Passou o resto do tempo fazendo relatórios, analisando contas, finanças, batendo dados, telefonemas, xerox. Esperando até o relógio mover os ponteiros para a posição esperada, passar 10, 15 minutos, prosar aquele ultimo papo, dizer mais alguma besteira e voltar para o castelo onde era rei. E não foi diferente. Quando chegou ao final do último, olhou para o lado e viu que não havia passado 10, muito menos 15, mas 45 minutos. Sorriu feito criança que escapa da surra por pouco. Um primeiro tempo. 3/4 de hora. O tempo era como uma lombriga, uma Ascaris lumbricoides devorando alimento, intestino e um tanto de merda. Feroz e voraz. Poucas pessoas restavam no seu departamento, os faxineiros da noite já começavam a limpar as coisas e ele foi saindo. Passou pelo Romeu, que sempre limpava a área onde ele trabalhava e, não tendo nada a perder, puxou conversa com o mesmo, pra se distrair um pouco daquele mundo, saber como eram as coisas na vida real. “Boa noite doutor” “Doutor nada. Boa noite Romeu, como que tá?” “É doutor, vai indo. Apertando aqui e ali, mas deu pra comprar uma TV nova pra nega” “Pra ver a final do campeonato e emendar com o final da novela?” “Pra imitar os ricaços, doutor!” disse Romeu rindo. “Tá certo, Romeu. Boa noite pra você” “Boa noite, doutor”.

Entrou no elevador até o estacionamento. Entrou no estacionamento até o carro. Entrou no carro até em casa. Chegando, viu que a mulher não estava e o porco dormia tranqüilo. Sozinho. Deu graças que não havia cagado na sala e a fedentina fosse generalizada. Pois bem. Foi até o quarto, nas revistas escondidas, pegou a toalha e foi para o banheiro. Se trancou. “Punheta é uma ilusão: O cara pensa que tá comendo uma mulher, mas tá com o pau na mão” É o que o tio Luis sempre falava, desde pequeno essa frase martelava seu inconsciente moleque. Abriu logo na foto com um close maior do que ele realmente queria e foi folheando, passando as páginas. E ia no ritmo. Ficava no desejo de um dia poder comer uma gostosa daquelas. Bundas biônicas, peitos implantados, cabelos sintéticos, tudo feito, tudo lapidado, moldado pela tecnologia para o maior prazer, maior satisfação. Sentiria ser mais forte, mais predador, mais homem do que nunca metendo, fodendo uma daquelas. O pau pra lá, pra cá, indo e voltando. Passando as páginas. “Mais rápido! Forte! Forte!”. Na imaginação a voz da modelo era criada, sussurrando no seu ouvindo de maneira provocante “Mais! Mais! Me come! Forte!”. E ele ia ofegante, como a lebre imaculada que fugia do cachorro sanguinário.

Parou na pagina que ela aparecia na posição X, naquela que ele gozaria como um potro selvagem reprodutor chucro. “Mais! Mais! Aaaaaaaaaaaah!” fez o grito na sua cabeça. E gozou por toda a revista, pelo chão, parede do banheiro. “Leite quente, sua safada!”. Era como um adolescente naquele momento, um menininho com espinhas na cara e bigode ralo por fazer. Que ficava na ansiedade de fazer o serviço logo para não desconfiarem do tempo que passava trancado no banheiro, não virar exemplo nas conversas de família. Sem levantar suspeitas. Não conseguia se olhar no espelho após tal ato. Ficava um tanto recriminado, reprimido ao fazer aquilo. Envergonhado por ter mulher em casa e ainda se comportar como um mancebo. Tinha aquela bucetinha ali e ficava gastando fluidos a toa. O pau ficava duro ao imaginar a buceta da mulher. Não só a dela. De imaginar uma buceta, qualquer uma: Negra, ruiva, mulata, morena, índia, loira, japonesa, turca, de velha enrugada e pelancuda.

Ao sair do banho viu que ainda estava só. Estranhou o atraso da mulher. Ligou a TV, o computador, esquentou a janta e ficou dividido entre os 3. Na TV, anunciavam mais dados, mais uma alta na bolsa, uma alta nos juros, comércio. “Será que só eu não entendo nada disso ou tem mais alguém que não dá a mínima pra esses números todos?”. Era estranho. Mesmo trabalhando com tantos dados, se questionava para quem interessava aqueles números. Aquelas porcentagens valiam para quantos por cento da população? Queda de 7,55% no mercado de futuros para 3,90% de uma população de 56,22%. Os juros da poupança que fazem aniversário hoje subiram 0,81%. Para que serviam tantos? Será que o pessoal que limpava o escritório saberia o que isso dizia, diferente dele? Será que ao mesmo tempo que o Romeu ficava passando paninho, cantarolando pagodes antigos, ele e outros também discutiam o quanto as ações do Mercúrio, do Ouro, do petróleo tinha crescido naquela semana? O pessoal que tinha que pegar 3, 4 ônibus, lotação e tudo mais conseguiria explicar para ele porque é tão importante saber a linearidade da taxa de impostos sobre o contribuinte móvel?

Já na internet ele não sabia o que olhar. Aquele excesso todo, aquele clique aqui, entre aqui, leia aqui, olhe aqui. Cores, anúncios, desperdício de espaço. Era como uma criança birrenta e mimada chamando sua atenção. “Tio! Tio! Olha pra mim! Tio! Ei!”. A vontade era de pegar o monitor e destruir com o teclado. “O tioooo! Tio! Ti-o! Ei! Olha o que eu sei fazer!” Se enforcar com o fio do mouse, se cegar com o pendrive. Não sabia para onde ir, não sabia por onde sair. “AQUI TIO! AQUI TIO! OLHA PRA MIM, DESGRAÇADO! OLHA AQUI CARALHO!”. A selva de concreto. Babilônia delirante. “EI! AQUI! VEM CÁ! OLHA PRA MIM! ANDA PORRA!” Foi direto na tomada e desligou tudo. “Uh!”. Fechou. Apagou. E se concentrou na janta. A mulher chegou. “Por onde você andou?” “Trânsito, trânsito” “É, complicado”. O porco olhava os dois. “Mas então, tudo bem?” “Tudo. Como foi no escritório?” “Só foi. E você?” “Eu to bem. Amanhã tem o aniversário da Lúcia. Acho que vou me atrasar de novo, ok?” “Ok, divirta-se”. E lá foi ele para a frente da TV, agora na sala. 42″ de entretenimento explícito. A noite corria, a noite passava. Ele ficava cá, a mulher lá e o porco perambulando pra lá e pra cá.

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