Ser gordo

Ser gordo é uma arte. O gordo está dentro das categorias reconhecidas como base da pirâmide do bioconhecimento humano: o careca, o bigode e o gordo. Você usa-os como referência absoluta, do meio da Avenida Paulista até o fim do mundo no deserto do Saara. Ser gordo é saber viver, é saber deliciar os quitutes da vida. Enquanto o magro fica regulando sua refeição, escolhendo bem o que comer, como comer, a quantidade do que comer, o colorido exuberante calda de pavão, o gordo é o contrário. Se esbalda, se esbanja e não quer nem saber. Se atira numa cuba de comida, come com vontade, come com prazer, lambe os dedinhos roliços como as salsichas que acabou de deliciar. Emocionante. Aliás, esse deve ser seu único prazer: comer, já que comer na frente da TV é um caso a parte. Sentir os sabores, as texturas, a maciez da carne, o caldinho do feijão, a crocância da batata frita, a farofinha, a casquinha de massa podre do empadão e pra fechar tudo isso o sorvete derretendo na boca e fazendo congelar a cabeça é de fazer qualquer um pirar a mesma. Mesmo o magro mais chato.

Posso falar com toda autoridade no assunto, pois já joguei nesse time, fui um bom meio de campo. Sei dos benefícios e das dificuldades. Benefícios, alguns. Numa competição de quem come mais, certamente ganha. Ou então no inverno, ao invés de 3 cobertas, 2 mantas e mais um lençol, você fica apenas com sua cueca samba-canção e acha que está quente. Não posso esquecer do lado intelectual, pois o gordo só é burro se quer, já que lhe sobra um bom tempo, parado, sem suar (o que é uma das piores coisas para o gordo), para ler um livro, ver um filme, escutar uma música, todos bons, e acompanhados de uma boa porção, seja de castanhas do pará ou anéis de cebola na massa de cerveja. No ar condicionado, claro. O contrário disso tudo, bem. A vida mostra para todos como o gordo sofre. É inevitável. Olhe ao seu lado, seu vizinho, seu cachorro, você, mas não aponte o dedo pois é feio, minha mãe já dizia. Calças tamanho 52, cotovelos marrons, o último a ser escolhido em atividades físicas (ou não, o sumo e o cabo de guerra são bons exemplo), ser alvo de toda chacota e um sensacional bode expiatório. O gordinho sempre se arromba, mesmo sendo o mais querido e engraçado da turma. É ele quem vai fazer alguma coisa ridícula e ir parar no youtube, balançando a barriga ou arrotando seu nome. Gordinho só se fó. E só se dá bem quando o roteirista quer. É a lei da vida, é a lei do cão, é a lei da gordura vegetal hidrogenada.

É engraçado falar tudo isso, pois não faz muito tempo, dizem os historiadores, que para eles tudo é recente, por exemplo Jesus Cristo esteve ali, em 2000 e tantos anos passados, era dobrar a esquina, ver água virar vinho e fazer a festa, ser gordo era uma coisa boa, era sinal de vida, prosperidade, riqueza. Veja Buda, o mais famoso. Ninguém tem uma estátua de Buda magro na sua casa, já que essa é quiçá a mais importante fase dele, quando ele alcançou a iluminação. Veja o Faustão, era um gordinho todo alegre e simpático, que todos viam seu programa e não enchia o saco de ninguém. Hoje está magro, vestindo umas camisetas ridículas, coisa de ex gordo, e o povo prefere ver a quinta reprise de um filme qualquer no Telecine. Veja o Jô que sei lá… perdeu 500 gramas e se tornou um chato de galocha. Não só isso, mas veja qualquer coisa e observe que o mundo se tornou um lugar extremamente chato em relação a forma e beleza. Redução de estômago é o novo cinza. Ter uma bordinha fora da calça faz parte dos novos sete pecados capitais. Propagandas de aparelhos físicos só usam os gordos quando servem de exemplo para massageadores, que mostram sua área adiposa balançando como roupa no varal. A TV usa gordos como exemplo de para ganhar, você tem que perder… gordura. Ser gordo é mais um crime nessa sociedade depressiva e bitolada, que condena cegos, surdos e surdos-mudos, pois é preconceito falar de quem tem uma deficiência auditiva. Uma pena.

Acredito que a obesidade mórbida é, sim, um mal. Que somos a geração da anorexia inversa. Temos mais mal nutridos por besteira do que por falta de comida. Doces, frituras, enfim, toda essa e aquela ladainha sobre má alimentação está certa, eu concordo, mas estamos entrando numa época de uma total vigilância sobre nossos hábitos. Não só a gordura, como qualquer outra coisa, desde albinos até vesgos. Cade o Costinha? Cade o Mussum? Piadas de bichinhas? Piadas de negão? Isso é coisa do passado imoral e insensato. Tudo rígido, tudo controlado, cada um é seu auto big brother. 1984. Cuidado com a boca, não só para engordar, mas para não falar o que deve. Não podemos falar sobre nada que passamos a ser os preconceituosos da vez. Temos que seguir a rígida cartilha normativa dos bons costumes e modos da sociedade puritana e dos cabelos bem penteados, amém. Não vou entrar em maiores detalhes, pois cada cabeça sua sentença, cada qual com seu James Brown. Não posso negar que minha vida melhorou, seria hipócrita, contudo as vezes sinto saudade do isolamento térmico, de toda aquela comida, de todo aquele jeito gordo de ser, espaçoso e confortável, todo amor que um gordo tem por si mesmo, maior que qualquer um, de toda aquela gordura. Gordura não, excesso de gostosura.

Avisos

1. Parece que a pia tá entupida. Nada de ideias já faz um bom tempo. Algumas vem, algumas vão, mas nada que me apareça e me “choque” de verdade. Aquelas ideias que você tem e fala: BANG! Perfeita prum delicioso texto adorável. Muitas ideias visuais, poucas ideias “papelisticas”. Já tô (muito) de saco cheio com essa entressafra, escassez, ou seja lá o nome que dão para falta de ideias, as sagradas ideias. Quando será que o pedaço de batata vai descer pelo cano, o tufo de cabelo vai sair, e deixar a água fluir? Eis o mistério da fé.

2. Uma coisa que eu queria falar há algum tempo e me remói um tanto. Aquele texto do “triângulo” não ficou bem do jeito que eu queria, até poderia re-escrevê-lo, mas não sei, algumas coisas não devem ser mexidas, por enquanto. Acho que os personagens podiam dar mais de si, a história podia ser mais complexa, o final diferente. Imaginei uma coisa mais cinematográfica e passar pro papel fica difícil,. A Daniela e o negócio do lado negro da Lua, sabe? Não ficou bem como queria. Quem sabe futuramente eu não dou uma mexida nele e ele fica do jeito que o Capetcha gosta.

3. Livro novo na praça. Quem quiser, peça. Quem puder, compre.

4. Faço freelancers. Publicidade, jornalismo e até, se bobiar, ghostwriter. Preciso de money. Contate-me: gabriellfaraco@gmail.com ou aqui pelo blog, o que você, caro ou cara contratante, achar mais fácil.

5. E é por essas, falo amizade?

Desgraçado Desespero

Com capa de Thiago Furtado, vulgo Valdi Valdi, Desgraçado Desespero é o segundo livro que faço, totalmente impresso, grampeado, montado, analisado e testado quimicamente em casa. São 100 cópias, de 10 páginas frente e verso, poemas e contos nada inéditos, letras coloridas (e a capa também, apesar de ali em cima estar branca), enfim, bonito e bem feito como um livro bem feito e bonito deve ser. Como no primeiro livro (que você já deve ter lido e se não leu, bem… Leia) quem quiser comprar/colaborar, deixe seus dados nos comentários que entro em contato com você e assim fechamos qualquer negócio. E é por essas, valeu? Fé em Deus… DJ!

Boa noite.

Neste instante
Ontem é passado
Foi, não volta
E se voltar?
Ultrapassado
ele deve ser.

Presente
Agora é hoje
Na nossa frente
Mas não atrase
Não perca a hora
Que ele não espera no ponto
Pela nossa demora.

E o futuro?
Depois é outro dia
E será passado
Daqui a pouco
Pelo agora
Pois por educação
Na frente vão as senhoras.

Lembre que
A sombra de hoje
Foi ontem, num tic
E só amanhã
Quando o tac tocar
Ela voltará para
O mesmo lugar.

Tenha, faça, viva.
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Bom dia.