A Terceira.

– Entrega. Dani, sua vez.

O pai, o irmão, motoboys. O pai, vivia de bicos, de instalador de “tv à gato” até “levantor” de parede e ser motoboy foi apenas mais um, de quem veio de longe para cidade grande tentar viver com um pouco mais de dignidade. A dignidade que sempre faltou, do parto a escola, da carteira de identidade a primeira demissão. Já estava velho, mas mesmo assim não podia deixar de trabalhar e para quem estava cansado do esforço incoerente, se aventurar pelas ruas com uma 250cc era mais uma aventura pro seu currículo. Contando com isso, sempre fora um aventureiro. As fugas, os escapes, os encontros e desencontros que a vida lhe trouxe. O irmão, morto numa colisão, foi parar embaixo de um ônibus. Tentava viver uma vida longe das drogas, das bocas, dos labirintos que a rua lhe enfurnava. Era um cara correto, com namorada, respeitava a mãe, pai e mais 2 irmãos. Só que a vida resolveu lhe foder e fodeu bonito. O motorista não o viu e quando viu estava embaixo das 4 rodas e tantos quilos de metal e plástico. Menos um no mundo, mais um no coração das pessoas. Filho amado e querido, sua doce lembrança pra sempre viverá em nossas memórias. Estava escrito no papelzinho do velório.

A única entre os 5 motoboys. E representava firme e forte a categoria. Tentou outros empregos, mas não conseguiu nenhum. Nenhum que a satisfizesse como ser motoboys. Se sentia feliz com aquilo. Trabalhava 6 dias, folgava um e era mais uma tentando pagar as contas e viver legal. Como todo mundo. E como todo mundo tinha um sonho. Queria ser cineasta. Aquele mundo de câmera, luz, ação lhe fascinava e era só lembrar disso que os olhos escuros brilhavam feito cristal. O pessoal do bairro falava que não era coisa pra mulher, pra pensar em outra coisa, viver de motoboy pro resto da vida era mais seguro. Mas a fã de Kubrick não baixava a cabeça e se fazia de surda quando iam contra seu desejo. Ia sempre nas sessões especiais do cineclube para assistir Barry Lyndon ou Laranja Mecânica. Gostava do Senhor Fantástico, a única comédia do falecido, mas pirava mesmo era no HAL. O computador de 2001, com sua voz sutil, calma, contudo ameaçadora, lhe encantava. Que personagem, falava baixinho pra não incomodar os outros na sala. Quando deu, comprou um computador, o pai fez um gato e tinha velocidade de banda larga no meio do bairro decadente. Colecionava gigabytes de Godard, Allen, Bergman, Tarkovsky. Era sua fuga daquilo ali, quando a cabeça dava um tempo de buzinas, setas, xingos e fumaça e ela se prostava, assistindo com calma as imagens vindas do monitor. Quando queria desacelerar o bpm do corre corre, dava o play e se encantava com os sutis diálogos de Scarlett Johansson e Bill Murray.

Seu turno ia das 7 até às 1. Em média de 10, 13 entregas por noite. Isso só ela. Noite quente, noite fria, com lua ou escura. Naquela noite pediram um sanduiche ali perto. Ó, hoje vai sem o papel enfeitado? Tão sem? Elaia, olha só como gostam da empresa. Vai papel assim mesmo, branco, liso, tem certeza? Então tá. Onde que é? Tá… é perto, vô a pé. Tá. Seu filme preferido era o Sétimo Selo. A disputa da morte com cavaleiro num jogo de xadrez fundia seus neurônios com tanta poesia e comoção. Era a batalha da vida, de todos nós, ela pensava. Estamos no jogo da vida e procuramos a cada dia que passa uma maneira de vencer o tempo que nos envelhece. Burlar a escuridão por mais algum tempo acendendo as luzes da casa antes do grande apagão. Estava em uns 5 fóruns sobre cinema alternativo. Se fazia das mais ativas, discutindo desde cinema iraniano até filmes da Troma. Apesar de quem a visse na rua enganaria-se pela aparência. Não andava com óculos de aro grosso, nem camisetas com mensagens inteligentes e engraçadas. Não fazia do tipo intelectual estudante de cinema ou moderninha que lê Bravo. Roupas das baratas, tênis simples, cabelo preso. Tinha uma tatuagem no pulso escrita Fabio, o nome do irmão. E só. Sem namorado e sem pretendentes. No fone de ouvido, a trilha de Amadeus. Milos Forman sabia o que fazia.

Não esquece as cervejas! Gritou o balconista. Porra, sanduíche em metro e mais isso tudo de cerveja. O que é isso? Um bacanal? Viro Roma? Ai, me empresta o carro então. Pode deixa que eu tomo cuidado. Mulher no volante perigo constante é a piroca mole! Tá, já volto ai. E foi, entregar. Não conversava muito, aparentava ser simpática e não tinha tempo ruim. Acendeu um cigarro e entre os cds no carro, escolheu o menos pior. Porra, Josué. Wando ao vivo. Chegar em casa espero que Mad Max tenha baixado. Me amarro no Mel Gibson. Tesão. E foi cantando Fogo e Paixão.

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