Estacionou a bicicleta, desligou o mp3, se ajeitou e entrou na conveniência. Como sempre se confundiu se puxava ou empurrava, normal com todos. Se dirigiu até o freezer, sem antes passar pelas bolachas, macarrão instantâneo, chocolates e afins. Lá, ficou cara a cara com cervejas, mate, refrigerante, água com gás, vodka ice, absinto ice e a indecisão de ter que escolher entre tantas marcas, gostos e cores. Foi quando, de relance, olhou pelo vidro da loja e observou aquela figura conhecida, altura, cabelos brancos, aquele jeito, com uma enxada na mão. Uma enxada? Ele estranhou. Essa hora e tem um louco andando com uma enxada por ai. Foi quando se deu que era o seu Sérgio, pai da Aline. O que o seu Sérgio, pai da Aline, estava fazendo ali, e, Deus do céu, com uma enxada na mão? Foi quando o velho entrou na loja, com a enxada na mão. O segurança ainda tentou impedir, mas ele passou com tamanha facilidade que até impressionou. O seu Sérgio, pai da Aline, com uma enxada na mão, numa conveniência. Ele olhou para o homem, o homem olhou para ele e a enxada atingiu as bolachas, macarrão instantâneo, chocolates e afins. Sem dó. Mas que por…

Na mesma noite ele, o Fernando, tinha tido uma maravilhosa ideia. Um coração e dentro um A e um F. Aline e Fernando. No muro da casa dela, com spray preto, que ele guardava no carro para delinqüências ocasionais. Fez e saiu todo feliz, ouvindo música e com um sorriso no rosto. Agora eu conquisto ela de vez. Agora vai! E foi…

A enxada girava, destruía, desmanchava, quebrava, voava de tudo pra tudo quanto era lado. Os atendentes se escondiam atrás do balcão, o segurança tentava se aproximar e ele, inerte. Seu Sérgio, pai da Aline, com uma enxada na mão, destruindo a loja e ele, ali, embasbacado, sem saber o que fazer. Seu filho duma carcomida! urrava o velho. Pichou meu muro agora vou pichar tua bunda! E o velho caçava ele dentro da conveniência com a enxada. Pão de batata no chão, vidro voando, estraçalhando, o velho estava insano com a enxada. Parecia a morte ceifando almas. Girava a enxada como um ventilador de teto e nada o impedia. Calma, seu Sérgio! Calma! ele, apavorado, com os braços esticados num sinal de pare, apesar do medo constante do velho arrancar seus braços com o instrumento. Calma nada! Vem aqui! E ele apontava a enxada pro jovem. Calma… Foi quando ele pronunciou o A que escapuliu feito uma lebre fugindo do lobo e montou na bicicleta. O velho nem pensou duas vezes, deixou a loja na mesma ligeireza e foi atrás do jovem ciclista. Ele pedalava três pulmões. E o velho vinha atrás dele, no mesmo pique, montado num cavalo negro. Cavalo negro? Como isso? Da onde ele tirou uma porra dum cavalo negro? Caralho! E pegaram a principal avenida da cidade. Ele na bicicleta azul e o velho no cavalo negro. O velho ia atingindo tudo que estava ao seu redor, atrás, dos lados, na frente, em cima, embaixo, com a enxada. Nem pensava duas vezes. Queria o pescoço do jovem a qualquer custo. Se tivesse com uma arma, já tinha variado a mesma pra atingir o maldito. Carros, motos, capacetes, placas de 80 Km/h, por aqui praias, por lá centro. Tudo tinha a marca da enxada, o cavalo pela esquerda, a bicicleta pela direita e eles ali se degladiando. Uma bizarra corrida de vigas.

O Fernando conheceu a Aline numa festa. Ele estava comprando cerveja, ela um cachorro quente. Eles nem se conheciam, mas a cara de pau do menino foi grande e ele pediu um pedaço pr’aquela menina de cabelos curtinhos e olhos claros. E ela deu, em troca de um gole. Ele perguntou que curso ela fazia, não tinha reparado o moletom da menina, com letras garrafais, escrito Biblioteconomia. Se desculpou, fez cara de tolo e de bom moço e ela riu, perguntando se ele estava sozinho. Ficaram ali trocando salsicha e cevada, pensamentos e risadas. Ela acompanhou ele até o ponto de ônibus e quando viu o menino pediu um beijo como boa noite. Ela não titubeou. E ali começava mais um amor pela flecha do Cupido.

O jovem pedalava feito um desvairado. Feito, porque desvairado mesmo era o pai da Aline, o seu Sérgio, com a enxada na mão. Carros buzinavam, davam luz alta, refletiam no pelo negro do cavalo preto, mas nada fazia o velho parar de proferir desaforos e manobrar a enxada feito um cavaleiro e sua espada. Subiam, desciam, curvas pra direita, curvas pra esquerda, cruzamentos. Cravavam, furavam, amassavam, destruíam e derrubavam. O velho e sua enxada, o jovem e seu amor. O jovem suava, sujo, quando olhou para trás e, percebendo distancia do velho, num semáforo, se jogou numa motocicleta. Respirou aliviado e tentou recuperar o fôlego que lhe faltava. Arrancou o motociclista como se faz com uma farpa no pé e acelerou fundo aquela Honda. Nem viu o modelo, a placa, a cor. Acelerou. O velho, que vinha atrás, não deixou por menos. Com a enxada a tira colo, se enfiou num Gurgel, também estacionado na sinaleira. Um homem, baixinho, gordo, de óculos com aros redondos, escutava calmamente seu Love Parade. Foi o velho dar uma enxadada no teto que o homenzinho saiu apavorado de seu carro, pensando que aquele era o juízo final, com suas trombetas e seus cavaleiros do apocalipse. Era nada. Era apenas um velho, o seu Sérgio, pai da Aline, com uma enxada na mão e querendo justiça com as mesmas, atrás do Fernando, namorado da Aline e genro do seu Sérgio. Saiu cantando pneus, com a enxada no carona e seu Sérgio, pai da Aline, no volante.

Seu Sérgio, pai da Aline, estava prestes a se aposentar. Trabalhou num banco praticamente a vida toda e tinha uma mentalidade absurda. Fazia cursos do que podia, desde manutenção de computadores até como instalar uma cerca elétrica. Não deixava o diabo sequer botar o pé no jardim que era sua cabeça, sua casa. Veio do interior e se consolidou na capital. Sucesso total e exemplo aos que estavam ao redor. Gente boa o seu Sérgio, pai da Aline. Gostava de uma cerveja e música raiz. Tinha uma oficina em casa, de onde saiam molduras para quadros e para cama, estrados. Seu Sérgio, pai da Aline, sabia de tudo um pouco. Da vida alheia até como abater porcos.

Adentraram o túnel que ligava o centro com a casa do seu Sérgio, pai da Aline. 10 da noite. O Fernando acelerando, empurrado, esgoeleando a motocicleta. Anda, joça, anda! E o velho vindo atrás, com a enxada pra fora do carro, nem ligado se estava acertando o ar, o nada, o tudo, os carros, o chão ou o céu. Queria a cabeça do infeliz do Fernando que fez a infelicidade de pichar a casa dele, o muro, melhor dizendo, declarando o amor para a filha do seu Sérgio, a Aline. A moto berrava os 120 Km/h e o Gurgel não deixava por menos. Emparelharam. Seu Sérgio, pai da Aline, queria porque queria acertar alguma coisa do outro lado. O Fernando, a moto, o espelho da moto, a aliança no dedo do Fernando. Queria parar aquela moto e o motoqueiro a qualquer custo e aplicar um corretivo no rapaz. Onde já se viu pichar o muro da casa dos outros? Ele vai ver só! Tentou cravar a enxada no corpo da moto, o pescoço do Fernando, e quase conseguiu, assim como quase conseguiu acertar o carro da frente e desviou numa manobra de duble. O velho louco desvairado cruzando a noite da cidade em busca do inocente jovem que só queria mostrar o seu amor da forma mais singela para a donzela de mesmo feitio. A enxada e a lata de spray. Quem teria mais força?

A casa do seu Sérgio, pai da Aline, era de dois andares. Moravam o seu Sérgio, a Aline, a mãe da Aline, sua irmã e dois cachorros, o Hugo e a Cléo. A Aline, por um esquema de sorte do destino, conseguiu se mudar para a casa de trás, tendo mais privacidade, um canto só seu. Felicidade pura. Cantinho cheiroso que o Fernando adorava. Como a menina. Já a casa do Fernando, melhor dizendo, o apartamento do Fernando, era no centro, de frente pro mar que ele pouco via, devido aos outros apartamentos que se erguiam em volta, apesar de ser muito bem localizado. Fernando, o pai e a mãe. E o também tinha o porteiro, que, mesmo não fazendo parte da família, estava sempre ali, reclamando da vida e tomando café. Confortável, a casa dos dois.

A 500 mts da casa do seu Sérgio, pai da Aline, a gasolina da moto acabou. E agora São Tobias dos Desesperados, me ajuda! orava o Fernando que de santo não tinha nada. A sorte dele é que 50mts atrás dos outros 500, o álcool do Gurgel acabou, diferente da sina do seu Sérgio, pai da Aline, que vinha atrás do rapaz com enxada em punho. Cortava mato, atingia cachorro, gato, passarinho, cerca, era a espada que a dona Justiça não enxergava havia tempos. O Fernando correu 50 mts e se engatou num skate. Apesar da rua da menina ser um mar de lajotas, sabe-se lá como, o Fernando conseguiu fazer aquele skate andar, correr, voar, tele transportar. Gato com fome come até sabão, já dizia o velho ditado milenar chinês. E o seu Sérgio, pai da Aline? Um carrinho de cortar grama foi a solução. 11h30 da noite e os dois numa perseguição que não se via desde a fuga dos judeus do Egito. As pernas do Fernando já não se aguentavam mais, o pulmão era um saco de arroz de 20kg e o seu Sérgio, vinha atrás. Faltando pouco mais, um tanto menos de 10 mts pra casa do seu Sérgio, pai da Aline, o skate quebrou e o pobre do Fernando voou ao chão. Ensebado e fedendo, ele foi correndo gritando por socorro, ajuda, perdão e algum palavrão, já que lhe faltava ar, ideia, saliva na boca e vergonha na cara. A Aline estranhou aqueles gritos, tão familiares, desferidos ao longe. Foi quando ele avisou o muro e se jogou na frente do mesmo, pichado com tanto amor, uma prova, uma obra para a amada. Coração, A e F. O corta gramas deu um espetacular cavalo de pau, lançando o seu Sérgio, pai da Aline, pra fora, numa manobra surpreendente, enquanto se espatifava, rodopiando e capotando. Seu Sérgio, pai da Aline, agarrou a enxada que vinha pelo ar, digno de malabarista chinês, quando o esfarrapado do Fernando falou as palavras mágicas: Desculpa seu Sérgio! Desculpa! Não me mata, pelo amor do santíssimo Senhor! Eu pinto seu muro! Agora, já! babando, cuspindo, chorando, com remela e ranho, sangrando, sujo e maltrapilho. Foi quando a enxada, magicamente, se transformou num pincel e numa lata. O Fernando olhou aquilo e só faltou marcar de marrom a cueca branca. Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia, a Aline vinha ver o que ocorria em frente a residência.

Seu Sérgio, pai da Aline, de pijama, tomando um chá, com chinelinhos confortáveis vermelhos, só observava o pobre do Fernando, sujo como um andarilho e fedendo como um cão sarnento, pintando o muro com tinta amarela, quase uma da manhã, quando a Aline se surpreendeu com aquilo tudo. Ela só teve tempo de perguntar, antes mesmo de se entender pra entender o que acontecia ali:

– Pai? Meu Deus, O que é isso? Fernando, meu Jesus, pra que você tá pintando minha casa uma hora dessas? Você tá… Meu Deus… Olha isso!

E o Fernando, naquela condição toda, só conseguiu responder:

– Eu te amo! Eu te amo! Mas me salva, me ajuda, por tudo que é sagrado, me salva! Me salva, ai Jesus!

E seu Sérgio, deliciando-se com aquele chá de erva cidreira, pai da Aline, que nem conseguiu ver a declaração de seu amado, sem ter o que dizer, apenas proferiu:

– Boa noite pros dois pombinhos. E Fernando, essa cor fico ótima. Não acha, filha?.

Os dois com cara de tacho, não entenderam mais nada mesmo quando olharam naquele escuro um cavalo negro parado, fumando um cigarro.

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