Seu primeiro brinquedo foi uma panela. Pequeno, vivia agarrado na saia da mãe, frente ao fogão, a pia, as tabuas, facas e utensílios. – Mãe, posso corta uma salsinha? Mãe, posso picar uma cebola? e a mãe dava restos para satisfazer o desejo do mestre cuca mirim. Quando ia brincar com outras crianças, ele mesmo escolhia: Vou ser o cozinheiro da tropa. Sumia com os garfos e facas de brinquedo das irmas, que usava para picar folhas e insetos mortos. A medida que foi crescendo, foi aprimorando seu gosto, seu conhecimento. Quando ia viajar com o pais e os tios, ficava colado junto àqueles que cozinhavam. Carne, salada, massa, feijão e arroz, tudo aquilo ele foi olhando e memorizando. Primeiro o óleo, cebola, alho, dá uma boa suada, coloca a carne, tempera um pouco, deixa ela soltar caldo, se cozer, põe o arroz, água, temperos e acerta o sal no final. Aos 10, o dono de uma lanchonete perto de casa chamou ele para ficar no balcão, contudo a ânsia de estar no calor do 4×4 de azulejos brancos era maior do que qualquer coisa. Lavava louça, fazia sanduíches, limpava os vegetais, descongelava a carne. Não ligava tanto para o estudo, apesar dos tapas do pai e dos puxões de orelha da mãe. Queria mesmo era a chaira, o chinoá, o fouet, as facas, as tábuas, a cozinha. Os lápis, cadernos, réguas, compassos, borrachas e apontadores ele deixava para os outros.

Aos 16, foi contratado, meio que nas coxas, por um restaurante. Já tinha conhecimento de fundos e caldos muito maior que os que trabalhavam junto a ele. O restaurante em pouco tempo se tornou pequeno. Absorvia tudo: como abrir, como estripar, limpar, descascar camarão, ostra, lagosta, tainha, linguado, congrio, salmão. Quando podia, trabalhava como garçom também. Aproveitava e bebericava um pouco, se soltava para depois do trabalho ir namorar “as meninas órfãs” dos bailões da vida. O restaurante, se pudesse, tornaria-se o lar definitivo. Dormiria no estoque, faria das caixas sua cama, do papelão sua coberta, dos sacos de arroz seu travesseiro. Estava obcecado, fascinado por aquele mundo. Quando chegou o Natal foi ligeiro: um estojo de facas. E só. Foi prontamente atendido. Nas festas de família, ele fazia o cardápio. Casamentos, aniversários, bodas dos avós, dos tios, tudo ele supervisionava. Escolhia, comprava, fazia e limpava. Aos 18 entrou numa escola de gastronomia. Era destaque na classe. Com maestria e desenvoltura, praticamente dava aula com os professores, espantados com o aluno, uma “avis rara” em meio aqueles que aprendiam como fritar um ovo, desossar um frango. Os concursos promovidos já sabiam que o vencedor prontamente estava decretado. Um professor lhe indicou para trabalhar em um bom restaurante da cidade e ele foi, com brilho nos olhos. Entrava uma hora antes, saia uma hora depois. O chef foi gostando dele, os companheiros nem tanto. Cozinha é um lugar de disputa constante, inveja freqüente, dizia o mestre ao pupilo.

Coisas sumiam, panelas queimavam, receitas não davam certo, a cobrança era indevida. Um falatório aqui, uma intriga ali e ele não ficou por 6 meses, apesar da vontade e do talento nato. Ao chef só restou o muito obrigado, mas naquele ambiente ele sabia que não haveria progresso. Ficou um tempo desempregado, fazia alguns freelancers e por onde passava era só elogios. Mais um empreguinho de 2 meses e abandonou para a conclusão do curso. Trabalhou nesse, dizia, para acalmar as mãos com as queimaduras do cabo das panelas. Se formou no curso com destaque, conseguindo uma bolsa de 1 ano para estudar fora. Foi uma festa só, pagou três grades de cerveja para os amigos e para a família. Bebia pouco, mas naquele momento o pão líquido entrou como água. Dois dias depois continuava com ressaca e ao embarcar no avião o estômago mantinha o detonador acionado. Europa foi o destino. Na França, estudava de dia, trabalhava de noite. Não tinha a mínima noção da língua, iria aprendendo as poucos, mas quando os gestos diziam o que tinha que fazer, fazia com perfeição. E sempre com uma dose do Cognac usado na flambagem. Era uma máquina, um forno combinado com pernas e braços. A cozinha estava se tornando puxada, apesar da juventude, o corpo muitas vezes não aguentava. A bebida era um modo de descontração, mas precisava ficar acordado, atento no meio de tantos perigos. Fritadeiras, chapas, fogo, água quente, fria, piso molhado. Um Steward colombiano lhe apresentou um pó branco, que ele sabia que muitos ali usavam, mas sempre por debaixo dos panos de prato. Na câmara fria, junto a cortes e costelas, fez seu primeiro uso.

Foi para a Itália, o mundo das massas. Das pizzas as lasagnas, dos tortelonnes aos raviolis, foi aprendendo como era feito, ovo por ovo, farinha por farinha, vinho por vinho. Aquela vida da cozinha era uma diversão para ele. Fazia o que amava, comia o que amava e bebia o que amava. Muito dos três. Estava percebendo a mudança de peso, mas nada que incomodasse muito. Conseguiu uma vaga, por intermédio dum professor, para trabalhar numa trattoria em Napoles. Pesto, bolonhesa, limão siciliano, molhos que lhe enchiam os olhos. Lambruscco, Grasppa, licores, vinhos diversos que lhe molhavam a boca. Certo dia bebeu tanto que saiu amparado por dois colegas, que diziam, rindo: Brasile, Brasile. Attenti al veleno! . E ele ia cantando sambas pela madrugada. Morava com um italiano, um espanhol e um inglês. O inglês, com tatuagens e piercings, se tornou o companheiro de farra. Estavam em Napoles, a máfia comandava e o acesso aos narcóticos foi bastante fácil. O pó branco que tinha experimentado na França foi consumido novamente, no banheiro do restaurante, num fim de semana de movimento na casa. Emburrado, não foi trabalhar os últimos dias de contrato e embarcou para a Inglaterra. Jogo rápido na terra da Rainha, não gostou do fish`n`chips. 8 meses na Europa e cansou-se. Havia a cultura, havia lugares bonitos para tirar fotos, mas já tinha aprendido o que queria, não queria ver a Monalisa, nem as obras de Van Gogh. Por último, lhe recomendaram passar uma semana em Amsterdam, o que se tornou 4 dias. O corpo não aguentou tudo aquilo e dormiu 3 dias seguidos. Queria se especializar em algo novo. Tinha que provar novos sabores, novos cheiros, novas texturas. A Ásia foi o destino. Era tempo de novas experiências.

Em Bangcoc sucumbiu aos encantos de uma morena dos olhos puxados que lhe fez a massagem mais espetacular da sua vida. Na Malásia visitou o edifício mais alto do mundo e mandou um postal para a mãe: Olha eu aqui mãe! Eu disse que chegaria e cheguei: Topo do mundo!. Cruzou fronteiras, foi ao Paquistão, de trem, e provou do melhor haxixe. Viajou agarrado na calda de um cometa. No Tibete, uma maconha selvagem, 5.000 metros de altitude. Em Bali, festa rave, LSD-25 direto na pupila. Bebidas fermentadas das mais diferentes maneiras. Aquela vida era o que sempre sonhara, liberdade e curiosidade, experiências e descobertas. Toda a mística e mistérios que o Oriente lhe oferecia ele desfrutou. Na Índia, enlouqueceu do paladar e do espírito. Um guru, no meio da rua, lhe pegou pela cabeça, olhos dentro dos olhos e num inglês precário disse: Careful with the the sea, sailor. The wave may be large to much for your boat. Ele pensou que tinha sido a pimenta, mas a cena foi tão arrepiante que aquilo ficou marcado nele e nem mergulhar no Ganges, onde todos se banhavam, ele teve coragem. Os dias foram passando, ele esquecendo disso pelo caminho, continuou e provou gafanhoto na China, cachorro na Coréia, cobra no Vietnã. A temporada européia tinha rendido bem. Chegou ao Japão. Ohayou Gozaimasu, diziam no saguão. Ao desembarcar em Kyoto, observou que tudo aquilo até agora tinha sido pouco perto dos luminosos e do agito nipônico. Fez um tour gastronômico por aquela cultura tão distante, distinta. Parou em Osaka. O domínio de diversas línguas e gestos o ajudaram de certo modo na hora da hospedagem e da comida. Misturou francês com inglês para pedir um quarto, português com o arranhado japonês para conseguir informações. Entrou numa viela e bebendo saque (cachaça do olho puxado, pensava ele), assistiu pela TV um cozinheiro renomado fazendo fugu, lascas de baiacu. Com o arranhado idioma que entendia viu que apenas profissionais poderiam fazer aquilo, que a carne era venenosa e o corte tinha que se preciso. Balela, pensou. Japonês de piru pequeno. Saiu trôpego do restaurante, de manhã cedo já e foi direto numa peixaria. Iria provar ao mundo que as fronteiras da cozinha eram imaginárias, tanto em limites como na cabeça. Que qualquer coisa era permitida naquele território.

Comprou dois peixinhos, inflados, dum senhor baixinho, de cabelos brancos e óculos. 5 da manhã e saiu agradecendo: Arigato, mister roboto!. Foi tropeçando rumo ao albergue, pequeno, um quartinho, uma mesa, um colchão e a mala, com o estojo ganho do pai num longínquo Natal. Tinha incrementado algumas facas, e claro, a experiência desse tempo todo. Com um sorriso tolo no rosto que o saque provocara, começou a operação no pescado. Foi para a cozinha do mesmo, silêncioso, estrangeiros dormindo, esgotados com o jatlag. Limpou o peixe, a faca escorregando, ele buscando o ângulo certo. Tirou as entranhas, jogou na pia e acendeu um cigarro. Os esporões do peixe levaram um drible digno de craque pelos dedos embriagados. A fumaça subindo, atrapalhando a visão, a bebida na mente e ele manobrando a faca, o peixe como o empadachim empunha a espada frente ao adversário. Finalizou. Pegou um prato, fez um barulho tremendo, observou que mesmo assim a frágil atendente dormia na recepção.  “Vou comer tudo e dormir que nem um boi. Falando em boi, amanhã vou comer aquela porra de kobe beef“. Organizou as lascas no prato, decorou com wasabi de qualidade, hashis entre os dedos. A primeira lasca, meio desorientado, foi para a boca. Deu uma, duas, três mordidas. Engoliu. Há! Tô vivão! Vamo que vamo!. Pegou um pouco de água da torneira e bebeu. Sede etílica. A segunda lasca. Uma, duas, três. Ao final da terceira, sentiu os músculos contraírem. O olho vidrou no vazio. Zen. A japonesinha miúda acordou com o barulho do corpo desabado. Ele conseguiu ouvir os passos chegando na cozinha, viu os pés se aproximando, rentes e com as mãos na garganta pediu ar. Esta foi sua ultima visão. Ela, gritando para acordar os outros hóspedes, ainda tentou algo, mas quando percebeu os restos do peixe dentro da pia viu que de nada adiantaria. Com corpo envenenado pela toxina, o diafragma duro que nem titânio e a garganta vedada, imóvel, ele morreu, estirado no chão com a cabeça roxa. Sem ar. O tsunami foi demais para sua canoa.

Pra mim alegria é poder comer um caqui maduro, vermelhinho enquanto eu tomo banho numa manhã de segunda feira que eu acordei naturalmente, sem despertador maníaco. Maneira estranha de se começar um texto. Pra mim alegria é comer chocolate branco, farofa com carne moída e banana. É andar de carro escutando música, de dia, sem trânsito, de madrugada, sem barulho. Pra mim alegria é dar uma volta de bicicleta com sol, é correr, 10, 15, 20 apoios (o que pra alguns pode ser sofrimento). Pra mim alegria é ver um show na UFSC, acompanhado dos amigos e beber 3 cervejas por 5 reais. Show massa, duma banda boa, sem brigas, incomodações.. Pular num show, coletividade. “Alegria, alegria” como a canção do Caetano é ficar olhando janelas, abraçados, troca de carinhos com Ela. Ela e só com Ela, a “leoa de unhas azuis e íris cor de mel”. E não só isso, muito mais. Alegria é estralar as costas, esticar o corpo, massagear o seu corpo. Um sambão, com churrasco, cerveja, caipira. É ter banheiro disponível quando necessário, olhar pro lado e ver que há papel. É um copo de suco, de uma mistura porreta. Maracujá, gengibre e hortelã. Um copo de água gelada, um chá quentinho. É rever um amigo que não se via faz tempo. Alegria é ver quem merece se “fu”, daqueles que falam mal de tudo e de todos até grandes conglomerado maléficos levando no loló. Sensação de vitória com o sofrimento dos outros, eu sei, mas que é gostoso, alegre, ver quem merece se arrombar, é. Alegria é ver um filme da sua infância passar na TV, bem quando você não tem nada para fazer e um pacote de Passatempo na mão. Falando nisso, alegria é te oferecerem uma Passatempo sem você nem ter a oportunidade de pedir, mas estar desejando internamente frenéticamente. É fazer gol, fazer um ponto, jogar xadrez, ganhar alguma coisa e perder outras também, ser O Vencedor. Internet rápida, por todos os lugares da casa. Misto quente com raspas de limão. Castanha do Pará. Amendoim, paçoca, bolo de amendoim. Canjica.

É um ápice, um ecstasy, fogos de artifícios, tudo isso, comigo, contigo, unidos, colados, suados, ao mesmo tempo, juntos e combinados. É acender um incenso e ele queimar até o final, perfumando o ambiente, acalmando o lugar e a mente. É sentir o perfume no pescoço. É catch’a’fire. É ver seu pixo no muro (errado em certo ponto, eu sei) e saber que surtiu efeito em alguém. É ouvir da boca dos outros que se o mundo fosse igual a você (e a ele) tudo seria melhor e diferente, só porque jogou um suco de caixinha no lixo, um na frente do outro. É abraçar, beijar sua mãe. Cozinhar com seu tio, saber mais da vida de seus parentes, relembrar aqueles que já se foram e curtir com os que se fazem presentes. É ser diplomata com os outros, puxando a cadeira, abrindo a porta do carro, do elevador. Bom dia, boa tarde. Com licença, obrigado e por favor. É ser bem atendido. É sorrir. É ter uma coleção de tampinhas. E observar, num mar de coisas ruins, um barquinho vivo são e salvo, com um marinheiro feliz da vida. É escovar os dentes e não a dentadura. Alegria é aprender algo novo e não desaprender algo antigo. É dizer o que te faz bem num mundo em que a grande parte das coisas ultimamente só te fazem mal, da falta de comida até o excesso dela. É ler, fazer um texto como este. É rir. É mascar chiclete, chupar pirulito, sorvete, bala. É chuva com cheiro de terra, é sol com ventinho frio no inverno, flores nas árvores. É observar a beleza humana em suas diversas e diferente versões. É viajar no pensamento. É ter amigos imaginários, falar sozinho num mundo de normais e ser considerado louco. Vitória, flawless victory. Saber que alguém gosta de você e até saber quem não gosta, pra não cair em falcatruagem. Chorar pelas coisas certas. É a felicidade continuar no peito, não ir embora, deixando a saudade, por mais que necessária, para outro momento.

Aniversário.

por Marco de Castro, postado no Casa do Horror. Não só esse é muito bom, como todos os outros. Parabéns.

“Nunca vi alegria tão forçada”, pensava Seu Lair, olhando o filho, a nora e os três netos. Todos sentados à mesa, batendo palmas e cantando Parabéns a Você. “Parabéns pra mim? Por fazer 86 anos? Ser viúvo? Não beber? Não trepar? Não ter força pra andar até a esquina? Que bela merda!”.
Quando terminaram, o velho, sem nenhum entusiasmo, apagou as velinhas, em formato de oito e seis, no bolo floresta negra.
– Um pedação com duas cerejas pro senhor, Seu Lair _disse Alice, a nora, cortando o pedaço e pondo no pratinho.
Seu Lair o olhou, em sua frente, e soltou um suspiro.
– Que tristeza é essa pai? É seu aniversário _disse Guilherme, o filho, com um sorrisinho besta na cara.
– Se é meu aniversário, quero uma boa dose de uísque.
– Ô, pai… Que é isso? O senhor sabe que não pode…
– Caralho, uma porra de um copo de uísque não vai me matar. E, se matar, melhor. Tô cansado dessa vida de merda. Quero tomar um trago. Só isso.
Os sorrisos forçados foram começando a desaparecer. Os semblantes tornavam-se mais sinceros. Mostravam impaciência. Só o filho, heroicamente, se esforçava para manter o falso sorriso.
– Precisa falar desse jeito, pai? O senhor tá na frente dos seus netos…
– Paulinho, você acha ruim quando o vô fala palavrão? _perguntou o idoso ao neto caçula, que tinha 9 anos. Gostava daquele moleque.
– Não, vô.
– Você fala palavrão também?
– Falo, vô.
– Paulinho, o que é isso? Te boto de castigo! _ralhou Alice, visivelmente irritada.
– Deixa o moleque, porra! Essa vida é uma merda mesmo. Tem mais é que falar muito palavrão!
– O senhor não fale assim comigo, Seu Lair.
– Tô na minha casa. Falo do jeito que eu quero.
Agora Guilherme já não sorria mais.
– Pai, pára com isso. É seu aniversário e a gente veio aqui te trazer um bolo. O senhor devia ser menos mal agradecido e tratar a gente bem.
– Mal agradecido? Eu pedi essa porra desse bolo? Pega essa merda e vai embora. Me deixa morrer sozinho e em paz!
– Pra mim chega. Vamos embora, crianças! _disse a nora, levantando-se.
Os moleques a seguiram em silêncio. O único que disse “tchau, vô” foi Paulinho. Seu Lair sorriu pro guri, mas não falou nada.
– Amor, vai indo pro carro que já vou.
A esposa só olhou feio para Guilherme, pegando a bolsa e saindo com as crianças.
– Pai. A gente precisa conversar…
– Não precisa não. Vai embora com sua mulher e seus filhos.
– Pai, o senhor tá cada vez mais ranzinza. Desde que o médico te proibiu de beber, o senhor só dá patada. Assim tá difícil…
– Olha, Guilherme… Você sempre foi um bom filho. Acho legal você lembrar de mim e vir aqui com meus netos. Mas minha vida já acabou. Sou um velho de merda que daqui a pouco não vai mais nem conseguir limpar o próprio rabo sozinho. Tudo que quero é morrer antes de chegar a esse ponto.
– Mas pai…
– Não tem “mas pai”. Se você quer me ver contente, vai até o supermercado e me traz uma garrafa de uísque ou de vodka ou de conhaque ou de qualquer merda que tenha álcool. Quero ficar aqui, sozinho, enchendo a cara até morrer.
– PÁRA COM ISSO, PAI! Não vou comprar merda nenhuma. Agora chega. Andei vendo umas casas de repouso…
– Ah… Então você vai me largar num asilo… Num depósito de velhos…
– Vou. O senhor tá ficando louco. Não dá mais pra te deixar sozinho e não sei mais o que fazer…
Dito isso, os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. Ambos olhando para o vazio. Até que Guilherme se levantou.
– Bom… Vou indo. A Alice e os meninos tão no carro me esperando.
O velho continuou em silêncio. Nem olhou para o filho, que foi embora sem falar mais nada. Ficou sozinho, sentado em frente ao seu pedaço de bolo, desejando a morte. Pensou em se enforcar com o lençol. Depois pensou em cortar os pulsos. Mas lembrou que tinha as pílulas e decidiu tomar quarenta de uma vez. Levantou-se, foi até a cozinha e pegou o frasco cheio no armário. Voltou com um copo d`água para a sala de jantar. Despejou as pílulas sobre a mesa. Olhou para o floresta negra.
– Só queria um último trago. Só um último trago… _disse para si mesmo.
– Feliz aniversário…
A voz vinha de trás. O idoso virou e viu um homem encostado à parede da sala de jantar. Ficou paralisado.
– Parece que você tá vendo um fantasma, hehehe…
– E n… n… não tô? _a voz de Seu Lair quase não saía.
– É… Tá sim…
Só então Seu Lair reparou que o visitante tinha uma garrafa debaixo do braço.
– Trouxe o Jim pra comemorar seu aniversário com a gente. Você podia pegar os copos, não? _intimou ele, indo até a mesa com a garrafa de Jim Beam.
– Lizário… Você foi atropelado. Faz uns 40 anos… Eu fui no seu enterro. O que você tá fazendo aqui?
– Você vai pegar os copos ou não? Tô com sede… _disse o fantasma, sentando-se à mesa e pegando o pratinho com a fatia do floresta negra que Seu Lair havia ignorado.
O velho, não entendendo nada, levantou, foi até a cozinha e voltou com dois copos pequenos. Pegou o Jim Beam, enquando Lizário comia o bolo, e examinou a garrafa. “Puta merda”, murmurou. E encheu os copos. Esvaziou o seu em uma só golada. Sentiu a bebida descer rasgando e o gosto adocicado do bourbon.
– Meu Deus… Que delícia.
– Não fale em Deus. Quem te mandou isso foi o Diabo.
– O quê?
– O Diabo. Sabe? Eu, o Valtão, o Joca… Tamo tudo no inferno. De lá a gente vê a merda que os camaradas tão vivendo aqui. Ainda bem que não fiquei velho. Isso é que é um verdadeiro inferno…
– Ser velho é uma bosta…
– Com certeza… A gente fica vendo você aí, definhando, sem poder se divertir. Dá muita pena. Por isso resolvemos aparecer. Daqui a pouco os outros tão chegando.
Seu Lair já virava o segundo copo.
– Mas vocês podem sair de lá, vir pra cá assim, do nada?
– Não é do nada… É que caras que nem a gente, que passaram a vida comendo boceta, enchendo a lata e vagabundeando não podem ir pro céu. E acabam indo pro inferno, mas recebem um tratamento diferenciado. Não somos pessoas malvadas que merecem castigo como os estupradores de criança. Esses passam uma eternidade com um caibro no cu. Entrando e saindo.
– Caralho…
– Caralho não. Um tocão de madeira assim, ó _disse, mostrando com as mãos a grossura do negócio_. Depois de um tempo, o rabo do sujeito fica largo que nem um tubo de esgoto.
– Virge… Mas o que acontece com os bebuns no inferno?
– Não acontece nada. O Capeta gosta de caras como nós. Até aparece pra beber com a gente de vez em quando. Pegou um pedaço do inferno e construiu vários botecos. Ficamos lá, enchendo a cara o dia inteiro…
– Que bom… E como é que você veio parar aqui?
– Então… Como eu disse, de lá a gente fica observando tudo que acontece por aqui. Imaginamos que você ia ter um aniversário ruim. Aí eu tomei a iniciativa de trocar uma idéia com o Satanás. Ele autorizou nossa vinda e ainda deixou que trouxéssemos bastante bebida pra fazer uma festinha.
– Porra… O Diabo é gente boa…
– Sim, pra gente é. Agora; pros estupradores…
Os dois deram risada. No quarto copinho, o Jim começou a dar moleza. Lizário era o melhor amigo de Seu Lair, até ser atropelado, em 1974, aos 56 anos de idade.
– Você parece muito bem, Lizário. Tá com olheiras, cara de bebum, como era normalmente. Mas você tava muito mais velho quando morreu. Parece que rejuvenesceu…
– É que a idade do espírito é diferente da idade do corpo. No inferno não tem velho.
– Porra. Preciso ir pra lá agora.
– Relaxa. Daqui a pouco o Satanás em pessoa vai aparecer. Aí você troca uma idéia com ele.
– Porra… O Capeta na minha casa?
– É… Mas vamos mudar o assunto. Você viu a mulherada que chorou no meu enterro?
– Se vi… Ficou até chato. A Lurdes passou mal de raiva. Por falar em Lurdes, e as nossas mulheres? A Izidra morreu faz quatro anos.
– Eu sei. Mas ela foi pro céu. A gente não tem contato com o pessoal que vai pra lá… A Lurdes tá viva ainda. Cega, surda e numa cadeira de rodas. Mas é outra que vai pro céu. O Capeta falou que pro inferno ela não vai.
– É… Coitada da Lurdes… Então a Izidra tá no céu… Ela vivia na igreja e me enchia o saco por causa da bebida. Fico feliz por ela… Mas eu quero ir é pro inferno.
Logo começaram a chegar os outros camaradas. Valtão, Joca, Marivaldo… Aos poucos, a sala de jantar foi se enchendo de gente. Uns dez amigos da antiga apareceram. Zé, morto de cirrose em 1968, trouxe um pandeiro. Artur, vítima de um derrame em 1980, trouxe um cavaquinho. Sisnaldo, esfaqueado em 1975, trouxe um surdo. Seu Lair e os manos do inferno caíram no samba como nos velhos tempos em que freqüentavam o Bixiga.
Todos os mortos que chegavam traziam uísque ou cerveja.
– Amigos, e as mulheres? Não tem mulher na porra do inferno?
Seu Lair já estava completamente breaco.
– Calma Lair. Daqui a pouco ele tá trazendo a mulherada _disse Marivaldo.
– Ele quem?
– Ele… _Com os dedos, o amigo fez chifrinhos na cabeça.
A balada do além continuou a rolar. Na sala de Seu Lair, a roda de samba pegava fogo. Ele só não entendia como nenhum vizinho aparecia pra reclamar. De repente, subiu um forte cheiro de merda e a música parou.
– Porra… Alguém soltou uma bufa violenta.
– Não é bufa, Lair _disse Lizário, com cara séria_. É que quando ele aparece, no começo sempre tem esse cheiro. Mas logo passa.
– Ele quem?
– Lair, esse é o Diabo.
Lizário apontava para a porta da sala, atrás de Seu Lair. Que virou e viu um cara alto, loiro, boa pinta, trajando um chique terno branco.
– Prazer, Lair _disse o visitante estendendo a mão, com olhar sereno e voz de locutor de rádio.
– O prazer é todo meu, Seu Satã. Bem vindo à minha humilde residência.
Seu Lair apertou a mão do Capeta.
– Pensei que o senhor fosse vermelho e tivesse chifres.
O Capeta só deu um sorrisinho com o canto da boca.
– Também há gente que acha que tenho cara de bode. Mas não me chame de senhor… Ele está no céu.
Ouvindo isso, todo mundo caiu na gargalhada. Menos o Satanás, que continuou com seu sorrisinho sem vergonha.
– Tá certo. Mas muito obrigado por deixar meus camaradas virem aqui hoje com toda essa bebida… Tá sendo o melhor aniversário da minha vida.
– Agradeça a eles. Todos gostam muito de você. Especialmente o Lizário, que foi falar comigo. Além do mais, sua alma já é minha.
– Quer dizer que eu vou pro inferno?
– Você tem alguma dúvida disso?
– E quando eu vou?
– Logo… Agora quem precisa ir sou eu. Tenho que supervisionar a tortura de algumas almas. Principalmente a do papa, que chegou esses dias.
– Ele foi pro inferno?
– Todo papa vai… Obrigado pela hospitalidade, Lair. Estarei à sua espera.
Seu Lair novamente apertou a mão do Capeta, que deu meia volta e saiu da sala. O idoso então voltou sua atenção para os amigos e seu queixo caiu.
– Feliz aniversário!!! _gritou em coro a mulherada.
Vindas direto do inferno, antigas namoradas (as mais safadas), alcoólatras, prostitutas, mulheres que traíram seus maridos com Seu Lair. Em plena forma, elas correram para o idoso e o agarraram por todos os lados, beijando-o e se esfregando nele. Enquanto isso, os camaradas improvisavam Parabéns a Você, em ritmo de samba.
Depois de bombardear o velho com beijos, a mulherada começou a rebolar ao som da batucada e a formar pares com os manos de Seu Lair. A festa infernal estava completa. O aniversariante bêbado dançou com todas suas antigas amantes, uma por uma. Até que a mulata Eunice, a ruiva Isabel e a morena Vilma, três das principais paixões de sua juventude, o arrastaram para o quarto. Mas quando elas começaram a arrancar a roupa do idoso, ele, de súbito, sentiu-se deprimido.
– O que foi, Lair? _quis saber Eunice.
– Tô velho. Não agüento mais o tranco. Faz mais de 20 anos que não vou pra cama com uma mulher. Imagina com três de uma só vez?
– Não fala besteira, Lair. Você tá bonitão como sempre. Olha no espelho _disse Isabel.
Seu Lair seguiu o conselho da ruiva e se espantou ao ver, no espelho, a imagem de um jovem de 25 anos. Aí sentiu-se viril como nunca. Olhou as amantes com um sorriso quase maligno. As três estavam sentadas na cama. E o jovem Lair mergulhou no meio delas.
Guilherme voltou à casa do pai três dias depois. Já havia assinado a papelada da casa de repouso e estava receoso. Preparado para ouvir um monte de desaforos. Era muito difícil lidar com o velho.
– Pai!? _chamou, ao entrar.
Não obteve resposta. Passou para a sala de jantar. Espantou-se ao ver que a bandeja do floresta negra ainda estava sobre a mesa. Mas o bolo tinha sido todo devorado. Também viu as pílulas coloridas ainda espalhadas ao lado do frasco. Continuou a procurar pelo pai. Encontrou o cadáver no quarto, nu sob os lençóis e com um grande sorriso no rosto.
Seu Lair estava no inferno.

bolhas de sabão…

…são redondas pois este é o melhor formato ao qual adequam-se ao ar. ao mundo.

de uma caixa para outra
tudo começa
primeiro a incubadora
criança com cara de joelho
e você sai e vai para
sua casa
depois seu berço
o quarto dos seus pais
seus pais que vão lhe dar
uma caixa para brincar
a sala de tv, de estar, a cozinha
tudo caixa
sua escola
sua carteira
sua prova
seu carro
seu prédio de 10 andares todos quadrados
a casa de seus avós, tios, parentes distantes
shopping, cinema, boate, ônibus
seu banco
qual o nome dele?
tudo caixa, tudo quadrado
só a cerveja, que se diz redonda
mas é vendida em forma de caixa, também
e quando vão para reciclagem
amontoadas ficam em qual formato?
a caixa de sapatos
a caixa de sucrilhos
a caixa pote de margarina
a caixa dita “ó grande televisão”
a caixa reverenciada de computador
o elevador
seus vizinhos
a cela do preso superlotada
todos, em caixas
só mendigos que não
vivem embaixo das pontes
o jornal, a revista
a folha a4 210×297 mm
a bola do quico
o dado do jogador compulsivo
qua-dra-do
se você não mora num motel
sua cama é quadrada
você vê o mundo por uma janela 4×4
faça o quadrado
viva o quadrado
sinta, beba, coma
o quadrado
“ado-a-ado, cada um…”
você é quadrado
seu antiquado
para a sociedade
seu mundo, sua vida
as fotos, os retratos
os quadrinhos do Laerte
e sabe onde tudo vai acabar?
num caixão
advinha qual seu formato…

Continuam falando que o cigarro mata mais
de N na potência 15 pessoas ao ano,
que faz a gengiva retrair, o dente cair
fazendo lei anti-incêndio
mas ninguém deixa de fumar seu Derby,
Free, Marlboro de filtro amarelo, dia após dia.

Continuam fabricando carros e
vendendo como água em liquidação,
sepulturas de metal com
placas numeradas de identificação
mas cada vez mais as cidades, as ruas, garagens
mais parecem ralos entupidos de banheiro,
artérias com colesterol ruim

Continuam dizendo que a TV faz
o ser ficar mais burro, ignorante como déspotas
implorando: compre já a sua de 729 polegadas
e deixe a vida lá fora passar
mas ninguém se interessa em passar
das figurinhas da revista semanal
ou da coluna social do jornal Diário

Continuam entalhando mais
e mais armas, e as guerras tão ai,
os governos blablablando,
as fabricantes trabalhando, os tiros disparados,
os rebeldes cada vez mais revolucionários
e os corpos aos milhões empilhados

Continuam soltando dados sobre
a destruição da natureza, que temos, devemos
reduzir uma porrada de níveis por ai
que precisamos de áreas verdes e livres,
entretanto, vejam só, quantos edifícios novos
vem sendo construídos somente no seu lado da rua?

Continuam gritando que ter uma conta em banco
é o sinônimo da felicidade suprema, que existe
crédito para todos, do A ao C menos
mas veja só o passado batendo
na nossa porta, a toda poderosa potência
arruinada justamente pelo cifrão

Continuam alarmando que se beber, não dirija
porém em cada esquina, a estação do ano
a cada novo campeonato de futebol, a cada feriado
Ω novos casos de mortes em nossas
rodovias federais envolvendo o uso de álcool

Continuam bradando aos quatro ventos
políticos vagabundos, corruptos, extorquistas
Entretanto, você, caro ou cara leitora
luta pelos seus direitos ou até o
troco de um centavo do supermercado
deixa passar, deixa pra lá?

Continuam decretando que
sanduíches manufaturados fazem mal
mas quando foi a última vez que
comeu o gomo de uma laranja
deixando a batata frita, o x-bacon
o chocolate de sobremesa e o refrigerante
colorido artificialmente de lado

Continuam explicitando que o que vale
é a beleza interior, os sentimentos de verdade,
mas o Big Brother esta aí e não me deixa mentir:
tenha a maior bunda e o menor cérebro do mercado
seja atraente e vendedor, sem moral e sem pudor

Continuam proferindo que só o amor constrói
mas que amor dar num mundo em que
só o que rouba vence, só o que mata é coroado
o que é falso diz a verdade, só o que mente
não se sente culpado, só o que odeia
é o dono da verdade?

Continuam verbalizando que a vida é boa
contudo observem ao seu redor
tudo parece bom, parece bem, OK
mas você sai na rua e a primeira coisa que
faz não é pisar no chão e sim no maldito coco
do cachorro do vizinho.

Liberdade de expressão ou
consciência fragilizada?
direito de ir e vir ou apologia enganosa?
responsabilidade moralista ou falso alarme?
eu sou realista demais
ou andamos muito parados?
eu sou desnecessariamente bruto ou o
mundo demasiado duro?

PEARL JAM – DO THE EVOLUTION from felipe on Vimeo.