. Ficou a percepção que foi apenas perda de tempo, um corretivo que deveria ser dado em mim. Mas apesar de tudo isso, minha fé continua inabalável. Fiz o que fiz, aconteceu o que aconteceu e não posso negar, voltar atrás. Uns voltaram, outros curaram, milagres. Eu vi, eles viram. E sobre Judas, bem… Prefiro não falar sobre ele. O tempo é o senhor da razão. E isso vale para mim também. A ceia, minhas palavras, nada se concretizou. Se concretizará. A pergunta que me faço é será que eles continuarão como meus discípulos? Será que tudo continuará como antes? Fico com o receio agora de me passar como mentiroso. A Mãe me falou “Fique calmo, Yeshua. Deixe o rio seguir seu curso, deixe que as coisas aconteçam”. Mas não há como ficar assim, fico ansioso, por mais que tenha passado por provações, por meditações.

Saio na rua e as pessoas não olham para mim, me tratam como um normal. De um dia para o outro, tudo muda. Pensava que a reação seria mais raivosa, que iria ser tratado como um mentiroso sujo e arrogante, que se dizia filho do Pai, prevendo, anunciando e que, de uma hora para outra, a realidade muda completamente. Tenho serviços para terminar, mas depois destes, não sei como ficará. Tenho que arranjar algo para fazer, medo de não ter mais sustento, não posso me deixar passar por mais um bobo, que fica pelas cidades, pelas províncias, anunciando novas eras e tempos e que depois de tanto convencimento, nada acontece. Devo ir falar com João, para saber como estão os outros. Mateus, Pedro, Paulo… Maria Madalena. Como ficarão, como eu vou ficar. Essa angustia que me bate no coração, que me martela na consciência. Que explicação darei? Creio que me darei, vou dar-lhes, algum tempo, para as coisas esfriarem. Certo que dois ou três vão me abandonar, não há como isso não acontecer. Eles possuem suas vidas, famílias. Família que tentamos ser.

Porque tudo isso? Porque essas coisas todas? Que voz era aquela? Porque?! Desde pequeno, toda a história que me era contada, tudo que fiz, todas as palavras que eu disse e agora nenhuma delas parece ter fundamento, nenhuma delas parece ter uma gota de verdade. 40 dias naquele calor, sem água, para que? Como eu fiz aquilo tudo? Eu me questiono: Como?! Devo continuar com minha peregrinação? O que vão pensar de mim agora? Vão me apontar o dedo na face e falar que sou uma farsa? E como vou dizer que fui Aquele, que fui chamado de salvador, messias, que fui aquele que foi visitado pelos Reis Magos e que agora não passo de uma aberração! Como, Senhor?! E as vozes? E a voz, a maldita voz! Será que a voz que eu escutava, vou continuar escutando? Será que quero escutar ainda? O que será que era aquela voz? Uma mentira? Era um Deus, era aquele que dizia ser meu Pai? Para quem vou pedir conselhos? Tantos que eu salvei, tantos que eu fiz bem. Eles vão continuar me tratando como os tratei? Não quero parecer um pobre coitado, um fingido, mas essa crise que me instala, espero que seja a última, espero que daqui para frente eu seja um normal, seja um comum. Cansei. Sei que já lhe perguntei, mas lhe pergunto: Pai, se é você meu verdadeiro Pai, porque me abandonaste assim?.