Apareceu sem avisar no final da manhã.

– Amor, coloca essa venda e vem comigo!
– Onde, linda? Onde vamos? Espera!
– Vem, sem espera! Entra no carro, é surpresa!
– Opa! Calma! Adoro surpresas!

Ela o venda. De vestido modelando o corpo, batom de cor robusta, unhas devidamente feitas. Salto alto, preto, Christian Louboutin, 35. Planejou a surpresa no mesmo dia, é uma ocasião especial. Começo de tarde ensolarado. Tempo bom, céu azul, perfeito pr`uma fotografia. Ele não esperava pelo convite.

– Vem, devagarinho, olha os pés, olha a cabeça…
– Devagar…
– Entrando no carro, vem…
– Opa, entrando…
– Vai, bota o pé pra dentro. Peraí que vo fecha a porta. Bota o cinto, consegue?
– Fácil…

Um pensamento ligeiro com essa palavra, que logo se dissolve entre os neurônios. Passa a mão nos cabelos dele, um sorriso no ar, dá a volta e entra no carro.

– Vamos?
– Curioso pra essa surpresa
– Ó, não vale olhar!
– (risos) Nem uma espiadinha?
– Nem uma! Vendado de olho fechado!
– Vamos então?
– Vamos!

Ajeita o espelho. Dos olhos negros lança um olhar provocante. Liga o carro e vai dirigindo, conversando com o acompanhante vendado. Brincos com pedras transparentes, pulseira, uma corrente fina com um solitário singelo, anéis nos dedos anelares..

– Que será que você vai fazer…
– Ah, surpresa, seu bobo!
– Hmmm.. Espero que seja surpresa da boa
– Vai ser, excelente!
– Onde que é que a gente vai? Você tá tão sexy com esse vestido, desse jeito, que você tá planejando?
– Não vou contar…
– Vai, conta..
– Não…
– Vai…
– Não!
– Tem árvore, tem mar, pedra?
– Não sei…
– Tem prédio, é uma casa?
– Também não sei…
– Ah… É perto?
– Não…
– É longe?
– É…
– Hm… Que mistério. Que será que vais fazer…
– Espera que vais ver. Deixa eu bota uma música
– Tá cheirosa, deliciosamente…

Ele dá um sorriso, ela também. Os acordes de Walk On The Wild Side…

– Olha o sol, os passarinhos, as arv…
– Como que vou olhar vendado, com tudo escuro? (risos)
– (risos) Então deixa eu vê, o jogo das letras, que tal? Com bandas…
– OK
– A?
– Araketu! (gargalhadas)
– (gargalhadas) B?
– Bezerra da Silva vale?
– Só bandas!
– Bê, bê… Blitz!

No banco de trás um livro de Machado de Assis, uma cesta de piquenique…

– J?
– Jota Quest…
– K
– K? K? Ixi…
– Vai… K é tao fácil!
– Dá uma dica!
– Hm… Beijo!
– Beijo? Beijo?
– É…
– Kiss!

E vão pela estrada. Paisagem passando, faixas amarelas da estrada, placas… É um lugar distante, vegetação um tanto fechada. Poucas pessoas ainda sobram por onde o carro anda.

– `Tamô chegando?
– Daqui a pouco…
– Só quero ver onde você tá me levando…
– Espera então!
– Tô ansioso! Pra quê todo esse mistério?
– Ah… Quero fazer uma surpresa, uma coisa bonita pra você. Você merece!
– Eu? Pelo que mereço?
– Por tudo que você fez…
– Fiz?
– É…. Tudo que você anda fazendo, sabe?
– Hm… Então tá. Se é por tudo que eu ando fazendo tem que ser coisa muito boa e grande essa surpresa!
– Pode deixar, neném. Ó… `Tamô chegando…

14:21h. O carro entra por uma estrada de terra. Árvores, mato, vegetação alto, baixa, ninguém por perto. Afastado da zona urbana, nem uma alma viva num grande raio de distância. Os passarinhos, roedores, insetos em geral, não atrapalharão.

– Chegamos!
– Até que enfim!
– Espera ai, mocinho…

Ela sai do carro, abre a porta traseira, tira a cesta de piquenique. Anda um tanto e bota a cesta no chão. Volta e abre o porta-malas…

– Espera que já vou te tirar dai. E nem pense em tirar a venda, hein! Não estraga a surpresa!
– Tá bom! Vem logo!
– Espera ai…

Vai até o lado do caroneiro, abre a porta…

– Vem, devagarinho…
– Opa
– Olha a cabeça, vem andando, dá as mãos…

Ele sente a terra, os galhos secos quebrando, o cheiro de vegetação, de mato, de madeira molhada. Vai sendo guiado pela mulher, gostando do suspense. Ela, elegante, corte de cabelo bem trabalhado, espetacular.

– Vem andando…
– Só quero ver (sorrindo)
– Chegamos, não se mexe! Espera ai que já volto…
– Ei…!
– Espera…

Ela vai até o carro. Se olha no espelho, ajeita o vestido. Veste luvas brancas, limpas, virgens, juntamente com um avental do mesmo naipe.

– Ei, onde você tá?
– Espera um tantinho, um tiquinho…

Ela se aproxima, arruma a posição do corpo, finca os saltos, balança os cabelos…

– Posso tirar a venda, meu bem?
– Pode, querido…

Nos segundos finais em que a escuridão lhe cobria a claridade dos olhos, ele espera pela surpresa. Ela, com um machado em mãos, rosna ao vento…

– Sabe o que você tá fazendo, seu cachorro filho da puta?

A lâmina decepa o braço direito do indivíduo.

– SABE?!

Chocado com o acontecido, ele não esboça reação. O sangue jorra como água dum hidrante.

– EU SEI, SEU PORCO CRETINO!

Ainda lhe sobra força para girar o machado num movimento poético e acertar o crânio do individuo. Ossos, couro cabeludo, pele, veias, o lobo frontal na parte esquerda, rompidos. O líquido vermelho espirra no avental branco, ao ar, nas folhas no chão. O corpo cai, semi desmembrado, com o machado fincado, torto. O vestido, planejadamente da cor vermelha, recebe gotículas, mas nada preocupante. Descoberta a traição, a vingança lhe subiu na mente. Do alto dos seus 1.63m e 55kg, ela parecia um velho lenhador: mãos calejadas, pulsos firmes, braços fortes, com anos de prática. Após o feito, foi até a cesta, tirou o avental, as luvas e se deliciou, satisfeita, com o sanduíche e o suco de maçã, preparados com o mais puro amor, lendo “A Mão e a Luva”.

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