Então, ele quer você
Tá falando sério?
É… Tô
Não brinca. Sério mesmo? Mas como ele vai me querer? Tipo… Sério?
Sério, cara. É com você.
Cara, a gente veio até aqui de boa e agora vai tem isso. Puta que pariu. Ah cara….
Eu sei que é estranho, mas ele quer você. Não sei se seria normal comigo também, não sei se sendo eu seria o mais correto, mas é você
Cara… Que merda. Só pode tá de brincadeira. Mas você falou tudo mesmo?
Falei, expliquei, mostrei por A mais B. Ele disse porque disse, quer porque quer. Você. Insistiu…
Mas você ai, com tudo isso, tão, totalmente, tipo… Entende? Ai cara…
Entendo, mas a gente tem que seguir em frente. Falta muito e você sabe disso.
Ai cara…
Vai logo. Sei que vai ser ruim, mas olha onde a gente tá. Olha em volta. Olha onde a gente tá. Não vai dar pra trás agora. Você sabe que eu fiz coisa muito pior nesse tempo todo. Agora é contigo. Toma um banho depois. Lavo tá novo.
Você fala isso porque não é com você.
Mas você sabe que poderia ser e eu quero essa viagem mais que você.
Aham…
Quero mesmo! Anda! Vai lá!
Calma, porra!
Fecha os olhos, respira e mete bronca. Faz como eu fiz. Eu sei que você tem capacidade, eu mais que tudo e todos sei. E sabe que isso vai ser segredo.
Aham…
Vai ser sim. Não confia em mim?
Confio, confio…
Confia ou não?
Confio. Mas porra… Que… Coisa
É…. Vai logo que tá ficando tarde, frio e eu quero seguir em frente.
Ai, chatinha…
Anda, não reclama. Não se lembra daquela outra noite? Isso perto daquilo é limpinho. O cheiro não saia de jeito nenhum. As vezes ainda sinto e sei que você também sente. Pegava gosto em tudo. Gelatina, feijão, carne… Aquilo sim foi horrível. Vai lá.
Tá bom, tá bom. Só porque eu amo você.
Também te amo.

O casal se olha. Se beija. Chegaram até aqui juntos e iriam continuar juntos até o final. Até o último ponto, a última cidade, a última ruazinha, com igreja, praça e vendinha de algum seu Zé. Planejaram tanto tempo isso, essa viagem. E é numa viagem que você conhece quem é quem de verdade. O que um é capaz de fazer pelo outro, o que é o sacrifício pelo todo. E dessa vez ele teria que fazer. O que? Bem…

É igual ao quadrado da…

Ai meu Deus! Ai meu Deus! Que porta ela vai abrir? Cuidado com o que vai ter de trás dessas portas! Vai abrir qual porta? Vai abrir que porta? A número um, a número dois ou a número três? Momento de tensão na Oradukapeta! Ai meu Deus! Ajuda ela auditório! Qual porta a menininha vai abrir?! A número um, número dois ou número três? É a porta dos desesperados! Tá todo mundo desesperado! Ai meu Deus! A porta que ela vai ganhar a bicicleta e o videogame, vai levar pra casa um gorila de presente ou vai sair de mãos vazias é a um, a dois ou a três? Qual porta? Qual porta? Qual porta você quer?

O interfone tocou. É agora, ela pensou.

Que caralho! Quem é, porra?!
Eu não s…

Faltou o ei nessa frase, que ele mesmo completou: Ei! E ela saiu numa
disparada furiosa, como se fosse a pobre lebre fugindo da voraz raposa, na ânsia de ter uma sobre-vida. Ele jogou tudo pro alto e foi no embalo daquele corpo ao vento.

Volta aqui, filha da puta! Xingava, ao mesmo tempo que a outra vítima era largada ao chão, como um pesado saco de lixo. Pelo corredor ela gritava desesperada por socorro, mesmo duvidando que alguém escutaria. O que a fazia incrédula era que abaixo, um casal de idosos, ela com dificuldade para andar, ele com dificuldade para ouvir, que teriam poucas chances de ajudar. E para reduzir a zero, acima, um apartamento dado ao aluguel, desde sempre. No momento em que chegava na cozinha, ele voou aos seus calcanhares, como a mulher abandonada e arrasada, fazendo-a desabar, tendo no complemento do movimento, o interfone arrancado da parede, tal o machado decepa a cabeça do condenado. Com a garrafa em mãos, fez o primeiro sangramento, rasgando o jeans e a perna da negra, que, resistente, não titubeou e lhe mordeu violentamente o braço direito, cravando os caninos, os incisivos, e mais uns 7 dos 32 dentes que constituem sua clara e alinhada arcada dentária.

Cadela filha da puta! Esbofeteando-a
Se fudeu, babaca! Se fudeu! Ela felicitava-o, ainda meio que sem motivo, sem tal explicação para os parabéns fuderosos.
Vamos ver quem vai se fuder aqui! Ele disse apontando a garrafa para o negro pescoço e suas jugulares.

Nessa balbúrdia, quando menos se espera, a salvação se faz. A pobre
moça, mantida engravatada até a pouco, se desfaz dos nós, se deslaça, tirando o convidado de cima da anfitriã e lhe ensinando bons modos, prendendo-se nas costas do mesmo e agora lhe fazendo laço, a borboleta da gravata. O agressor se debate, tentando tirar o carrapato do couro. Sem a menor perda de tempo, a outra parte se arma com uma faca e logo a põe em uso, apontando para o pescoço da causa de toda essa desordem, já desarmado.

Levanta, filha da puta, ela ordena. Levanta! Dizia ela com os olhos vermelhos de pura raiva, violência e sangue.

E era a única reação possível. A motogirl, cinéfila, filha larga o ex-vocalista, ex-namorado, filho, que seguindo as ordens da publicitária, infectada, filha, levanta, agora indefeso como um cãozinho abandonado, com as patas pro ar, pedindo colo.

Sabe porque tu se fudeu, seu babaca? Sabe por que?!

O suor escorria do rosto do agressor, agora agredido, com a faca no pescoço, prontinha para fazer o ar entrar por uma nova via, o sangue jorrar e ver como é a luz do dia, ao menor movimento.

Não, respondeu engolindo a seca saliva
Eu vô te dizer e presta bem atenção, seu cachorro. Infectado. In-fec-ta-do, com a faca pontilhando o pescoço, ela dividia silabicamente a palavra.

Os olhos se abriram, como a boca ao questionar as respostas. Veio em sua cabeça a imagem da mãe, infectada também, uma doença rara, inexplicável, que ora melhorava, ora piorava. Ele pensou no martírio que a progenitora passava e todo o sofrimento causado naqueles que a rodeavam. Mais uma entropia naquele sistema todo.

Como?
Olha bem essa mordida no teu braço. Olha bem pra ela e sorri. Ela que vai te matar. Não vai ser eu, não vai ser ela, não vai ser a puta que te pariu. Vai ser essa porra de mordida que vai te matar, seu cachorro! Pontuando a sentença com um forte soco na boca do recém condenado à morte. O sangue mais uma vez se fez.
Vadia! Disse ele manchando o piso branco, limpando no braço o vermelho que vertia da boca.

A outra parte disso tudo olhava tudo atentamente, esperando uma resolução das partes para que pudesse saber se tomava seu rumo ou
continuava a participar do espetáculo. A negra virou-se para ela.

Você tá bem?
Meu pescoço dói um pouco.
Prazer, Francisca
Danie…

Lá, ali, aqui, no braço da motogirl Daniela, se fez uma mordida. Aqui, ali, lá, da boca da mesma Daniela, fez-se um grito de dor, um ai vibrante e atordoante, inesperado. O condenado fez-se condenador e condenou a garota Daniela a infecção. Francisca, a redatora vencedora, armada, cravante de dentes, aproveita o mote e crava a faca ao ombro do homem, causando mais um grito de dor, um urro leonino naquele ambiente selvagem.

Porra! Sua vadia! Gritando, abrindo os braços, esgaçando o peito e a mão a procura do objeto cortante fincado em si.
Caralho! Meu braço! Meu braço! Meu braço! Era o que Daniela
repetia olhando o ferimento. Caralho!

Francisca engravata o homem mais uma vez e lhe sufoca, enquanto Daniela cai ajoelhada ao chão olhando para a marca sangrenta feita em seu braço. Infecções no cinema são um tema bastante interessante, com diversas doenças causando finais surpreendentes. Os dois se debatem ao chão, tendo a incrédula Daniela como espectadora. O homem dá uma cotovelada, soltando-se e de pé, chuta a vitima no chão, que tem mais uma vez o teste de resistência. Daniela se levanta e agarra-se as costas do homem, que rapidamente solta-se e soca a garota. Francisca não titubeia e lhe aponta a faca. O homem não se faz por menos e lhe aponta a garrafa. Daniela não fica atrás e, no ambiente gastronômico da cozinha, naquela confusão toda, arma-se com uma frigideira, que se fazia pendurada pelos ganchos auxiliares acima do fogão, dando praticidade para quem cozinhasse em uma ou mais daquelas seis bocas.

Porra! Gritou Daniela

O triângulo mortal se fazia. A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Uma faca, uma garrafa e uma frigideira faziam-se de lados daquele triângulo. Ninguém ousava mexer-se, com medo de ser atacado, fazendo com que olhares fossem e voltassem nas faces e nos movimentos dos presentes. Os três infectados. Jovens, loucos e rebeldes.

Que porra de infecção é essa? Perguntou a irmã do falecido Fábio.

A negra olhava para um e para o outro, esperando que nenhum deles cometesse o deslize que atacar os corpos presentes.

É bom vocês…

Bloqueio criativo, esse adorado.

É ótimo quando se tem bloqueio criativo. Você se sente tão vivo, tão corado. Sagaz e astuto. Parece aqueles colonos da Serra que tomam um sol e ficam vermelhinhos, com as bochechas rosadas. Só falto eu ser uma modelo internacional ou então produtor do melhor vinho serrano. É tão gostoso aprender tantas regras, normas, leis de gramática, de redação, enfim, que impedem você ter liberdade na sua escrita, pois sabe que aquilo não se faz. Isso que eu não sei as regras dos porques e quando se usa crase. Delícia como Milka Branco. E não adianta dizer que leis foram feitas para serem quebradas que não cola, tendo como exemplo… Ninguém. Se no Brasil a lei se aplicasse para todos, não nos chamaríamos Brasil e sim Carandiru. E muito menos dizer que é criança pequena e se pode fazer tudo, pois você sabe que tem 24 anos e que botar o dedo na tomada só é legal quando… Quando nunca.

Tão gostoso ver a barrinha de texto amiga piscando, numa folha em branco, pensando se não é essa folha em branco ou essa barrinha que bloqueiam você de fazer o que tanto gosto e espera futuramente tirar seu sustento. Eu penso isso. Se não é o WordPress, se não é o Notepad. As vezes até vario pro Office, pra folha de caderno. Até máquina de escrever se bobear eu tento pra desentupir o ralo cerebral. Tudo muito emocionante como Caçadores de Emoção, com o falecido Patrick Schwayze e o sempre samambaia Keanu Reeves. Eu se fosse assaltar um banco usaria a máscara do Collor. Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, não é? Você começa com um A, apaga. Escreve um H, volta atrás. Quando vê, tá escrevendo 4551M porque as letras não deram jeito no seu texto. Maravilha, Ptolomeu!

Na verdade esse texto seria sobre o medo, de que eu tenho uma tatuagem na perna escrita “O medo faz o lobo parecer maior”, que não devemos nos amedrontar com o tamanho do pavor, que eu citaria (aqui eu usaria o “ia citar”, mas veja como a regra faz o “citaria” ficar mais bonito. Viva o inglês e suas palavras sem acentuação!) o exemplo da minha namorada que agora tem aula de como cozinhar (ela faz nutrição, não vai deixar eu virar um gordinho mórbido de cotovelos marrons) e pra cada ingrediente tem que medir em 17 recipientes diferentes, de pá de construção até seringa de insulina, e com isso ver toda a graça de cozinhar ir abaixo do ralo de cozinha. Pensei em emendar no texto meu caso, que disse ali acima e era pra estar aqui, exatamente essa parte. O medo de ter tantas regras e leis que impedem você de ter uma escrita fluente, já que uma coisa impede a outra e assim você não prossegue com o pânico de ficar fora de tantas normas. Dai a gente volta pr`aquele negócio de quebrar leis e enfim. Praticamente uma poesia parnasiana. Um salve pro Bilacão!

Esse texto é um desabafo. Um desabamento de bafo (HAHA! Uma casa de mau hálito implodida. É o Senado vindo abaixo. Falam tanta merda lá que o cheiro do esgoto do McDonalds deve ser mais gostoso. Quase como meus textos.). Tô me achando o Macaco Simão. Folha: Quando ele morrer, tô vivão esperando, estocando colírio alucinógeno! Era pra eu nesse exato momento tá escrevendo a continuação da equação de Pitágoras, com o final planejado que me atormentou a cabeça por umas duas semanas. Me lembrei nessa hora da escritora do “Mais Estranho que a Ficção” (escritores que entendem o que escrevo agora ou qualquer outro que compreende português: vejam esse filme e tenham uma aula sobre literatura, psicologia e comédia de grátis, sem precisar pagar 500 conto de mensalidade), que a escritora tem um bloqueio de como matar o infeliz que fica ouvindo sua voz contando quantas vezes ele escova os dentes. Foi assim comigo também. Até que eu cheguei na descoberta de como fazer os três serem felizes para sempre. E ainda tô meio “bolado” que eles podem ser mais felizes ainda.

E daí você pára e começa a pensar: Será que agora meu bloqueio foi embora? E você fica na dúvida se isso tudo que você escreveu conta como desbloqueamento, que agora vai e você vai escrever um novo Madrigal Melancólico ou foi só um amontoado de palavras, um desabamento de bafo, para você conversar com seus leitores e fazer a alegria daqueles que deixaram de entrar aqui, baixaram seu PageRank e excluíram você dos seus favoritos. Pois é. Nessa horas que ser funcionário de banca do jogo do bicho é bom. Na verdade nem isso é bom. Tem que calcular o troco e como vocês, leitores bem informados, sabem, “Ir ao supermercado e calcular o troco não é uma atividade fácil para 57% dos estudantes que cursam o terceiro ano do ensino fundamental -etapa considerada como final do ciclo de alfabetização.” Viva o troquinho da bondade!

A soma dos quadrados dos catetos…

7h56. Estacionou o carro e viu. É aqui. Ele vinha vindo com a chave na mão, pela rua, pegando a descida da mesma. O tempo passa, o tempo voa, e a poupança… Noite fresca. Desligou o carro e os dois rumaram para a mesma portaria. Portão verde, sem zelador. O edifício tinha uma fachada bonita, bem situado na cidade, numa área boa para viver. Ela tocou o interfone, sétimo andar, abriu o portão. Ninguém na portaria. Apoiou um dos fardos na grade, foi tirando as coisas do carro. Ele se aproximou.

Deixa que eu te ajudo.
Opa, obrigada.
De nada, eu também to entrando.
Ahhh…
Quanta coisa…
É. Parece que a festa vai ser grande.
Com um sanduiche desse tamanho e essa cerveja toda vai ser grande mesmo. É hoje que não durmo. Hahahaha.

Bem afeiçoado, boa pinta. Camisa pólo, calça jeans, tenis branco. Entraram no hall, uma mesa de madeira. Caixinhas de correio, salão de festa, flores, teto de gesso rebaixado. Chamou o elevador e ficaram esperando. Terceiro, segundo, primeiro…

Perai, deixa que eu abro…

Ele não causava nenhuma suspeita. Morava ali. Ela, uniformizada como de praxe, estava na sua função. Colocaram tudo pra dentro. Ela apertou o sétimo, ele não se manifestou. Segundo, terceiro. No quarto andar, pegou um dos fardos de cerveja e tirou uma. Ela olhou, estranhou.

Ei…

Ele sorriu cinicamente. Estraçalhou a garrafa, encharcando as roupas, o chão, os quatro cantos, o ambiente todo. Cacos de vidro marrons formavam um mosaico sem forma no chão de igual cor. Ela não acreditou. Ele acreditava. E muito.

Cala a boca e Faz o que eu tô mandando senão te retalho toda, vadia.

Não soube o que fazer. A boca seca feito deserto, que nem aquela cerveja toda seria um oásis para ela saciar a sede. Tomou um choque, de que aquilo nunca aconteceria com ela. Os sanduíches, em sacolas brancas, foram ao chão, formando ilhas de plástico naquele mar de álcool etílico. Do lado contrário, ele não tinha nada a perder. Com o aparente controle, era só fazer o planejado: Entrar, roubar, sair. Ninguém sangrava, ninguém gritava, ninguém morria. Ela poderia ameaçar um chute, uma reação, contudo sabia que nos filmes a vítima tentaria alguma coisa e se daria mal. Sexto, sétimo…

Já sabe, faz tudo que eu disser. Não grita, não pensa, não respira, não faz merda. Não quero problema e tu também. Abre essa porra, vamo tira tudo daqui…

A cerveja escorria para o fosso, a sujeira feita. Botara um calço na porta, deixando o elevador no mesmo andar. Ela com as mãos tremendo, ele segurando a garrafa firme. Um apartamento por andar. Perfeito, ele pensou. Sem gente para atrapalhar tudo ficaria mais fácil. Ela apertou a campainha. A porta se abriu. Sorrateiro, passou uma gravata pelo pescoço da garota. Não deu nem pro cheiro. A publicitária, abrindo os olhos após um breve piscar, mostrando os dentes, sorrindo, após um rápido boa noite, foi recebida com um chute na barriga, um coice, sendo arremessada alguns tantos para trás. A garrafa em punho, a vítima dominada. Não adianta bater, eu não deixo você entrar.

Não faz merda senão tu roda, porra!

Bateu a porta, estremecendo as janelas, os cristais, a decoração do bonito apartamento. Pareces brancas, sofás sóbrios. Alguns quadros pendurados, um poster de Cães de Aluguel na parede contrastando, outras quinquilharias por estantes, aparadores e formas de madeira, metal, plástico e vidro. A sala ampla era ligada com a cozinha, armários embutidos. Fogão, geladeira, microondas, um pinguim sorrindo. Fotos, vasos, flores. Uma mesa com tampo de vidro escuro, um lustre reluzente, dando para um janelão de vidro, mostrando os prédios vizinhos. Caralho, ela pensou com a mão na barriga, se escorando num canto, tentando entender o que se passava. Ele e ela, os outros dois, suavam. Frio. Ele lambia os lábios a todo momento, pensando, analisando. Tinha em mente, antes, o que faria, como seria. Tinha em mente, agora, que de nada adiantou. Não era como um show, com o repertório ali e só cantar. Fazer como nos ensaios. Era diferente o momento, era um improviso só. Quem sabe faz ao vivo! Ela, dominada, pensava em quantos. Quanto aquilo tudo iria durar, quanto mais ele iria enforcar ela, quanto mais ela iria aguentar, quanto teria que ser a força duma cotovelada para soltar-se, quanto que ele iria levar…

Porra, filha da puta! Tem jóia, tem dinheiro, tem dólar? Me diz, porra! Onde tá toda essa merda?

Apontava a garrafa pra mulher, caída no chão, que não se contorcia mais após o chute porque seguia os 300 abdominais que o personal lhe recomendava 3 vezes por semana. Era uma forma de aliviar o stress do atendimento, da mídia, da criação, dos clientes todos. Exercício físico produzia Serotonina, sendo mais uma forma dela ter felicidade, tirando o amendoim, os amigos, o sexo e um par de coisas. 8h24

Ai, ai… Calma… dizia a negra redatora se re-erguendo.
Calma o caralho!, puxando a refém pelo pescoço, forçando brutamente suas articulações. E não vem me fala que não tem nada que eu fodo vocês duas bonito! Anda logo, me dá o dinheiro! gritava nervosamente.

Ela foi se levantando, se apoiando nas paredes e na mesa amarela, patinada, feita pela tia, tentando se localizar, ficando calma. Foi começando a entrar em si e analisando uma forma de tirar vantagem sobre o nervoso homem, bem vestido, mas sujo pela condição do momento, que dominava uma indefesa criatura, com o uniforme manchado e molhado. Pensou em duas ou três coisas para ter a dianteira desse jogo de gato e rato, desse pega-pega cruel.

Calma que eu te dou tudo, não machuca ninguém.
Anda logo que eu tô com pressa, caralho!

Ela não dava um pio, com os olhos escuros arregalados que só. Tudo estático como ela e seus movimentos. Tentava se concentrar em algo para facilitar sua vida, diminuir o nervosismo, mas de nada adiantou. Cenas e cenas, trechos e trechos, de dramas, de tragédia, de terror inundavam sua mente. Pensou que fim seria aquele dela, nada heróico, diferente do que ela via nas películas e desejava pra ela. Iam adentrando o apartamento, um corredor até o quarto. A anfitriã primeiro, os convidados depois. Noite de gala. Passaram por um quarto, o banheiro, outro quarto, até a suíte principal. Um banheiro se fazia antes da cama king size, juntamente com a bonita vista da sacada e a televisão emoldurada na parede.

Abre isso tudo e vai me dando o que é de valor, caralho! Anda porra! Dizia berrando, chutando uma das portas do armário embutido. A garrafa sempre em riste era como a peripécia que o filho fazia para a mãe olhar e dizer: Que bonitinho. Ortopé, ortopé, tão bonitinho. Bonita camisa, Fernandinho. Mãe que ele temia em perder, após o médico lhe dizer, na tarde do mesmo dia, que ela teria pouco tempo de vida, desmentindo o primeiro diagnóstico. Era a única coisa que ele temia perder, já que o resto o destino ocupara-se de lhe sacar. Ela ia abrindo as portas do guarda roupa, escancarando as roupas, sapatos, perfumes, lenços, adereços que iam sendo revirados em busca do que havia de valor.

A garota continuava presa pela gravata e inerte presa em seus pensamentos. O assaltante continuava vidrado no que podia o destino lhe dar. A residente pensava em tudo. Até naquela música. Aquela “Alô, Alô W o Brasil Alô, Alô W o Brasil…” 8h47. Foi quando…

O Segundo.

Primeira mensagem.

Oi aqui é o Ed, da banda Kipaixão. Após o recado deixe seu contato que eu retorno a ligação. Sucesso! Ed, acabou. Não dá mais sabe. A gente viveu o que tinha que viver e sabe, chega uma hora que tudo acaba e a gente vê que não era aquilo que esperava, sonhava, planejava de ter pra sempre junto, um perto, um apoiando, acompanhando o outro, mas não foi assim, Ed. E acho que, acho que a gente podia dá um tempo, vai ver que é isso, que a gente precisa de um tempo pra respirar, acalmar, recarregar as energias. Ed, eu queria te pedir desculpa, mas eu não dá mais, não consigo. Um… Beijo.

Segunda mensagem.

Oi aqui é o Ed, da banda Kipaixão. Após o recado deixe seu contato que eu retorno a ligação. Sucesso! Boa Tarde Edirley, aqui é o Dr. Lopes. Eu queria que você passasse na clínica para nós discutirmos os exames da sua mãe. Eu vi que ela demonstrou uma alteração que gostaria de comentar com você. Ligue para nós, acredito que você já tem nosso contato. Bom, ligue o quanto antes. Obrigado e boa tarde.

Terceira mensagem.

Oi aqui é o Ed, da banda Kipaixão. Após o recado deixe seu contato que eu retorno a ligação. Sucesso! Ed, cara, nós nos reunimos e decidimos que, que… que… Que você não faz mais parte do grupo. A gente quer uma nova sonoridade, sabe, alguém mais apurado, com um timbre diferenciado e achamos que você não se encaixa mais nesse novo estilo que a gente quer passar pro nosso público, pra fazer no nosso trabalho, o DVD. Foi bom trabalhar contigo, você é um cara talentoso, sabe que sempre teremos uma boa relação, mas é que nesse momento o pensamento do resto do grupo é outro e achamos bom não prosseguirmos na sua companhia. Valeu, obrigado mesmo por tudo, Deus te abençoe e abençoe todos nós, fé no coração e até. Um abraço.

Quarta mensagem.

Oi aqui é o Ed, da banda Kipaixão. Após o recado deixe seu contato que eu retorno a ligação. Sucesso! Eu quero falar com a Aparecida. É da casa da Aparecida? Alô? Alô? É da casa da Aparecida? Alô? Lurdes, será que esse é o núme…

A Terceira.

– Entrega. Dani, sua vez.

O pai, o irmão, motoboys. O pai, vivia de bicos, de instalador de “tv à gato” até “levantor” de parede e ser motoboy foi apenas mais um, de quem veio de longe para cidade grande tentar viver com um pouco mais de dignidade. A dignidade que sempre faltou, do parto a escola, da carteira de identidade a primeira demissão. Já estava velho, mas mesmo assim não podia deixar de trabalhar e para quem estava cansado do esforço incoerente, se aventurar pelas ruas com uma 250cc era mais uma aventura pro seu currículo. Contando com isso, sempre fora um aventureiro. As fugas, os escapes, os encontros e desencontros que a vida lhe trouxe. O irmão, morto numa colisão, foi parar embaixo de um ônibus. Tentava viver uma vida longe das drogas, das bocas, dos labirintos que a rua lhe enfurnava. Era um cara correto, com namorada, respeitava a mãe, pai e mais 2 irmãos. Só que a vida resolveu lhe foder e fodeu bonito. O motorista não o viu e quando viu estava embaixo das 4 rodas e tantos quilos de metal e plástico. Menos um no mundo, mais um no coração das pessoas. Filho amado e querido, sua doce lembrança pra sempre viverá em nossas memórias. Estava escrito no papelzinho do velório.

A única entre os 5 motoboys. E representava firme e forte a categoria. Tentou outros empregos, mas não conseguiu nenhum. Nenhum que a satisfizesse como ser motoboys. Se sentia feliz com aquilo. Trabalhava 6 dias, folgava um e era mais uma tentando pagar as contas e viver legal. Como todo mundo. E como todo mundo tinha um sonho. Queria ser cineasta. Aquele mundo de câmera, luz, ação lhe fascinava e era só lembrar disso que os olhos escuros brilhavam feito cristal. O pessoal do bairro falava que não era coisa pra mulher, pra pensar em outra coisa, viver de motoboy pro resto da vida era mais seguro. Mas a fã de Kubrick não baixava a cabeça e se fazia de surda quando iam contra seu desejo. Ia sempre nas sessões especiais do cineclube para assistir Barry Lyndon ou Laranja Mecânica. Gostava do Senhor Fantástico, a única comédia do falecido, mas pirava mesmo era no HAL. O computador de 2001, com sua voz sutil, calma, contudo ameaçadora, lhe encantava. Que personagem, falava baixinho pra não incomodar os outros na sala. Quando deu, comprou um computador, o pai fez um gato e tinha velocidade de banda larga no meio do bairro decadente. Colecionava gigabytes de Godard, Allen, Bergman, Tarkovsky. Era sua fuga daquilo ali, quando a cabeça dava um tempo de buzinas, setas, xingos e fumaça e ela se prostava, assistindo com calma as imagens vindas do monitor. Quando queria desacelerar o bpm do corre corre, dava o play e se encantava com os sutis diálogos de Scarlett Johansson e Bill Murray.

Seu turno ia das 7 até às 1. Em média de 10, 13 entregas por noite. Isso só ela. Noite quente, noite fria, com lua ou escura. Naquela noite pediram um sanduiche ali perto. Ó, hoje vai sem o papel enfeitado? Tão sem? Elaia, olha só como gostam da empresa. Vai papel assim mesmo, branco, liso, tem certeza? Então tá. Onde que é? Tá… é perto, vô a pé. Tá. Seu filme preferido era o Sétimo Selo. A disputa da morte com cavaleiro num jogo de xadrez fundia seus neurônios com tanta poesia e comoção. Era a batalha da vida, de todos nós, ela pensava. Estamos no jogo da vida e procuramos a cada dia que passa uma maneira de vencer o tempo que nos envelhece. Burlar a escuridão por mais algum tempo acendendo as luzes da casa antes do grande apagão. Estava em uns 5 fóruns sobre cinema alternativo. Se fazia das mais ativas, discutindo desde cinema iraniano até filmes da Troma. Apesar de quem a visse na rua enganaria-se pela aparência. Não andava com óculos de aro grosso, nem camisetas com mensagens inteligentes e engraçadas. Não fazia do tipo intelectual estudante de cinema ou moderninha que lê Bravo. Roupas das baratas, tênis simples, cabelo preso. Tinha uma tatuagem no pulso escrita Fabio, o nome do irmão. E só. Sem namorado e sem pretendentes. No fone de ouvido, a trilha de Amadeus. Milos Forman sabia o que fazia.

Não esquece as cervejas! Gritou o balconista. Porra, sanduíche em metro e mais isso tudo de cerveja. O que é isso? Um bacanal? Viro Roma? Ai, me empresta o carro então. Pode deixa que eu tomo cuidado. Mulher no volante perigo constante é a piroca mole! Tá, já volto ai. E foi, entregar. Não conversava muito, aparentava ser simpática e não tinha tempo ruim. Acendeu um cigarro e entre os cds no carro, escolheu o menos pior. Porra, Josué. Wando ao vivo. Chegar em casa espero que Mad Max tenha baixado. Me amarro no Mel Gibson. Tesão. E foi cantando Fogo e Paixão.