Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Preciso de uma massagem. Japonesa, tailandesa, espiritual, que seja. Esse negócio de carregar o mundo nas costas não está dando certo. Dar uma corridinha à beira-mar é impossível. Os ombros rígidos, a lombar dolorida, os joelhos trincados já não são os mesmos do cara de vinte que achava isso moleza. Amarelinha e corrida de tampinha, brincadeira de criança. Chamo mais atenção do que um louco no alto do sino da igreja, trazendo consigo uma melancia no pescoço. As crianças apontam, as mães beliscam seus filhos dizendo que é feio. Os bicos de papagaio já não me deixam nem carregar as frutas da feira, quanto mais as sacolas do supermercado. 6 bilhões é muita gente, isso e os problemas delas, que pesam um tanto de zeros que vocês nem imaginam. Certo que cortam muitas árvores, somem com um par de coisas, desde areia até animais raros, entretanto cada vez mais edifícios, cada vez mais coisas sem sentido. Acumuladas e acumulando.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Não há físio, muito menos hidromassagem que resolva. Já procurei especialistas e é a mesma ladainha de sempre: Isso não é nada, é uma dorzinha que em 15 dias deve passar. Sei. Raios-x, ressonâncias e ultra-sons e tudo muito bem, na visão deles. Me pergunto todo dia, a todo café que tomo alarmado pelo Big Ben: Porque diabos continuo com isso? Porque não viro frentista, vendedor de bíblias ou pipoqueiro? É tão mais comum, mais simples e relaxante. Fora tudo isso, também tem aquele velho dilema toda santa manhã, depois de acordar com os gritos e buzinas da Índia até o Caribe. Tomando um Dorflex, em frente ao espelho, me pergunto, estralando o pescoço para mais uma jornada: Se não for eu suportando e segurando sozinho esse peso todo, quem vai ser? O guindaste da construção na Av. Paulista? Os cabos daquela nova ponte chinesa? Eles não sabem o peso que têm, não fazem ideia a tonelada que valem. Uma pena. Se soubessem, não produziriam tanto lixo, não fariam tanta merda. Uma pena.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade – Os Ombros Suportam o Mundo.

4 respostas em “

  1. Bem interessante essa jogada não linear da tua prosa com o poema do drummond. Tenta, da próxima, com um poeta teu.

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