A soma dos quadrados dos catetos…

7h56. Estacionou o carro e viu. É aqui. Ele vinha vindo com a chave na mão, pela rua, pegando a descida da mesma. O tempo passa, o tempo voa, e a poupança… Noite fresca. Desligou o carro e os dois rumaram para a mesma portaria. Portão verde, sem zelador. O edifício tinha uma fachada bonita, bem situado na cidade, numa área boa para viver. Ela tocou o interfone, sétimo andar, abriu o portão. Ninguém na portaria. Apoiou um dos fardos na grade, foi tirando as coisas do carro. Ele se aproximou.

Deixa que eu te ajudo.
Opa, obrigada.
De nada, eu também to entrando.
Ahhh…
Quanta coisa…
É. Parece que a festa vai ser grande.
Com um sanduiche desse tamanho e essa cerveja toda vai ser grande mesmo. É hoje que não durmo. Hahahaha.

Bem afeiçoado, boa pinta. Camisa pólo, calça jeans, tenis branco. Entraram no hall, uma mesa de madeira. Caixinhas de correio, salão de festa, flores, teto de gesso rebaixado. Chamou o elevador e ficaram esperando. Terceiro, segundo, primeiro…

Perai, deixa que eu abro…

Ele não causava nenhuma suspeita. Morava ali. Ela, uniformizada como de praxe, estava na sua função. Colocaram tudo pra dentro. Ela apertou o sétimo, ele não se manifestou. Segundo, terceiro. No quarto andar, pegou um dos fardos de cerveja e tirou uma. Ela olhou, estranhou.

Ei…

Ele sorriu cinicamente. Estraçalhou a garrafa, encharcando as roupas, o chão, os quatro cantos, o ambiente todo. Cacos de vidro marrons formavam um mosaico sem forma no chão de igual cor. Ela não acreditou. Ele acreditava. E muito.

Cala a boca e Faz o que eu tô mandando senão te retalho toda, vadia.

Não soube o que fazer. A boca seca feito deserto, que nem aquela cerveja toda seria um oásis para ela saciar a sede. Tomou um choque, de que aquilo nunca aconteceria com ela. Os sanduíches, em sacolas brancas, foram ao chão, formando ilhas de plástico naquele mar de álcool etílico. Do lado contrário, ele não tinha nada a perder. Com o aparente controle, era só fazer o planejado: Entrar, roubar, sair. Ninguém sangrava, ninguém gritava, ninguém morria. Ela poderia ameaçar um chute, uma reação, contudo sabia que nos filmes a vítima tentaria alguma coisa e se daria mal. Sexto, sétimo…

Já sabe, faz tudo que eu disser. Não grita, não pensa, não respira, não faz merda. Não quero problema e tu também. Abre essa porra, vamo tira tudo daqui…

A cerveja escorria para o fosso, a sujeira feita. Botara um calço na porta, deixando o elevador no mesmo andar. Ela com as mãos tremendo, ele segurando a garrafa firme. Um apartamento por andar. Perfeito, ele pensou. Sem gente para atrapalhar tudo ficaria mais fácil. Ela apertou a campainha. A porta se abriu. Sorrateiro, passou uma gravata pelo pescoço da garota. Não deu nem pro cheiro. A publicitária, abrindo os olhos após um breve piscar, mostrando os dentes, sorrindo, após um rápido boa noite, foi recebida com um chute na barriga, um coice, sendo arremessada alguns tantos para trás. A garrafa em punho, a vítima dominada. Não adianta bater, eu não deixo você entrar.

Não faz merda senão tu roda, porra!

Bateu a porta, estremecendo as janelas, os cristais, a decoração do bonito apartamento. Pareces brancas, sofás sóbrios. Alguns quadros pendurados, um poster de Cães de Aluguel na parede contrastando, outras quinquilharias por estantes, aparadores e formas de madeira, metal, plástico e vidro. A sala ampla era ligada com a cozinha, armários embutidos. Fogão, geladeira, microondas, um pinguim sorrindo. Fotos, vasos, flores. Uma mesa com tampo de vidro escuro, um lustre reluzente, dando para um janelão de vidro, mostrando os prédios vizinhos. Caralho, ela pensou com a mão na barriga, se escorando num canto, tentando entender o que se passava. Ele e ela, os outros dois, suavam. Frio. Ele lambia os lábios a todo momento, pensando, analisando. Tinha em mente, antes, o que faria, como seria. Tinha em mente, agora, que de nada adiantou. Não era como um show, com o repertório ali e só cantar. Fazer como nos ensaios. Era diferente o momento, era um improviso só. Quem sabe faz ao vivo! Ela, dominada, pensava em quantos. Quanto aquilo tudo iria durar, quanto mais ele iria enforcar ela, quanto mais ela iria aguentar, quanto teria que ser a força duma cotovelada para soltar-se, quanto que ele iria levar…

Porra, filha da puta! Tem jóia, tem dinheiro, tem dólar? Me diz, porra! Onde tá toda essa merda?

Apontava a garrafa pra mulher, caída no chão, que não se contorcia mais após o chute porque seguia os 300 abdominais que o personal lhe recomendava 3 vezes por semana. Era uma forma de aliviar o stress do atendimento, da mídia, da criação, dos clientes todos. Exercício físico produzia Serotonina, sendo mais uma forma dela ter felicidade, tirando o amendoim, os amigos, o sexo e um par de coisas. 8h24

Ai, ai… Calma… dizia a negra redatora se re-erguendo.
Calma o caralho!, puxando a refém pelo pescoço, forçando brutamente suas articulações. E não vem me fala que não tem nada que eu fodo vocês duas bonito! Anda logo, me dá o dinheiro! gritava nervosamente.

Ela foi se levantando, se apoiando nas paredes e na mesa amarela, patinada, feita pela tia, tentando se localizar, ficando calma. Foi começando a entrar em si e analisando uma forma de tirar vantagem sobre o nervoso homem, bem vestido, mas sujo pela condição do momento, que dominava uma indefesa criatura, com o uniforme manchado e molhado. Pensou em duas ou três coisas para ter a dianteira desse jogo de gato e rato, desse pega-pega cruel.

Calma que eu te dou tudo, não machuca ninguém.
Anda logo que eu tô com pressa, caralho!

Ela não dava um pio, com os olhos escuros arregalados que só. Tudo estático como ela e seus movimentos. Tentava se concentrar em algo para facilitar sua vida, diminuir o nervosismo, mas de nada adiantou. Cenas e cenas, trechos e trechos, de dramas, de tragédia, de terror inundavam sua mente. Pensou que fim seria aquele dela, nada heróico, diferente do que ela via nas películas e desejava pra ela. Iam adentrando o apartamento, um corredor até o quarto. A anfitriã primeiro, os convidados depois. Noite de gala. Passaram por um quarto, o banheiro, outro quarto, até a suíte principal. Um banheiro se fazia antes da cama king size, juntamente com a bonita vista da sacada e a televisão emoldurada na parede.

Abre isso tudo e vai me dando o que é de valor, caralho! Anda porra! Dizia berrando, chutando uma das portas do armário embutido. A garrafa sempre em riste era como a peripécia que o filho fazia para a mãe olhar e dizer: Que bonitinho. Ortopé, ortopé, tão bonitinho. Bonita camisa, Fernandinho. Mãe que ele temia em perder, após o médico lhe dizer, na tarde do mesmo dia, que ela teria pouco tempo de vida, desmentindo o primeiro diagnóstico. Era a única coisa que ele temia perder, já que o resto o destino ocupara-se de lhe sacar. Ela ia abrindo as portas do guarda roupa, escancarando as roupas, sapatos, perfumes, lenços, adereços que iam sendo revirados em busca do que havia de valor.

A garota continuava presa pela gravata e inerte presa em seus pensamentos. O assaltante continuava vidrado no que podia o destino lhe dar. A residente pensava em tudo. Até naquela música. Aquela “Alô, Alô W o Brasil Alô, Alô W o Brasil…” 8h47. Foi quando…

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