Fuma, fuma, fuma…

Nicolau era seu nome. E trabalhava como narrador. Narrava de promoções de portas de lojas até batizados, casamentos e funerais. Era fumante. E como gostava de fumar. Fumava de tudo, dos 3 C – cigarro, charuto e cachimbo – até narguilés de fumos exóticos, que os patrões, alguns mais abastados, davam de presente ao reconhecimento de sua bela voz precisa e correta. Os cigarros, mais fáceis de obter-se, eram em média 15 por dia. Porém Nicolau compensava correndo e mantendo uma boa alimentação, achando assim que os males não o acometeriam. Nicolau: Narração de festas, batizados, bodas, eventos variados. 91523220. nicolaunarrador@bol.com.br é o que estava no seu cartão cor de salmão, em letras cursivas bonitas.

Como dito, Nicolau gostava de fumar. Juntava dinheiro, após saber quão barato era uma viagem até Cuba, para deliciar-se dos saborosos prazeres do fumo. Invejava as grandes personalidades fumando Cohibas, Montecristos, Macanudos, de tamanhos que vão desde Churchills, com 18 cm e uma hora de queima, até os menores, rápidos para uma digestão gloriosa. Se aventurara por um baseado certa vez, mas não gostou do efeito. Preferia o da nicotina, delirante como nenhum outro. Quando era pequeno, idade onde detestava a combustão do alcatrão, colecionava carteiras de cigarro e conseguindo uma dos aromatizados de Bali, ficava fascinado com aquele odor craveado.

Foi quando Nicolau, sendo Nicolau Nicotina entre os poucos mais íntimos, começou a perceber uma ligeira irritação na garganta. No começo passou um tanto despercebido, achando que tomando um pouco mais de água, além dos 3 litros diários – sua voz precisava tanto de hidratação quanto Xuxa Meneghel de seu Monange – o desagradável efeito passaria. Pois bem, não passou. Nicolau foi percebendo fortes nuances e só depois dum tempo passado é que resolveu ir ao médico. Não deu outra, balela: câncer na laringe. Como faria Nicolau agora, atordoado e acometido de tal pânico, já que de sua voz, tão bela e requintada, saia seus Marlboros, o pão das crianças e as calcinhas da mulher? Como faria agora Nicolau para narrar as emoções dos outros de forma tão sincera e correta? Pobre Nicolau.

Nicolau realizou tratamento, contudo os efeitos não desapareceram. Nisso foi informado que teria que realizar uma laringectomia. Foi acoplado nele um tubo, que fazia a ligação exterior, e assim lhe deu uma voz com aspecto robótico, metálico, parecendo uma fala frente ao ventilador. Um principio de depressão acometeu nosso amigo. A fumaça diminuiu drasticamente, sua coleção estagnou, os trabalhos cessaram, os amigos o acalmavam, dizendo que o ajudariam o quanto possível, todavia nada consolava Nicolau. Nada consolava até Nicolau ouvir no rádio uma canção. Nicolau pensara que era um simples canção qualquer, até reparar um detalhe: a voz. A voz? Pensaria que nos dias atuais o computador poderia fazer aquela voz, mas imagine só: uma canção tendo uma voz verdadeira, um humano, um ser carnal, fazendo esse efeito único, que a máquina era esforçada a fazer, energia desprovida. Nisso tudo mudou.

Nicolau já conhecia de narração, era nato em si, entretanto para obter êxito maior, fez um curso de aprimoramento cântico. Ao principio foi estranho, aquela voz esganiçada, a professora estranhara, mas como também queria fazer o seu, estimulou Nicolau quanto pôde. Tudo parecia bizarro até Nicolau fazer sua primeira apresentação. Quando as luzes começaram a piscar, cantando músicas dançantes, animando os bailes e festas, Nicolau obtinha tal reconhecimento nunca visto em seus 17 anos de profissão. A agitação feita na pista contagiou Nicolau de maneira impressionante, cogitando lançar um CD, despontado como a nova estrela da música eletrônica no país.

Quando ele pensaria que isso ocorreria? Que apareceria no vídeo fora sendo as filmagens? Que após o drama e sofrimento obteria esse tipo de fama? Conhecido agora como Nico, a voz de metal, que de seu simplório cachê de quinhentos reais, cobrava atuais cinco mil reais (ou mais) para exibir-se em raves por regiões afora, fazendo 15 apresentações só nos finais de semana, coisa que não chegava perto dos 6 trabalhos semanais, Nicolau transformara-se. Foram-se os dias leilões de gado, quermesses e bingos. Agora Nicolau participava de importantes gravações, como do novo disco dum famoso rapper, no exterior. Tudo patrocinado por uma famosa marca de cigarros. Deus dá o frio, conforme o cobertor, era o que Nicolau gargarejava no chuveiro.

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