Você não sabe quem eu sou. Nem nunca fará ideia. Meu nome é desconhecido e assim será, teoricamente, para sempre. Sou como um segredo milenar, daqueles que a Igreja esconde a sete chaves, que só vão ser revelados no Juízo Final. Moro, ou melhor, morava, num lugar ermo e distante, desconhecido até o momento em que me tornei conhecido, o mais, da região. Árvorezinha, Anta Gorda, Quebrângulo, Grão Mogol, Cachoeiras de Macacu. Um desses qualquer, que pergunto: Você sabia que eles existiam? E bem, só sabe agora, pois saiu numa nota qualquer num jornal qualquer, cuja curiosidade é maior que o olho da cara. Mas não os culpo, é função deles. Antes tinha uma vida pacata, poderia ser um comerciante, aposentado, um agricultor, fornecedor de espelho, dono de birosca que vende cachaça por 50 centavos. Velhos tempos. Não sabia nem falar direito, só agora que resolvi ter a devida importância, pois a educação é o bem mais precioso que se pode ter e não pega bem ficar trocando os “eus” pelos “mims”, principalmente na situação em que me encontro.

Pois bem, foi quando tudo mudou. Numa tarde qualquer, numa manhã simples em que você, no caso eu, lia o curioso jornal é que percebe. No começo você fica abalado, chocado, não acredita, no caso eu fiquei. Pergunta-se: Como isso poderia acontecer comigo? Logo eu? Comigo, pombas! Mas a alegria é maior. Alegria, pergunta-se? É, alegria. Se não alegria, êxtase, maravilha, graça divina, finalmente a macumba deu certo. Não há como ser diferente, é o sonho dentre 10 entre 11 brasileiros. Não só brasileiros, como qualquer habitante deste globo redondo. Pensa se deve contar para todos ou guardar só para você, não só para você, mas só para uns 5: sua mulher, seu filho, sua filha, seu cachorro e seu periquito. A ideia remói em você durante umas duas, duas semanas e meia até que pensa em tomar uma atitude. Tem que tomá-la, não pode perder mais tempo e junto com ele perder o que o mesmo lhe reserva. Imagina perder tudo isso, quem seria louco? Perder o mundo quando se tem na palma da mão. Um absurdo!

Então o início. Você adentra como um cidadão qualquer, como os que já citei, senta, toma um café e sai com um aperto de mão saudoso e um imenso sorriso no rosto, chupando uma balinha para tirar o amargo da cafeína. E começa os planos. Por onde começar? Pensa em fazer uma festança, chamar todo mundo, mas lembra que assim seu segredo iria por água abaixo. Talvez um investimento, uma compra, uma aplicação? Lhe dão conselhos, lhe informam sobre as benesses e as dívidas que terá, que nem tudo são mar de rosas. Contudo mesmo assim você não cabe em alegria e satisfação e pouco liga para esses problemas, antes tão grandes, hoje um grão de areia. Areia me faz lembrar Bora Bora. Lindo lugar. O homem mais sortudo da rua, da quadra, da cidade, daqueles cantos de cá. Coisa que você sempre duvidou que aconteceria. Sempre pensou que fosse uma armação, uma conspiração, que não poderia acontecer, simplesmente por ser uma coisa surreal, de ninguém dar as caras, nem saber quem foi, como foi, coisa que só acontece por aqui, que nos lados de lá o reconhecimento é total. Fotos, apertos de mão, entrevistas, planos, sonhos e declarações. Tirando as flashes, digitais e falatórios, o restante você já tem em mente, tintin por tintin. Por onde começar, passar e nunca acabar. Aliás, só acabar por uma desventura total do destino (bate na madeira, faz figa e beija a cruz de ouro no pescoço).

E a vida passa. E muda completamente. Sua mulher já não é mais a mesma. Ou é mais jovem, mais inteligente ou não é mais sua mulher, você trocou por duas de 20, pensando que isso era apenas mais uma brincadeira tola dos seus amigos, que fariam sem sombra de dúvida caso tivessem a oportunidade. Sua filha está em recuperação. Ficará tão bonita, que nem capa de revista, certeza total. Seu filho está em algum canto agora, desfrutando a juventude, que você não pode até tal momento, mesmo não sendo mais tão jovem, pois tinha obrigações escravistas a cumprir e hoje nem pensa mais nisso. E lembra que vai encontrar ele em pouco tempo, para desfrutarem juntamente a juventude que agora os dois possuem. Jogar bola, comer um bacalhau ou ver o dia passar. Seu cachorro e seu periquito estão bem, até demais. Sua família, você não poderia esquecer dela, claro, se encontra na mesma situação. Casas, carros, alguns títulos e bens. Se bem que eu também não fui tolo de dar muito, sei como eles são e gastariam tudo num piscar. Meu nome é Jorge ou Elvis. Quem sabe Claudia, Rosana. E ganhei 52 milhões na Mega Sena.

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