Numa lanchonete na beira duma larga avenida qualquer, deus e o diabo tomavam um guaraná e comiam suas respectivas coxinhas. Na TV, uma missa.

– Quanto de perfume você usa pra disfarçar esse cheiro?
– Duas gotinhas, como diria a loira. E o que você passa na mão pra tirar o sangue dos inocentes que morreram pelo teu nome, hein?
– Sabão de coco resolve. Mas olha só, como vão as coisas por lá?
– A mesma coisa de sempre, você bem sabe. Dizer que tá um inferno é uma redundância total. E seu reino, na paz?
– Ah… Ultimamente anda vazio. Os que tão lá, bem, tão lá faz tempo. Hoje em dia ninguém mais acredita nesse negócio. Quer dizer, tem as tais das 70 virgens, mas esse departamento não é meu. O meu é o do conforto e os caixões que tem por ai tão mais confortáveis que umas nuvenzinhas e o povo prefere virar comida de bactéria do que levar uma vida eterna.
– Acontece. No meu caso, minha cota de publicitários tá quase sempre no limite. Os safados sempre mudam de nome. Hoje publicitários, amanhã marqueteiros, isso sem falar que cada um é uma coisa que vão se salvando. Mídia, redator, diretor. Um saco, bando de mentirosos deslavados. E os políticos, então?! É capaz que esse ano se emancipam, vão ter um inferno particular, especial. Tudo de primeira, dos chicotes franceses aos pregos chineses. Mas vem cá, não querendo confusão, só que as vezes aparece um dos seus por lá. Não se contentam em só colocar a hóstia na boca dos outros e bem…
– É, tô sabendo, eu entendo. Ou não. Os de antigamente eram menos assim. Quer dizer, não menos assim, até acontecia umas gracinhas, umas catequizações forçadas, aquilo tudo que já se sabe, mas desse tipo é novidade. Criancinhas? Foda, nem eles se salvam.
– Eeee… Olha a boca!
– Rá! Você me falando isso? Você?!
– Alguém tem que falar, porque não eu, hein?

O diabo vai morder sua coxinha e no meio encontra uma minhoca. Retira a mesma e saboreia o bichinho. deus apenas dá uma risadinha.

– Ergh! Tinha que ser coisa sua pra ser doce assim.
– Vê outra pra mim? E você, nesse caos todo, acha que alguém se salva?
– Difícil. Mesmo os “bonzinhos” tem lá sua podridão, seu dedinho necrosado. Mudando de assunto, e o J., como tá?
– Tá bem, vive tranqüilo. Não tem muito o que fazer, acho que ele superou tudo aquilo. O que não sabem é que ele não gosta daquela coisa de salvador, foi um mais como um teste pra ele, ele foi o escolhido e deu. Não tem esse negócio de super-poderes, nunca teve. Ele só foi diferenciado no modo de ser, de falar. É um primeiro ministro, o garoto. Bem, tenho que ir. Você paga?
– Pago, pago. Vamos marcar um xadrez, um joguinho. War, se bobear?
– Eu posso ir com o Ahmadinejad e você com o Ob’?
– Tudo bem, tudo bem. Até depois. Nos falamos.
– Até, barbudo.
– Cuidado pra não pisar no rabo nem bater os chifres por ai, hein.
– Pode deixar

deus sai andando, assobiando um de seus hinos. “O Senhor é santo, ele está aqui. O Senhor é santo, eu posso sentir”. O diabo faz a úlcera do balconista doer, sua visão ter uma princípio de catarata. “Não lavar a mão depois de pegar dinheiro é pecado, sabia?”. E fica tudo certo entre os três mundos: Os deles e o nosso.

Sábias palavras

Você e suas ideias brilhantes. Ah, como você mata e morre por elas. Não, você não mata e morre. Você vomita comentários em blogs e faces, ou despeja suas opiniões pelos bares afora, misturando brilhantemente conceitos inovadores com perdigotos alcoolizados. Mas não importa. Você acredita em suas ideias. É rápido no gatilho: começa a disparar rajadas com suas opiniões antes que qualquer um tenha tempo de falar.

Você e suas ideias brilhantes. Não mudaria uma linha delas, certo? Mas suas próprias ideias são mutantes. Por que comprar brigas com outras pessoas, gerar irritação e ódio, em nome de ideias que podem não ser mais as suas amanhã? Ah, são ideias que você preza, que não mudariam nunca? Meu caro, tudo em sua vida muda, e mesmo suas ideias vão mudar de alguma maneira. Talvez não mudem de direção, mas podem mudar de cor, brilho, consistência. Mesmo sendo a mesma ideia no caroço, ela pode se ampliar, crescer como uma trepadeira (ou uma rede neural, dependendo da metáfora, simples ou pedante, que você escolher), e crescendo ela vai abranger outras ideias, abraçar outras mentes. Você se sentira melhor, menos sozinho, estará conectado a outros, vai receber muito mais do que irá dar.

Mas, veja só, como você se apega a suas ideias brilhantes. Não pelas ideias em si. Se você gostasse realmente das suas ideias brilhantes, iria gostar de ver como elas se enriquecem em contato com outras ideias. Se o que você gosta é da inteligência, se o que move você é a busca pela verdade, então deveria gostar da contestação. Amar os questionamentos, que o ajudasssem a se afastar do erro. Mas não é por causa das suas ideias que você briga. É por causa das suas posições. Da sua imagem. Em nome das pequenas vitórias dos debates mesquinhos.

Isso. Leve para casa o seu Troféu Cabeça Dura. Masturbe-se com suas Ideias Fossilizadas. Ideias que nunca vão dar em nada, porque você não quer colocá-las para circular, se misturar por aí, receber o toque, o abraço, o beijo das outras ideias. Elas vão morrer dentro de você, secas e ridículas.

Fausto Salvadori no seu Boteco Sujo.

Se especializara em artefatos explosivos. Três meses de planejamento, escolhendo o melhor local, o melhor momento, o melhor recipiente. O melhor livro, da melhor aula, do melhor colégio. Retirou o miolo dum calhamaço de 500 e tantas folhas, deixando uma sobra perfeitamente milimétrica para os fios, explosivos e detonador. Tudo ensinado por um ex-militar, fascinado por aquela arte precisa.

Um atraso qualquer. Bateu a porta, pediu licença e adentrou a sala, com passos firmes, pisando numa exata sincronia com o passar dos segundos pelos ponteiros daquele detonador. Primeira, segunda, terceira fileira, quinta cadeira.

Confortavelmente, abriria a mochila e retiraria o pesado livro. Posicionaria-se, observando as instruções de física na lousa digital. Impactos, forças, gravidade, quedas. Tudo igual a tudo. Menos a mais, vezes por divisão.

Ao bater das 8 horas, início das aulas, esperava o relógio adiantar-se cinco minutos no banheiro, cantando em francês e se maquiando lindamente. Emanava notas de magnólia. Os olhos verdes. Amarrou o coque, deixando a nuca a mostra, enfeitada por uma singela correntinha.

Adentraria as paginas do livro, até soltar o dispositivo e ter sua felicidade decretada. 137 mortos, 53 feridos os dados oficiais divulgados pela imprensa. 137 aberrações, 53 monstruosidades, os dados calculados pela mente dela.

Na sua mente passou-se a cena.

Confortavelmente, abriu a mochila e retirou o pesado livro. Posicionou-se, observando as instruções de física na lousa digital. Impactos, forças, gravidade, quedas. Tudo igual a tudo. Menos a mais, vezes por divisão.

Clube de francês, piano, arriscando bandolim, violino e um tanto de canto, teatro, dança, natação, handball, hipismo, mimos. Não sabia se seguiria as leis e processos do pai ou os discursos e comícios da mãe.

Na sua mente passava-se a cena.

E debaixo da tua saia
Eu terei o gozo e o desgosto
O terror e o desejo
O suplício e o alívio
O sonho e o pesadelo
Uma velha vida, uma nova morte
Debaixo da tua saia
Vou te completar
Vou te contemplar.