Ele o havia convidado prum almoço. Não era muito seu amigo, era mais companheiro de trabalho e estava precisando de alguém pra’quela aventura. Vamos? Vamos? E os dois foram. Saíram do prédio, foram caminhando. Os passos eram dados a medida que as pombas na rua iam voando, dispersando, Já tinha decidido qual, onde, como, que horas, quanto. Ele ficava imaginando como seria diferente. O coração palpitava forte. Montanha russa. Uma emoção nova, uma coisa nova, carne nova. Os amigos sempre comentavam, um deles que só fazia assim. Olhou para o outro e viu a tranqüilidade emanada de quem sabia o que fazer, um profissional. Limpava a saliva do lábio com a língua, água na boca de um faminto. Há quanto tempo você vai nesse? Ah cara, já tem uma carinha, lá tem umas gostosas. Sim. E não é caro, o melhor de tudo. Eu sei que por não ser caro vai muita gente de certo. Ah, nem ligo pra isso. É isso mesmo, lavo tá novo. E iam andando. Recusavam os panfletos que eram lhes oferecidos no calçadão. Muitos. Como a quantidade de gente. Formigas. Botox facial. Botox em 5 vezes. Pai Nanaorixá de Ogum. Caralhada de papel. Pra mim devia ser lei que essas porra de panfleto serem de papel reciclado. Na real nem devia existir, mas deve ter tipo, o lobby do papel panfleto. Na real devia ser de papel higiênico, eu levo pra casa e nem preciso compra pacote com 18. É (gargalhadas).

Chegaram na porta do edifício. Passaram pelo porteiro. O porteiro, que arrumava as cartas, nem mexeu a cabeça, sequer levantou os olhos. E isso que tinha muita gente ali. Ele já devia saber de cara quem ia em qual andar, só pela maneira que entrava. Podia sentir isso como um médico sente os bicos de papagaio na coluna do dolorido paciente. Pelo cheiro, como um cachorro. Pelo calor, como uma cobra. Era precipitação. Percepção. Leitura. Passaram por todos. Ele pensou quem já tinha ido ali. O que todos faziam aqui. Uns olhavam vitrines, outros apenas ficavam parados, olhando ou tentando achar o que olhar. Sacolas. Pegaram o elevador. 7’ andar. Ficaram quietos como todos os outros, apenas prestando atenção na imagem da TV. Porra de TV, porra de publicidade. Agora até dentro dos elevador. É foda. Tem que mete o pé nesse merda toda. Agora me apressam até dentro do elevador. Mostram hora, dólar, tempo, placar, horóscopo, dica de cinema, essa merda toda. Alienação. 7’ andar, senhores. Obrigado. Obrigado. Foram caminhando pelo corredor. Cabeleireiros. Jóias. Relógios. Perucas. Platina. Queria saber como eles pagam isso tudo. Sei lá cara. Eu tive um conhecido que morou num prédio desses. Deve ser mó legal, imagina. Uma gatinha pergunta e tu responde: Eu moro aqui. É. 708. Bem, é aqui. Vamos lá. Entraram, se sentaram numa salinha. Suco. água? Não, obrigado. Eu aceito uma água. Elas já vão vir. Sem pressa. A sala era branca. Tinha um balcão na entrada. Umas revistas. TV. Sofá. Tapete. Abajour.

Podem fazer o que quiserem também, mas com respeito pelas meninas. Ela tinha cara de travesti, parecia que já tinham anos no processo, sabia o que fazia. Deveria ser uma daquelas que já apareceram na TV e o cara vai entrevistar, perguntando coisas mais sem sentido que achar sentido na vida. Cuidava de suas preciosidades, mercadoria. Gado marcado. Tinha passado pelo mesma Via Sacra. As meninas já vão chegar, algumas estão no serviço. Vocês preferem esperar pra ver todas juntas? Tudo bem, assim já pega a mercadoria quente (gargalhadas). Mercadoria quente lembrava Kart. Pegar o carro que alguém já tinha andado com os pneus quentes e assim ter mais mobilidade, aderência na pista. Pista. Cama. Ficou nisso esperando as meninas chegarem. E chegaram. Uma a uma foram entrando. Michelle, Vanessa. Passando pela porta. 3, 4, 5. Tábata, Karina, Lucy. Até que ele voltou ao ambiente. Foi sugado, como a água pelo ralo. Aterrissou. Justamente naquela. Não conseguia acreditar. Não cabia em si. Não sabia se gritava ou se fechava a boca desacreditado naquilo. Vocês podem fazer 2 a 1, 2 a 2, 3 a 2 ou 1 a 1. Rola de tudo. E ela ria, sacana. 1 a 1 ele falou no ato, seco. E escolheu justamente ela. Como um leão determinando a zebra que vai comer. Vem. Tá apressado hein! o outro rindo. Eu vou de 2 a 1! Michelle e Fernandinha, vem com o pai. Depois a gente se fala, gente boa. E foram pro quarto enquanto ele ficava olhando ela. Frio. Congelado. Iceberg. Ela não expressava reação alguma. Olhou para ele e ele não reconheceu quem era ali. Nunca havia sido olhado daquela maneira. Era vazio. Como olhar pro canto de um quarto e só ter o escuro, a vastidão negra. sem nenhum sentimento. Vácuo. No entanto, era normal para ela. Era mais um. Apesar dele ser o um. Ela na frente, Entraram no quarto e se olharam.

Parados. Ficaram. Apenas um tapa. Ela virou a cara. Com o tapa e instintivamente. Não se mexeu. E lhe avançou. Parecia documentário. A reprodução dos bonobos. E como fodia. Foderam como nunca. Na cama. No chão. Desapoiados. Já tinha fodido antes, mas nunca daquele modo. Enfiava e tirava, metia e saia. E a violentava. E a penetrava. Ela nunca havia o sentido daquela maneira antes. Lhe fodia como não fazia havia tempos. No cu, na buceta. Metia rápido, rebolava o pau. Vadia! Vadia! Vem cá! e fodia. Ela se esbaldava, gemia, urrava, adorava tudo aquilo. Fizeram coisas que nunca faziam. Que o tabu não deixava. De quatro, de lado, por cima, embaixo, de pé. Lhe chupou. Lhe chuparam. Ele não era o primeiro do dia. Era o quarto. Meia hora era 25, uma hora 30. Anal. Oral. Tinha preferência por 2 a 1. Se fosse com a Lu, melhor ainda. Se conheciam bem, o corpo transitava com facilidade. Os clientes duravam em media 15, 20 minutos. Os 15 minutos, dependendo do cliente, ela cobrava menos. Ou então ficava com eles enrolando, papeando. Muitas vezes o cara gozava em 3 minutos. Ela contava olhando pelo relógio na parede, em cima da porta. Ele ia no banheiro, lavava o pau e voltava. Botava a camisinha. Ou recebia mais 10, se fosse sem. Ela como qualquer outra sabia que tinha que usar o tempo para lucrar mais. E tempo ela sabia usar bem. Conciliar a vida de casa com a vida do trabalho não era fácil. Tinha que o enganar e sabia enganá-lo bem. Inventava alguns atrasos esporádicos, coisa que ele não notaria. Se tornaria normal.

Sabia que se não fosse por isso, não teríamos o que temos hoje, disse ela, ao final, fungando uma carreira. Chegando em casa a gente conversa, respondeu ele. Ela voltou pra cama, ele botou o sapato. Saiu da sala e encontrou o colega. Eai cara, como foi a sua? Gostei. Como vão pagar, meninos? Dinheiro. Fazia tempos que não fazia com tanta vontade. Dá próxima vez que vier vai com ela. Pode crer. Obrigada e voltem sempre. Obrigado meu bem. Obrigado. Tomaram a rua. Deixa eu compra um pastel. Anda rápido. E voltaram pro escritório. Voltou ao seu cubículo, o mundinho 6,5 x 7,5, tomando um gole d’água. Respirou. A tarde passaria normal, apesar de tudo. Ficou impressionado com a naturalidade que encarou o ato, contudo não remoeu aquilo. A rotina seguiu e ele foi pra casa. Pegou filas, sinaleiras. O trânsito era cada vez pior. Ainda insistiam em ter aquelas merdas de carros americanos. 16 por 7. E vendiam a ideia de felicidade, de conforto. Ficavam 16 horas dentro deles. O trabalho, a escola já não era mais a segunda casa, muito menos a casa de seus, suas amantes. Eram seus carros que a cada acelerada dada, uma arvore era cortada nas florestas que eles tanto queriam preservar. Colavam adesivos nos carros querendo a salvação do planeta e o destruíram da mesma maneira que comiam seus hamburgeres gostosos. Achava que a cidade era a verdadeira selva, que o asfalto era barro. Agiam como animais. eram animais. Não diziam ser descendentes do macaco? Que eram mais parecidos com galinhas, com golfinhos? Todos eram animais, todos bichos. Sem erro.

Ligou a TV, esquentou o arroz. Feijão, bife. Coritiba e Flamengo! Um jogasso valendo vaga na Sobreviventes da América. Fritou alguma coisa. O porco passou andando. Ela chegou. Acariciou, brincou com o bichinho. Ele estava sentado. Permaneceram quietos. Não se olharam e ele deu uma garfada. A musica do telejornal. Ela passou, lavou as mãos. O abraçou e lhe beijou a cabeça. Os moradores do Jd. São Marlon estão reclamando das promessas não cumpridas do prefeito. Um gole de café. Há quanto tempo? Ele nunca havia desconfiado. Não passava por sua cabeça. Não interessa. Ele juntou o arroz e o feijão, fez um montinho. O porco os rodeando. Você ganha muito? Quase como você. E pra que você faz isso? Por desejo. Necessidade. Necessidade de uma casa própria? A gente faz em 67 vezes! Necessidade? De que? De ter o que? Você sempre corre o riscos. Governo federal, ajudando o Brasil a crescer. Até que acontece algo e você não tem de onde tirar. Dinheiro. Essa merda. Ela foi até a geladeira, pegou a maionese, salada e fez um pão. De hoje em diante. Ela estava de costas. ele levantou a voz, tranqüilo. E agora a previsão do tempo. Na região Sudeste do estado, temperatura máxima de 22 graus. Ele a mandou virar. De hoje em diante, vou ser seu dono, agente, seja lá o nome que dão. Não é assim, ela deu uma risada de canto de boca. Vai ser. E será. O porco cochilava no tapete. Se sentou. Se é pra você trabalhar nisso, eu quero saber pra quem você vai dar. Quero escolher quem vai comer você, quem vai gozar em você, qual pau você vai botar na boca. Olhar a cara do safado e ver o quanto ele merece pagar por você. Não vai ser qualquer um que vai bota o pau na minha mulher e sair rindo. Eu amo você e você merece mais. Na TV a apresentadora falsamente sorria. E lhe deu um tapa. Marlene descobre que é filha de Ivan. Vagabunda. E ele lhe deu outro. Roberto e Lila vivem uma noite de amor. Forte. Violento. Parecia um prédio dinamitado, com toda aquela poeira, área de isolamento. As câmeras filmando. Finalmente a tristeza veio abaixo, foi implodido. A força. Estralou e o porco abriu os olhos. Coritiba e Flamengo jogam hoje a noite por uma vaga na Sobreviventes da América. Ela se recuperou, com uma lágrima rolando pela marca da mão, vermelha. Desgraçado. O Flamengo vem treinando forte também. Pegou o garfo e lhe cravou na mão. Raiva. Ele não acreditou. Ficou chocado. Arrancou o garfo, derrubou bife, arroz, feijão, salada, maionese, pão, a mulher sobre a mesa, lhe rasgou a calcinha. Ela não acreditou e mordeu os lábios. O puxou pra cima com a mesma violência da cena, do ato e lhe avançou beijando a boca. Foi. O primeiro beijo do dia, o mais gostoso, esperado, desejado. Amor. Duas no mesmo dia fazia tempo. Com a mesma raiva, intensidade, era a primeira vez. Foderam de novo e o porco, que terminou com a comida derrubada, voltou a dormir. Uma mistura de sentimentos, sensações, um drink. Uma boa noite pra você. Boa noite e até amanhã.

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