O Grande Livro da Poesia Medíocre

A capa é feia, mas o interior é bonito.

A capa é feia, mas o interior é bonito.

Sim, eu não tenho nem um ano nessa budega e já estou lançando um livro. Sim, eu poderia colocar pra baixar em PDF e o escambau, mas… Não. Sabe porque? Porque eu sou mau. MWHAHAHAHA! [E preguiçoso. (Mentira)]. Na verdade é que são poesias que já postei aqui [este livro é só de poesias, os próximos (já pensa alto o menino. proximoS) serão com outros temas. Ou não] e vocês, se quiserem ou não, podem lê-las aqui ou lê-las no livrinho. Enfim, este é meu livro, 16 páginas, frente e verso, totalmente feito em casa, por meus pés e minhas mãos. E estou vendendo-o. Quem quiser de grátis (se morar aqui por perto)/comprar e ainda ajudar A Casa do Escritor Desamparado uma das cópias é só comentar nos comentários deste post. Ah, o preço modesto e módico é o de uma carteira de Marlboro Lights Box: R$ 4.75. Obrigado e um excelente resto do dia.

Pois bem. Estava eu a pensar com os parcos neurônios esfumaçados que me restam sobre Florianópolis, a ilha da magia e do esgoto desencanado. Morei aqui grande parte da minha vida de 24 anos e, enfim, tenho direito e autoridade para falar sobre a mesma. Poderia falar bem, mas isso eu deixo para a edição de turismo da Veja. Vamos falar mal que é melhor e mais fácil, não precisa de muito empenho e tudo mais. Poderia dar solução/soluções, contudo não adianta pois preferem deixar sem solução/soluções como o caso da Família RBS. Então, pensava eu intimamente para que servem algumas coisas daqui, pois temos várias coisas, bonitas e feias, úteis e desagradáveis e para todas elas temos algum uso, certo? Um pouco mais de uso, um pouco menos de uso, mas algum destino, alguma função elas possuem. E na minha lista, pois bem, caro e amigo leitor, estava eu a debater mentalmente sobre três das varias coisas que Florianópolis possui e faz uso, contudo são elas um pouco mais, um pouco menos importantes que as demais. Estava eu a pensar sobre o nosso prefeito, a Guarda Municipal e a Ponte e Cartão Postal Hercílio Luz e lá vai a titica que eu pensei.

Todos nós, habitantes dessa ilhota, sabemos que nosso prefeito anda sumido. Ou quem fala é o vice ou quem fala é a copeira do seu gabinete dizendo que ele não esta e perguntando se é pra deixar recado. Onde esta o prefeito, pergunto eu? Pergunto eu, para mim e para vocês, para que serve o atual prefeito D.E.Berger, sagitariano, 54 anos de idade, Bom Retirense de certidão e coração. Nosso prefeito, dizendo mais, já foi prefeito da nossa co-irmã cidade de São José, fazendo até alguma coisa por lá que foi… Eu não sei. Se você mora pelas redondezas e sabe o que ele fez, comente. A tal cidade hoje é administrada pelo seu irmão “Dijauma” Berger, vale ressaltar. E o que ele fez ou o que deixou de fazer, bem, só o povo de São José sabe. Voltando ao prefeito, eu me pergunto: Prefeito, o que você fez pela gente? Muitos irão dizer que ele fez o tapete preto, que bom… Já está escangalhado. Outros irão dizer que ele fez a Beira Mar Continental, que bom… Quantos carros já passaram por lá?. Alguns outros irão falar que ele, bem, é um prefeito ecológico, que bom… E a Moeda Verde? Falando em ecologia, tem a árvore de Natal, né, barata e ecológica. Poucos irão falar que ele é um negociador nato, jogador caro, formado em administração, que bom… E o Passe Livre e sua empresa de transportes? E alguém irá falar mais alguma coisa? Alguém? Sim, eu poderia falar mais, contudo… Próxima divagação.

Os Smurfs! A nossa querida e amigável e sempre prestativa Guarda Municipal. Os garotos e garotas alegres e sorridentes com seus coletes e suas motos e seus carros zeros, pimposos com seus bloquinhos de multa. Para que serve eles? O Cesar Valente, jornalista daqui, em seu blog, comentou: Para nada, “Inúteis”, quase como a música. Eu e a torcida do Figueirense, Avai e Guarani de Palhoça também achamos. Na verdade, eu vislumbro que eles servem para duas coisas: Dar apitinhos em carros parados ou em qualquer coisa que tenha rodas e esteja parada, até carrinho de bebe no meio da rua & observar a paisagem do nosso lindo por-do-sol e o movimento dos transeuntes, ao invés de auxiliar os mesmos num trecho de avenida mal planejado (mas isso não vem ao caso agora), no terminal central. É. Isso e outras 2 coisas que bem, não deve ter importância. Ah! E o superfaturamento de armamento e equipamentos militares, creio eu também. Ou não? A moda é ter segurança. Dizem as bocas também que o comandante (ou foi ou é) da G.M.F é sobrinho do ex-secretário que autorizou a criação da mesma. Enfim, eles servem para alguma coisa, ato falho meu. Coisa ruim ou coisa inútil, mas servem. Segue…

A maior teta governamental-municipal que já existiu e existirá nesse estado. É assim que eu considero a Ponte Hercílio Luz. A primeira reflexão que vem nesta cabeça pensante é quem ou qual bulhufas constrói uma ponte de ferro sobre o mar? É. Ninguém passa por ela, a não ser os passarinhos e as gaivotas cagonas. Ciclistas, pedestres, cadeirantes, enfim, ou pegamos um ônibus e pagamos caro ou vamos de carro e pegamos fila ou vamos por debaixo de uma das duas pontes e pegamos chuva, isso se não pegarem nossa carteira. Na Wikipedia temos toda a história da nossa maior fonte de fotografias dos que visitam nossa Ilha. Vou botar aqui um trecho interessante para ninguém perder tempo, pois já esta perdendo aqui, de ir até lá:

Depois de obter empréstimo equivalente a dois orçamentos anuais do Estado de Santa Catarina, o governo finalmente iniciou a construção da ponte em 1922. Todo o material foi trazido pelos estado-unidenses, os engenheiros Robinson e Steinmann. O pagamento dos empréstimos, feitos junto a bancos norte-americanos, só foi concluído em 1978, mais de 50 anos após a inauguração da ponte.

Desde o princípio, o processo de financiamento foi complicado. O primeiro banco que havia emprestado os 20 mil contos de réis ao governo catarinense faliu. Assim, um novo empréstimo teve que ser obtido, atrasando as obras. Além disso, uma manobra dos banqueiros estado-unidenses fez com que o Estado de Santa Catarina se responsabilizasse por dívidas da instituição falida. Ao final, o custo atingiu 14 milhões 478 mil 107 contos e 479 réis — praticamente o dobro do orçamento do Estado à época.

É. E esse ano foi destinado dos cofres públicos e seu orçamento 177 milhões para sua reforma, fora o que os outros governos destinaram para o mesmo fim. Que bom. Pelo menos não estão botando fogo no meu dinheiro. Que bom.

Essas foram apenas 3 coisas que merecem comentários sobre o que servem ou não. Pensei em falar sobre a Zona Azul, as ciclovias, o Plano Diretor, o tratamento de esgoto, as lombadas eletrônicas/pardais/multas falsas, nossos vereadores, os ambulantes peruanos, os distribuidores de panfletos de dentista e puteiro, a cultura quase inexistente, pois, muitas coisas, mas isso é assunto pra mais de metro e pra outros posts. Pois bem, é isso. Obrigado pela sua falta de atenção.

Um dia eu tentei ser punk… (e várias outras coisas).

Carrinho de Compras da Morte

Só carne, só carne é o que você quer
Picanha, maminha, alcatra e filé
Gordo vai ficar, logo vai enfartar
Se de comer essa merda você não parar
Já vejo nos seus olhos o seu sofrimento
55 anos e um câncer no cu
Matar, matar, comer, comer
Frango, boi, sem chance de viver

Ama, mata, fatia, come
Se berra, se grita, é carne, é bom
Frango, boi, porco ou galinha
Coração, costela, rabo, vitela
Ama, mata, fatia, come
No supermercado vô direto pro açougue
Carne, carne, carvão e mais carne
Carrinho de compras da morte!

Artéria entupida, coração parando
Pela orelha gordura jorrando
Falando de orelha, que tal uma feijoada?
17kg de costela defumada!
Pra que vegetal se carne é mais gostoso?
Com sangue pingando fica bem mais saboroso!
E se eu morrer de carne não vai ser!
120kg de tanto Big Mac comer!

Punheta

Programa a meia noite já não tem mais graça
Só aparece mulher de perna fechada
Eu quero é aquela vista
Eu quero brincar de ginecologista

Punheta! Sem repressão!
Eu quero bater uma e soltar a imaginação!

Já disseram que dá pêlo na mão
Socar uminha é a solução
Pra descontrair e relaxar
Vá para o banheiro e descabele o Bozo já!

Patty Punk

Com seu rosto bonitinho e seu cabelo ajeitadinho
Sua roupa arrumadinha e Sempre Livre na calcinha
Ela sorri para todos, mas peida feito um porco
Ela se acha socialite, mas fuma Derby Light!

Ela é a patty punk! Patty punk! Ôô… Patty punk

Ela rebola dançando funk e quebra tudo na roda punk
Ela vê malhação e se inspira na Barbie
Mas quando escuta um Ratos de Porão
Não há quem a pare!

Ela é a patty punk! Patty punk! Ôô… Patty punk

Ela bebe e fuma e tem bolsa da Puma
Ela escuta Sex Pistols e sua roupa da diesel
Ela tem um coturno e um A tatuado
Mas escuta Charlie Brown e tem o corpo dourado!

Botei Teu Filho na Maconha

Suvacos cabelos, pernas não depiladas
O que você acha que eu sou?
Pregando a salvação, a palavra do senhor
Sessão do descarrego todo mundo é ator
O povo morrendo e você ai rezando
E a sua mulher de Audi andando!

Igreja universal é o câncer da nação
Jóias, dinheiro e um monte de carrão
Aleluia, aleluia, aleluia meu irmão!
Doe seu dinheiro e encontre a salvação!

De unha encravada até viadagem na família
Para tudo existe salvação
Desvio de dinheiro, metidos em corrupção
Deposite seu dinheiro, conta tal meu irmão
Pastor, estou cego, o que preciso fazer?
Beba essa água e vamos rezar por você!

Além de ninguém tocar minhas músicas (nem eu) e agora passar “vergonha”, dá pra ver que do ruim eu passei pro menos pior. Jogador. E caro.

– Müller, Gonçalves, Soares, Antunes e Peixoto. Estes são os terceiros sargentos que atuarão na quarta-feira, na final da Libertadores. Estão dispensados, senhores.

Hoje era segunda. Soares desabou. Como aquilo? Com ele? Por que? EO EO TODO PODEROSO TIMÃO! EO EO TODO PODEROSO TIMÃO! CHEIRO FARINHA, FUMO MACONHA, SOU CORINTHIANO MALOQUEIRO E SEM VERGONHA. O Corinthians, sua grande paixão, seu time do coração, sua religião, tinha chego a final da Libertadores. Contra o Palmeiras. E ele, terceiro sargento promovido ao cargo em 2009, ia perder o jogo. Não que ele iria perder o jogo, pois estaria trabalhando no campo, fazendo segurança, cara a cara, olho no olho da bola, dos participantes. Isso era bom, mas não era como ir para a arquibancada. Para ele a arquibancada era A Arquibancada. Ah! A Arquibancada! Para ele era como seu quarto de dormir, o lugar preferido da casa. A arquibancada é onde ele se sentia seguro, se sentia bem, onde seus amigos estavam, sua felicidade estava, sua vida estava. A arquibancada. E ele não estaria lá quando o time, quando o todo poderoso timão, quando o Sport Club Corinthians Paulista, desde 1910, mais precisaria dele.

– Sargento, será que não tem como me dispensar desse dia? Sabe, Corinthians, Palmeiras, será que não tem como trocar com alguém de folga, sargento?.
– Negativo, terceiro sargento.
– Obrigado, sargento.

Era segunda de manhã quando nessa noticia implodiu o interno de Soares. TIMÃO, TIMÃO, CORINTHIANS, CORINTHIANS, GA-VI-ÕES DA FIEL! VAMO PORRA! TIMÃO EO! TIMÃO EO! TIMÃO EO! TIMÃO EO! Soares era tocador de bumbo da Gaviões quando não estava vestindo a farda, conquistada e garantida em um concurso público. Segundo grau, sem saber o que esperar da vida, as portas de uma das 220 vagas se abriu e ele entrou. E foi ser policial militar, o menino nascido no Grajaú. Segunda-feira, o pesar da notícia assistindo o programa do meio dia, falando sobre o jogo. O Corinthians com o time completo, 2 cartões amarelos, o Palmeiras desfalcado de um, dois jogadores, mas sempre poderoso, o Corinthians havia de respeitar e ser respeitado. Final de Libertadores é diferente de Paulista, Copa do Brasil, enfim, é diferente de tudo. Nunca houve um título internacional na galeria alvinegra e a chance era essa, após um resultado de 2×2, o Corinthians disputava o título em casa, ainda mais contra o principal rival, era um motivo mais que especial para o terceiro sargento Soares estar na arquibancada.

– Pedro, não vai dar.
– Porra, mano, que… Foda. Meus pesares
– Porra, mano… Disse o sargento com os olhos marejados. Porra.

Com a medalha de São Jorge no peito, Soares acordou na terça-feira. Abriu os olhos, mas não quis se levantar, era o trecho da música que tocava no radinho da esposa na cozinha, preparando o café para ele. Soares tinha como exemplo o pai, corinthiano também, e seu Vicente Matheus, presidente eterno do Corinthians. Guardava recortes, poucos, mas importantes sobre os aniversários, as conquistas, os principais embates. A camiseta da Gaviões era uma relíquia, era seu manto, sua camisa mais bonita, preta, com o gavião branco. A jaqueta, a bombeta, a calça, a camisa 1 e 2, a de goleiro, o chaveiro e o adesivo no carro, isso também ele considerava relíquia. Isso tudo empatava em sentimento com a farda militar. O Corinthians e a polícia. Se tinha que fazer alguma coisa, faria com amor, como faria pelo Corinthians. Era terça-feira, meio dia, e Soares era instruído pelo Sargento Grecca sobre como seriam os procedimentos. Ele e mais uma centenas de policiais militares. Como agir no jogo em caso de confusão, conduzir as pessoas, manter a calma, enfim, o pano rápido de sempre. CORINTHIANS EU TE AMO TANTO! CORINTHIANS MINHA VIDA, CORINTHIANS MEU AMOR, EO EO EO! CORINTHIANS EU TE AMO TANTO! ÉS MINHA VIDA, MEU LAR, MEU VIVER! CORINTHIANS! Soares participava da banda do quartel, onde novamente tocava bumbo, aprimorando-se mais para fazer bonito na arquibancada, dar show junto a torcida. Terça-feira. E amanhã era quarta.

Ele não dormiu. Não pregou o olho um minuto sequer ontem de noite, rolou de um lado pro outro, saiu da cama, tomo agua, mijou, lavou o rosto e não dormiu. Shirley reclamava para Dona Silvia, mãe de Soares, quando ele se despediu: Até depois. Iria ser a quarta-feira da vida dele. O dia estava nublado e garoava finalmente. Vão ter que jogar com chuteira baixa e atenção no toque de bola, pensou Soares embarcando no ônibus para o quartel onde se fardaria, se armaria, seria lembrado das devidas medidas e precauções e iria para o Morumbi fazer o patrulhamento, a segurança do jogo. Passou a tarde, veio a noite.

– BOA NOITE PARA A TODA A REDE ELDORADO ESPN DE RADIO DIFUSÃO AM 700! HOJE É FINAL, HOJE É DECISÃO! CORINTHIANS E PALMEIRAS, PALMEIRAS E CORINTHIANS! ÚLTIMO JOGO DA FINAL DA COPA LIBERTADORES DA AMÉRICA! O PRIMEIRO JOGO DEU EMPATE, 2X2, E NA NOITE DE HOJE ESPERAMOS CERCA DE 80.000 TORCEDORES PARA ESTE CLÁSSICO QUE DECIDE O TÍTULO DO TORNEIO DE FUTEBOL MAIS IMPORTANTE DA AMÉRICA LATINA. EU SOU CLEDI OLIVERA E ESTE É O ABRE JOGO DA FINALÍSSIMA DA LIBERTADORES DA AMÉRICA!

Entre a fumaça do churrasquinho e outros quitutes, das latinhas se abrindo, do corre corre, das buzinas, músicas, enfim, este era mais um som que se misturava entre as milhares de vozes ali presentes, aos redores do Morumbi. Mas nenhum som, absolutamente nenhuma voz, nada, o vazio completo, o branco, o silencio, nada, se fazia na cabeça de Soares. Era uma tristeza até certo ponto tola, como já expliquei, ele iria trabalhar ali frente a frente, com a bola, coisa que muita gente gostaria de fazer nessa noite tão especial, não se entendia por qual razão esta devida tristeza estava em Soares. Certo que a arquibancada tem toda sua magia, todo sem bel-prazer, mas o trabalho no campo também. Essa duvida rondava o ser de Soares, sua aura preta e branca. Porque, Deus, porque? Logo eu? Logo eu! Porra!. 21h30 da noite. Soares entra no campo do Estádio Cícero Pompeu de Toledo. Fardado com colete, capacete, todo o aparato militar, juntamente com os tantos outros companheiros de profissão e de paixão. 81.657 pessoas, dividas entre branco, preto e verde. Palmeiras e Corinthians. Ele se posicionou devidamente, fez a ultima oração e rezou para que tudo desse bem. Para ele e pro timão. A garoa que parecia ter amenizado volta como uma leve chuva, que começou a cair quando os jogadores voltaram do aquecimento. Soares suspirou. A campanha do Corinthians naquela Libertadores era boa. Grupo 3, 11 pontos, 6 jogos, 3 vitórias, 0 derrotas e dois empates, seguido por Cerro Porteño, Olímpia e Barcelona de Guayaquil. Nas oitavas-de-final enfrentou o Emelec e ganhou os dois jogos, nas quartas o Vélez Sarsfield, com um empate na Argentina e vitória fácil no Brasil, nas semis, contra o Santos, dois empates, 5×3 nos penaltis e até agora, na final, 2 gols de Vampeta e um gol de Alex, outro de  Evair. Começou. O apito soou. Soares suspira de novo.

– O PRIMEIRO TEMPO TERMINA AGITADO. O A O, MUITA PROVOCAÇÃO DOS DOIS LADOS, AS TORCIDAS ESTÃO INCENDIADAS, GRITANDO, CANTANDO, INCENTIVANDO AS DUAS EQUIPES. OS TREINADORES BATENDO BOCA, O JUIZ APARTANDO OS LADOS, ESCUTANDO MUITO TAMBÉM. DO LADO DO CORINTHIANS, DECLARAÇÕES PROVOCANDO O ADVERSÁRIO, ACUSANDO CORPO MOLE. DO LADO DO PALMEIRAS, A EQUIPE PALESTRINA RECLAMANDO COM O JUIZ DE UM PENALTI NO FINAL DA PRIMEIRA ETAPA. ENFIM, O QUE NOS ESPERA NESSE SEGUNDO TEMPO SÓ DEUS SABE E A CHUVA ENGROSSA EM SÃO PAULO E COM ELA ENGROSSA O CANTO DAS TORCIDAS.

Soares chega junto da mesa do quarto arbitro para beber um copo d’água. Observa o trabalho dos gandulas, da equipe de imprensa, dos profissionais extra-campo, uma analise geral, crítica. Estava bonito o espetáculo e o pobre Soares estava como uma barreira impenetrável. De emoções. Torcia, contudo internamente, e não deixava nada passar essa barreira. Não podia demonstrar, não ali. SALVE O CORINTHIANS! O CAMPEÃO DOS CAMPEÕES! ETERNAMENTE! DENTRO DOS NOSSOS CORAÇÕES! SALVE O CORINTHIANS! DE TRADIÇÃO E GLÓRIAS MIL! TU ÉS O ORGULHO DOS DESPORTISTAS DO BRASIL! O canto vinha das arquibancadas e ecoava, reverberava dentro da cabeça do terceiro sargento Paulo José Magalhães Soares, 34 anos, 14 de polícia. O São Jorge esculpido na medalha carregada no peito era a proteção nos momentos e minutos de ansiedade, de perigo, de desespero, de alegria, os perigos em que a vida se fazia inquieta. Soares não tivera muito desses momentos em sua vida, mas nos que teve recorreu ao santo protetor sem exitar e foi prontamente atendido. E este era O momento. Vamo meu Corinthians, vamo santinho São Jorge do coração alvinegro. Vamo gavião. Vamo ganha essa porra e ir pra Tóquio! Vamo porra! Vamo Corinthians! AQUI TEM UM BANCO DE LOCO! LOCO POR TI CORINTHIANS! AQUELES QUE ACHAM QUE É POUCO! EU VIVO POR TI CORINTHAINS! SOU EU! SOU EU! SOU EU GAVIÕES SOU EU! Este era o verdadeiro Soares. Soares, o corinthiano.

– OS TIMES VOLTAM PARA O SEGUNDO TEMPO, ALGUMA ALTERAÇÃO, ELIAS? NENHUMA DO LADO PALMEIRENSE. ALGUMA SUBSTITUIÇÃO, PEDRO SÉRGIO? NADA DO LADO CORINTHIANO. ENTÃO VAMOS QUE VAMOS QUE É FINAL, É CORINTHIANS E PALMEIRAS E EU NARRO DAQUI, VOCÊ OUVI AI E A GENTE VIBRA JUNTO PELA JOVEM PAN AM SÃO PAULO! VAMOS JUNTOS PELA PAN! PALMEIRAS E CORINTHIANS, FINAL DA LIBERTADORES! COMEÇA O SEGUNDO TEMPO COM A SAíDA PALMEIRENSE.

O segundo tempo foi jogo lá e cá. O Corinthians explorava o lado direito palmeirense, enquanto este respondia pela centro, formando perigosos contra-ataques. Aos 14, falta na entrada da área, Marcelinho se ajeita, a torcida também, Marcos lambe os lábios, grita, ajeita a barreira verde, os jogadores naquele empurra empurra dentro da grande área, puxões, palavrões, o juiz gritando, arrumando a barreira, não deixando mover. Marcelinho olha, Marcelinho na bola, a bola nos pés de Marcelinho, Ríncon perto dele, olho no lance…

UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU! TIMÃO EO! TIMÃO EO! TIMÃO EO! TIMÃO EO!

A bola passa rente a trave de Marcos, raspando a cabeça de Júnior e sai para fora. Escanteio. O pequenino jogador pede que a torcida incentive mais. Gotícula a aba do capacete cinza de Soares, que aperta os dedos da mão, tentando conter o ânimo interno. O Palmeiras reponde logo em seguida, com Arce dando um majestoso lançamento para Alex, aos 20, perigoso como sempre, perder cara-a-cara, num lance extraordinário, com o goleiro Dida. As duas torcidas esgoelavam-se nos anéis do Morumbi. O nervosismo era físico, era o camisa 12 das duas torcidas, presentes naquela noite de 16 de junho. Era um que era um a mais, um torcedor incomum. A chuva era constante, mas mesmo assim o jogo não se tornava feio, pelo contrario, era marcado pela pura emoção. Meios midiáticos de todos os cantos da América Latina, dos recantos dos andes bolivianos aos desconhecidos narradores norte-americanos estavam com os olhos fixos no campo, atentos a cada lance, a cada ameaça do juiz de puxar um cartão, de apitar um lance, a cada expressão de dor, de fingimento, de questionamento, de atividade física, emocional, dos 22 jogadores, guerreiros. O segundo tempo ia decorrendo e o tempo passando, pela casa dos 30 minutos. 0 X 0 e a partida ia para o penaltis. Quando se olha, Luis Felipe Scolari arruma briga com Dinei e é expulso. A confusão se arma, Soares se apronta. O desfecho termina em mais dois expulsos de cada lado e o Morumbi é um caldeirão prestes a explodir a qualquer momento. No rádio, colado ao peito, as manifestações do comando era intensas. No rádio, colado ao alambrado, os locutores narravam a peleja de modo sem igual, entretanto cada um ao seu modo. 5 minutos depois, tudo se acalma e volta ao seu lugar. Aparente lugar.

– 43 MINUTOS E VAMOS PARA OS PENALTIS. MARCOS REPÕEM A BOLA EM JOGO E MANDA O TIME SUBIR. ZINHO E RICARDINHO DISPUTAM A BOLA PELO ALTO E SOBRA PARA GALEANO NO MEIO CAMPO DO PALMEIRAS. ELE PUXA A BOLA, SEGURA, O CORINTHIANS APERTA, O PALMEIRAS VEM SE FORMANDO, GALEANO ABRE A BOLA AQUI NA LATERAL DIREITA COM CESAR SAMPAIO, O PARAGUAIO ARCE VEM SUBINDO, LIVRE, BOTA O PIQUE E JUSTAMENTE PARA ELE QUE A BOLA ROLA RASTEIRA. ALEX SE METE NO MEIO DO TIME CORINTHIANO, NINGUÉM ACOMPANHA E OS QUE TENTAM FICAM PRA TRÁS, PASSOU A DEFESA, PASSOU O ZAGUEIRO, VEIO ALEX, QUE JOGADA, CARA-A-CARA COM DIDA, DIDA SAIU, ALEX DRIBLOU, VAI MARCAR, VAI MARCAR, VAI MARCAR…

Um estouro se ouve, um corpo que cai. O Palmeiras, 21 vezes campeão Paulista, 4 vezes campeão Brasileiro, 5 vezes campeão Rio-São Paulo, o terceiro melhor time nacional pela FIFA, ia se tornando campeão da Copa Libertadores da América pela primeira vez, com um gol do camisa 10, Alexsandro de Souza, o Alex, curitibano, desde 97 vestindo a segunda camisa alviverde de sua vida, num primoroso lançamento do paraguaio Chiqui Arce, que iniciou sua carreira em 1991 pelo Cerro Porteño, titular da seleção da sua pátria mãe, 61 partidas internacionais, teve seu sonho e conquista interrompidas pelo tiro de borracha calibre 12gauge disparado da linha lateral direita do campo pelo terceiro sargento Soares, 93kg, paulista, pai de Igor Antonio Colombo Soares e Fernanda José Colombo Soares, 7 e 11 anos, no momento em que marcaria o tento no gol aberto do goleiro Dida, na certidão Nelson de Jesus Silva, baiano, que jogou a final de 1993 contra o mesmo Palmeiras, porém defendendo a agremiação do Vitória. O Morumbi, pela primeira vez nos 43 minutos de partida, se cala por completo. Pode-se ouvir os pingos da chuva, as goteiras formadas pelos mesmos, o barulho que eles exerciam ao bater nos corpos, nas coisas, nos seres, um no outro, na água empossada, na grama verde, na cidade, na capital paulistana. Meu Deus, pensou Soares. 1 minuto de silêncio se fez até que o primeira voz fosse ouvida, das arquibancadas, dali onde Soares queria estar agora, em paz, torcendo. Porra, ele pensou, antes de uma invasão se fazer ao campo, em direção de Soares, em direção de todos, em direção de tudo. Porra.

– E O CORINTHIANS É CAMPEÃO DA COPA LIBERTADORES DA AMÉRICA DE 1999!.

– Chá, café, cigarro, água? Adriana…
– Água.
– Bom, vamos direto ao ponto. Nós somos o programa de apelo sensacionalista mais popular da televisão brasileira. Não existiu e nem existe, se vai existir é outra história, programa como o nosso atualmente. Demos o furo do maníaco da cachoeira, da velha surda que abusava da neta, do cachorro canibal. Daria pra abastecer um banco de sangue por uns 15 anos só pela quantidade de sangue que rola no nosso programa, que transborda pela TV. Enfim, o que a gente queria era uma simulação sua…
– Simulação?
– É. Deixa eu te explicar. O bizarro é nosso forte. Não o bizarro, mas o sangue, sabe, o sangue é que faz o povo feliz. Veja acidente de carro, todo mundo para pra ver, não tem erro. Veja gente sem perna na internet, todo mundo quer ver, todo mundo é curioso. Veja agora o caso do vale tudo, o MMA. Quanto mais sangue, melhor. Quanto mais chute, soco, sei lá, tudo isso, melhor Então, voltando ao seu caso, nós queríamos uma simulação de suicídio sua, ao vivo. Compreende?
– Suicídio, mas…
– Tudo mentirinha, como na TV mesmo. Peito de mentira, bunda de mentira, sorriso de mentira, gente de mentira e com você o suicídio de mentira. Entende? Seria tudo falso, tudo planejado pela nossa produção. Poderia até virar pegadinha, quem sabe. Aliás, Adriana, anota essa ideia pro futuro.
– Sim senhor.
– E a gente também sabe como anda sua condição né. Dívidas que não são pequenas, problemas na família, o seu irmão com o tráfico. A gente queria ajudar nisso, sabe. Solidarizar. Pagaríamos tudo e você sumiria, não deixaria nenhum rastro, ninguém saberia mais de você, sua família veria pela TV e pronto, você se mata – fazendo as aspas com a mão – e c’est fini. Você vai morar em outro lugar, com outra cara e tudo mais. O que nós queremos é audiência e você, minha amiga, é a candidata perfeita pra isso.
– É?
– É. E então, você topa?
– Bom, sabe, eu… Eu…
– Ah, vamos, você topa. Topa sim né. Topa? Topou? Topado! Pronto. Adriana, escreve ai que ela topou, tudo pago, tudo bonito e vamos planejar. Satisfeita?
– É, sim… É… Satisfeita.

Naquele momento ela não sabia o que fazia. Dizia para ela mesmo que sabia, que iria sumir do mapa, não ia causar mais problemas nem desgosto pra ninguém. Tudo simples, tudo feito, tudo limpo, brilhando como chão de hospital. O marido, os dois filhos, o cachorro, o passarinho, ninguém ia sentir falta dela, é o que pensava. A mãe sofria de esquecimento, não havia chegado nela o conhecimento do Alzheimer. O pai foi comprar cigarros e até hoje não se sabe onde fica essa venda tão distante. O irmão viciado, jurado. A irmã crente que sofria nas mãos do marido, ex-presidiário e dito recuperado. A vida era sofrimento e iria acabar bem, pelo menos pra ela. Dizia isso pra si, mas lá dentro, no fundo do músculo cardíaco, ela não sabia de verdade. Após voltar pra casa, ela não falou nada pra ninguém. Regra de contrato. O marido fumava um cigarro na cozinha, os filhos estavam pela rua. Ela entrou, olhou o companheiro e seguiu para o banho. Tremia. O olhar de peixe morto, a água batendo no cabelo. Quis chorar, mas faltou força. Dias depois, o diretor ligou e ela foi de novo até a sala branca, com a mesa de madeira e três cadeiras acolchoadas pretas.

– Então, vamos lá?
– Vai ser ao vivo?
– Vai
– Tá. E o restante?
– Deixa com a gente. Tudo certo, certinho. Educação pros filhos, casa pra irmã, pro irmão uma internação. Adriana, chama a rapaziada e partiu. Hoje essa porra vai dar o que falar. Recorde! Bora lá!

O programa entrou no ar. Não se sabe como, não se sabe quando, por onde, alguém invadiu o estúdio. Era ela. Simplesmente apareceu na câmera, se viu pelo monitor. De trajes simples, estava calma, confusa, ansiosa, surpresa, uma gama de sentimentos. Suava frio, suava quente, não suava, não sabia o que acontecia. Cega. 6 da tarde, ao vivo pro pais inteiro, ela e o apresentador. O apresentador sabia que tudo era combinado, o pessoal no estúdio, umas 5, 6 pessoas também. Sem intervalos. O roteiro se seguiu daquela maneira. Ela com a arma apontada pro apresentador, aquela coisa toda, chama dali, calma daqui, porra de lá e foi se seguindo. O marcador de audiência apitava, ia explodir. Era um brilho só no olhar do apresentador, do diretor. 6 e meia da tarde e todos ligados. Ela com a arma engatilhada. O apresentador pedindo calma, chamando a policia pra vir ao estúdio manter a segurança, para que a cidadã saísse bem e escoltada.

– O combinado é o seguinte: Você dá um tiro no Juarez, pega de raspão e nem conta até 3, atira na cabeça. Quando você vai atirar, a gente sai do ar, a policia pula em você e pronto. Ninguém sabe, ninguém viu, a gente diz que você foi presa, tá numa prisão no interior do estado e o mundo esquece que você nasceu 40 anos atrás, fecho?
– Tá.
– Você vai receber tratamento exclusivo, VIP, vai sumir. Vai passar a borracha na sua vida. E sua familia, bem, pode deixar que nós cuidamos dela, ok?, disse o empapado diretor com os dentes no sorriso amarelo de nicotina e cafeína.
– Tá.

Quando o relógio bateu 6:56, a mulher desiste. Abalada, sozinha, carente, sem vida, abaixa a arma, começa a chorar. O diretor não acredita, o apresentador não acredita, Adriana não acredita. 6:57. O cheiro que saia dela era azedo. Vacas quando vão para o abatedouro, devido a descarga de adrenalina, exalam o mesmo cheiro. De medo, de pavor, de morte. Tudo aquilo feito, querendo deixar o nome na história da televisão mundial e acontece uma dessas. Uma porrada de audiência, sem numero de telespectadores ali, esperando o desfecho, querendo sangue, Roma Antiga. 6:58. O apresentador olha pro diretor, o diretor olha pro apresentador, o apresentador, num acesso sem precedentes, toma a arma da indefesa e atira. No peito, certeiro. “Morre, filha da puta”. O estúdio para. O mundo para. Um mosquito, sugando o sangue na perna de Adriana, para. 6:59. Nos bares, nas ruas, nas casas, todos param. Ninguém respira, ninguém acredita. Como? O programa sai do ar. 7:00. Menos uma, o diretor falando, comemora. O apresentador sorri. As pessoas nas ruas vibram como se fosse gol, a família não se acredita, foguetes. No estúdio todos aplaudem. A mulher morta e a felicidade geral da nação. Nem nome de rua ela virou, vala comum. 7:01. Boa noite, esta no ar o Esporte Geral. Confira as notícias do esporte no dia de hoje.

Obrigado, mais uma vez, Mariana.