Nota

Boa noite

O caso que chocou o Brasil. A atriz Pietra Silva é suspeita de matar o jogador de futebol Chinaider Angelo num ritual macabro, com envolvimento de magia negra. O país inteiro, atordoado com tamanha crueldade, se pergunta: como e o que levou Pietra a cometer um ato tão bárbaro?

A polícia chegou por volta das 6 da manhã.

“Vamo todo mundo quieto. Nenhum barulho, nenhum esporro, nada, entenderam?”

Pularam o muro e silenciosamente adentram a casa. O sol contrastava com a chuva que caia levemente durante o amanhecer, quando a porta da casa da atriz Pietra Silva, protagonista da atual novela das oito, “Desejo & Pecado”, foi arrombada. A casa estava vazia, silêncio predominante. O ETE, esquadrão tático especial, de São Paulo tinham pistas que recaiam diretamente sobre ela a cerca do desaparecimento de Chinaider Angelo, jogador do Itaú/Palmeiras, que disputa pela segunda vez ao prêmio de melhor do mundo e era seu namorado há cerca de 1 ano e meio. Chinaider e Pietra se conheceram quando ela entregou em suas mãos o troféu de melhor jogador do campeonato brasileiro. Logo depois começaram a namorar e a partir dai o que se sabe é de uma sucessão de paixão e brigas.

Pietra Silva e Chinaider Angelo são jovens, bonitos, famosos, astros nacionais. A atriz e o jogador mantinham um relacionamento descrito por amigos e familiares de “envolvente e explosivo”. O jogador, carismático e popular, desde o primeiro instante, se apaixonou perdidamente pela bonita jovem de marcantes olhos verdes que foi alçada a status de uma das mulheres mais desejadas do pais. A carioca Pietra protagonizava sua terceira novela e era apontada por colegas como uma estrela pródiga, de talento e beleza rara. Já Chinaider nasceu e cresceu na comunidade de Arupiranga, zona norte da capital. Desde muito jovem, era considerado um predestinado a ganhar o mundo. Após impressionante atuação no campeonato mundial sub-20, tornou-se jogador do Itaú/Palmeiras, atual campeão brasileiro, título que deu destaque mundial à Chinaider, pelo seu faro e pela plasticidade de seus gols. Os dois iniciaram um relacionamento logo após a premiação de Chinaider como melhor jogador e artilheiro do campeonato, prêmio recebido pelas mãos de Pietra.

“Eu só queria agradecer a todos que reconheceram meu trabalho e os meus feitos esse ano. Peço obrigado a Deus, meu pai, minha mãe, o time, a torcida, o treinador Barbosa, enfim, todos que colaboraram, que trabalharam com isso. Também queria agradecer quem escolheu uma moça tão bonita pra me entregar o prêmio. Hahahaha. Obrigado, obrigado e obrigado, mais uma vez.”

Pietra foi só sorrisos. Cerca de uma semana depois, recebia mimos que chegavam ao valor de 10 mil reais em casa, todos eles em nome de Chinaider. Começaram a sair juntos, viajaram ao exterior, passaram o ano novo em Roma. No inicio, o relacionamento foi descrito como sendo maravilhoso, com retoques de paixão, e isso permaneceu até a primeira briga, uma briga publica. Pietra e Chinaider foram juntos a uma danceteria na zona central de São Paulo. Lá, os dois foram alvos de flashes e fãs, sendo Chinaider constantemente bajulado, que o agarravam a ponto de deixar marcas em seu corpo. Pietra não gostava nada disso e, mostrando-se furiosa, deu um escândalo frente a fotógrafos e aos presentes, agredindo o jogador. Chinaider ficou sem reação. Em poucos instantes, Pietra entrou num veículo preto e sumiu pelas ruas da capital paulista. O caso foi manchete em colunas de jornal e programas de TV, que questionavam: Até onde tudo era perfeito nesse conto de fadas?

Sabe-se que dias depois, Pietra, desolada, foi se desculpar com Chinaider. O jogador aceitou as desculpas e os dois passaram o fim de semana em um hotel, no interior do estado. Voltaram e aparentemente tudo estava bem. Uma semana depois, Pietra bate com o carro, que fica completamente destruído. A atriz nada sofre. Boatos que o casal passava por uma má fase começam a surgir.

“Olha gente, eu amo o Chinaider e ele me ama. Não tá acontecendo nada, estamos bem e o que dizem por aí é pura fofoca. E, minha querida, você sabe que fofoca só faz aumentar meu ibope, que já não é baixo por sinal, hahahahaha” disse a atriz no programa matinal de Maria Virgínia.

Na noite do dia 27, uma semana atrás, Chinaider foi visto pela ultima vez saindo do centro de treinamento do Itaú/Palmeiras. Após isso, nenhum sinal do jogador. Os familiares, preocupados acionam a polícia, que, temendo um seqüestro, não alarmou a população, nem a grande mídia. Cerca de 3 dias atrás, Pietra também foi vista pela última vez embarcando para o Japão, sozinha. A polícia tentou impedir o embarque, mas era tarde demais. Os vizinhos, no mesmo dia, relataram que a casa onde a atriz mora estava toda fechada e um forte cheiro vinha de lá. O esquadrão tático abriu chamado, com ordens da justiça, e nesta manhã, invadiu a casa. O que encontram foi aterrorizador. A casa vazia, fechada, teve as janelas arrombadas para que a luz pudesse entrar e, em um quarto aos fundos, um forte odor putrefato. Pela descrição do comandante do esquadrão, um fato de outro mundo.

“O que eu vi lá foi coisa de cinema. Velas, cabeças de animais, estátuas, desenhos na parede, sabe… Coisa de cinema. O corpo de Chinaider, eu prefiro não comentar. Realmente… estou, estamos, sem palavras, nunca tinha visto tal coisa”

“Comandante, o crime caracteriza ritual de magia negra, satanismo, algo do tipo?”

“Pelas evidências, poderíamos dizer que sim, poderíamos de dizer que sim”

“E Pietra Silva? Alguma suspeita sobre ela? O que a polícia tem a dizer?”

“De início, todas as suspeitas recaem sobre ela, todas. Já emitimos mandato de busca e prisão e estamos atrás dela, considerada fugitiva internacional e, por enquanto, culpada pela morte do jogador Chinaider Angelo”.

Fico na rua a observar o mundo, fico na rua a observar as pessoas.

Fico na rua a observar o homem animal que tritura e mastiga a calçada, o chão a procura de espaço pra mais coisa num cu onde não cabe nem mais um pau. Fico a observar, pensando o que cada um faz, o que cada formiga é, se as com cara de inteligente, que se dizem tão saibas e fortes, firmes como um pilar grego, dando segurança ao Partenon, não chorariam, soluçariam como menininhas frágeis como bracinho de bailarina porcelanada, se uma arma bem no meio da venta lhes fosse apontada, perante os três centímetros que ficam entre um bago branco de outro. Fico na rua a olhar e pensar sobre as pessoas sentadas, se seriam como eu, que sentado fico peidando, ando e fico peidando, paro e fico peidando, e ainda sorrio pra elas e elas nem sabe porque, acham uma graça, e ficam a cheirar meus gases onde quer que seja. o podre gás que vem do meu mais profundo interior, da barreira invisível corpo-alma,

Fico na rua a observar o mundo e o mesmo ocorre quando pego um ônibus e penso nas mãos nojentas que passaram por ai, sendo sincero, segurando e equilibrando-se como símios na selva profunda, selva sinistra, com as bundas sujas que coçaram, os sacos cabeludos acariciados. Fico pensando nas mulheres e suas calcinhas, molhadas de suor e de fluidos, ao, nos apertos da vida, serem roçadas por tarados ou por simples inconseqüência, que elogiadas na rua de maneira mais bruta e máscula, ficam consternadas, mas ao interior se sentem realizadas, se sentem gostosas, possuídas e possessas. Fico a pensar nos aproveitadores, aliciadores, que na falta de um consolo, se consolam de maneira suja e impune, roçaroçaroça, num contato escroto e nojento, sem pudor, sem vergonha, sem rancor, que apalpam daqui, apalpam de lá, esperando a mão gentil apalpar num tapa seu rosto destapado e explodir num desejo sem fim, saboroso desejo.

Fico na rua a observar o sol que queima o afasto, que queima a pele, que queima o papel através da lente. Fico na rua e observo o sol que vem e vai, que se esconde entre nuvens, nuvens que escondem o sol, brincando de você não me ve, fico observar esse sol poente, nascente, e que não deixa nem olhar nos seus olhos, ficar olho no olho, que, com medo de ter um brilho maior que o seu, cega quem se atreve a lhe olhar, a medusa espacial. Fico a observar as crianças, tímidas e estridentes, sendo puxadas pela mão por mães apressadas em chegar em casa e ver a novela descansando após mais um dia de escravidão. O que será que essas crianças levarão de lembranças para sua vida adulta desse mundo que impõem que elas cresçam mais rápido que ovo de galinha chocadeira. Fico a observar esses meninos e meninas e penso se serão tão bonitos quanto são agora em seus 20 anos, o quanto de maldade ou bondade ainda será criado em seus corações, de razão prevalecerá perante a emoção, de medo tirará o lugar da paz, se terão o mesmo senso maluco e sem razão que eu tenho, de ficá-los observando em sua total beleza inocente, ou serão evangelizados na busca da salvação de seus pecados freudianos.

Fico a observar os telefones celulares e sua ameaça ainda não verdadeira de propagar o câncer, das cabeças abobradas por abobrinhas e cobranças, os churros gordurosos de banha transgênica, da soja que nasce no coração do país bombeado por sangue daqueles que morreram ou perderam seu canto para a expansão da voraz e faminta máquina do negócio alimentício, em razão de alimentar as 200 milhões de bocas e um sem números de dentes. Fico a observar os pombos comendo o lixo, para logo defecarem nos vidros dos carros. Fico a observar o ratos que correm escondidos no calar da noite, anarquistas do lixão buscando a sobrevivência em meio ao capitalismo gatuno. Fico na rua a observar estes cachorros. o melhor amigo do homem, com sua língua suja de masturbação e focinho podre de cheirar merda. Nada contra, eu mesmo quando era pequeno tinha paixão por duas coisas: uma eram as goiabas do vizinho. E a outra era a cadela da minha mãe, Fifi.

Fico na rua a observar as caras de soluções e problemas. quais soluções eles teriam para os problemas inventados pelos os outros, que inventam de problematizar como uma dor no nervo ciático às 3 da manha. Quais os problemas que lhe são impostos, se os impostos que lhe tiram uma fatia de dinheiro serão capaz de deixar no fim do dia uma fatia de bolo, um copo de suco sobrando para a derradeira refeição de um corpo cansado. Fico a pensar e observar o entra e sai dos banheiros públicos, das lojas de conveniências, dos elevadores que sobem e desce, sobem e desce, imitando e sendo imitados por atores de filmes sujos de terceira categoria. Fico a observar as expressões e pensamentos, no que se pegam mirando, como se cada um tivesse seu ponto no horizonte particular, seu spa-resort mental, e dele fazem seu mirante de reflexão, de frente para a Lagoa da Conceição. Racionalistas do terceiro mundo esperando a condução passar em meio a sacolas de comidas, roupas e revistas de fofoca.

Fico a observar esses carros e seus vidros fechados, os vapores do corpo vaporizados pela turbina do ar condicionado. As películas que não sabe se protegem do medo que vem de fora, que bate na janela vendendo bala, pedindo esmola ou se são para incorporar o medo do que pode haver ali dentro, da ameaça em forma de segurança, da sensação de perigo por trás dos negros vidros.

Fico a observar os vendedores nas portas de loja, pecando perante o sexto mandamento, a favor de seus patrões, pecadores ao terceiro mandamento, que nada mais são que marionetes ou fantoches do sétimo mandamento. o décimo mandamento, daqueles que degustam sem pagar o chocolate cobiçado, que dizem foda-se, que isso não é pecado, mal-dizentes, o quinto, que não se vê gravado nas testas, mas sente-se martelando cabeças e consciências; o quarto, na dor dos tapas, palmadas, cintadas, queimaduras de cigarro e outros sopapos; o oitavo, perante a autoridade máxima, não senhor, sim senhor, cala a boca, aqui quem manda sou eu; o nono, no nono andar do prédio, moças jovens, bonitas, 40 reais uma, oitenta duas, vem o pacote completo; o décimo, os diamantes no dedo, o relógio no pulso, a mulher, o homem, os dois, lado a lado, e o olho engrandecido dos que os rodeiam; o segundo e primeiro, que, Deus do céu, a quem amo mais que tudo, todos e o resto dos outros, se esqueço, o que será de mim?

Fico na rua a observar e uma vez ao comentar que eu ficava na rua observando as pessoas, imaginando como elas ficariam velhas um dia, com suas sinais e expressões, suas cicatrizes da passagem do tempo, uma amiga me perguntou:

– Carlos, como você me imagina como velha?
– Olha, eu te digo que até os 60 eu te foderia de boa…

Fico na rua a observar e olho que poderia ser mais otimista. Que poderia dar mais valor as pequenas coisas que a vida faz de brilhar, que meu medo de se jogar ao mundo pode ser uma mera tolisse, caindo numa contradição de me tornar um daqueles que tanto julgo ter a mente pequena, fechada. Observo que as coisas poderiam dar mais certo se tivesse um tanto mais de fé, de crer que é possível, mesmo isso sendo pouco constante de mim, porém observo o comum, que se fôssemos todos iguais, com as mesmas vontades e intenções, a humanidade seria chamada de unanimidade, e isso seria a burrice divina, escrevam, leiam e repassem o que digo. Observo que outros são tão mais felizes com pouco, que fico confuso com outros que acreditam que a riqueza está no muito. Penso de que me adianta ser imediato, o aqui agora, o é ou não é, se o que eu busco é o inesquecível, a eternidade perante seus e nossos olhos?.

Nota

Eu tenho super poderes, já lhes aviso. Ou algo parecido, acho eu. Não visto capa, nem tenho garras afiadas, nem um grito supersônico. Contudo gostaria eu de sair voando por ai, vendo as meninas através das paredes, coisa de filme. Bem, eu tenho a capacidade de olhar para uma pessoa e saber automaticamente tudo sobre ela, disse ele aos espectadores presentes no estúdio B, onde, após a descoberta desse fato pela população em geral,, sua vida mudou completamente..

“Quem sou eu, então?” – pergunta o entrevistador

Bem, como já é sabido, seu nome profissional é Nelson LeRoy, mas seu nome verdadeiro é Nelson Schultz Jebediah LeRoy, o segundo, natural de Madison, Winsconsin. Tem 47 anos, é casado, sem filhos, sua mãe é falecida e seu pai é professor aposentado. Seu esporte preferido é o poker e em 1986 você caiu de moto e colocou duas placas de platina na perna esquerda.

O entrevistador começa a aplaudi-lo, assim como o auditório.

“E onde tudo isso começou?”

Bem, eu era pequeno, devia ter uns 6, 7 anos, quando vi na TV o presidente John Kennedy ser assassinado. Automaticamente, fiquei sabendo quem ele era, minha lembrança era essa, que tempos atrás eu já tinha me dado conta desse dom, aos poucos, principalmente por ser criança e não ter muita noção. Quando apareceu seu assassino, o narrador falou seu nome com a exibição de sua foto, junto com policiais e outros homens, Lee Harvey Oswald. Eu virei para meu pai, que via o programa comigo, e na inocência lhe falei: “Papai, este homem é Lee Harvey Oswald, ele nasceu no estado de Nova Orleans, no dia 18 de outubro de 1939. Ele tem dois irmãos, Robert e John Pic, um tem 20 e o outro tem 17”. Meu pai olhou para mim sem entender e riu, falando “Tudo bem, filho. Hahahahahaha. Tudo bem”.

“Roseanne, você, no computador, pode nos confirmar isso?”
“Claro. Aqui está: Lee Harvey Oswald, nascido em Nova Orleans, no 18 de outubro de 1939, falecido em Dallas, 24 de novembro de 1963 foi, de acordo com três investigações do governo dos Estados Unidos, o assassino do presidente John F. Kennedy, ocorrido em Dallas, Texas, em 22 de novembro de 1963. Lee Harvey Oswald nasceu em Nova Orleans, Louisiana. Seu pai, Robert Edward Lee Oswald, Sr., morreu dois meses após o nascimento de Lee. Sua mãe, Marguerite Frances Claverie, criou sozinha Lee e seus dois irmãos mais velhos, Robert e John Pic.”
“Mas é incrível, minha gente! Aplausos para este homem, aplausos! Bem, estou fascinado! E depois disso? quando você começou a ter ciência e noção completa, quando ficou maior e percebeu corretamente as coisas, como foi?”

Com meus treze anos, comecei a ter um certo stress, pois via todos na rua e automaticamente sabia tudo, era uma sobrecarga de informação muito grande. Entretanto, fui aperfeiçoando isso, uma espécie de meditação, de desligamento. andava pela rua e não pensava muito atenção, mas sentia mais as coisas, ficava desligado e prestava atenção em poucas coisas. Via as meninas e ia sabendo as coisas delas, seus nomes, idades, desejos, sabe… coisa de adolescente. As vezes, por brincadeira  ia para as praças, locais de concentração popular e ficava observando as pessoas e descobrindo quem elas eram, um misto de curiosidade e conhecimento. Era engraçado ver tanto as pessoas mais velhas como mais novas e ver a bagagem que elas traziam, toda sua ficha corrida. Isso é meio estranho, até eu mesmo já considerei esquisito, mas afirmo que sou um homem de bem, levo comigo o mandamento de não fazer com os outros o que não gostaria que fosse feito com minha pessoa.

“Sim, bastante interessante essas informações. Este homem causou um certo rebuliço na América, estando nas capas e manchetes das principais revistas e jornais pelo país afora. Sinceramente, vejo você como uma pessoa normal, comum, como qualquer um de nós tanto que estão vendo pela televisão, como aqui no estúdio, porém com uma capacidade incrível. Não sei como explicar o sentimento, essa possibilidade de conhecimento pessoal jamais vista. O que mais você pode nos contar? Você já antes tinha divulgado esse dom, esse feito para alguém, para seus amigos, familiares, enfim?”

Apenas duas pessoas sabem, antes da divulgação: Uma, era minha vizinha e atual esposa, Lucy. Soube quando nós tinhamos dez, onze anos, e éramos e ainda somos fãs dos Beatles. Havia aquela coisa de ver pela TV e ficar fascinado com a popularidade. Uma vez, nossos pais foram jantar num restaurante no centro da cidade e eu vi aqueles quatro homens um tanto estranhos e disfarçados, sabe, uma coisa inconveniente, mas que se passava por natural sem que os presentes percebessem. Quando os vi pelaTV, soube que se chamavam John, Ringo, Paul e George, guardei esses nomes e só. Fiquei o jantar todo olhando os homens e em um momento me toquei de quem eram! Foi incrível! Meu sorriso se abriu e imediatamente apontei para eles e falei baixinho para Lucy: “são eles! são eles! os Beatles, Lucy! são eles!” ela fez uma cara estranha pra mim e perguntou: “onde, onde? você está maluco?” e lhe respondi “aqueles quatro homens estranhos, de barba postiça e de chapéu, olhem para eles. são John Lennon, Ringo Starr, Paul McCartney e George Harrison, os Beatles! Não adianta disfarçar, eu sei que são! John toca guitarra, assim como George, Ringo bateria e Paul, baixo” assim que lhe disse isso, ela me chamou de tolo e eu continuei: “todos eles nasceram em Liverpool, na Inglaterra, que faz parte da Grã-Bretanha, onde a rainha Elizabeth Alexandra Mary e o rei Filipe, duque de Edimburgo, que fica na Dinamarca, lá no alto do mundo, governam o Estado e fazem o casal real, com seus filhos Andrew, Charles e Anne. John e Ringo nasceram em 1940, Paul em 1942 e George em 1943, John em outubro e Ringo em julho, George em fevereiro e Paul em junho. Paul é esquerdo, enquanto todos os outros são direitos, o nome do meio de John é Winston, James é o primeiro nome de Paul, Ringo se chama Richard, e George é cristão”. Ela olhou para mim séria e falou: ” você tá brincando comigo, para com isso” e ficou a brincar com os talheres, mas eu falei “não, não tô não” e ela rusgou que eu estava mentindo e foi contar para seu pai, que, assim como o meu anteriormente, também não deu muita bola.

Fomos pra casa, eu tentando convencer ela e ela não acreditando, até que de tarde, no dia seguinte, estávamos vendo TV e a programação apresentava um jogo de perguntas e respostas, sendo os participantes eram pessoas famosas. Foi quando disse para Lucy: “Lucy, você sabe quem é está ai? Essa é a Sophia Loren, mas você sabe onde ela nasceu e em que dia?” e ela disse que não, que não sabia e eu lhe disse “pois bem, só de olhar para ela, eu sei que ela nasceu na Itália, na capital, Roma, mas se criou numa cidade do interior, de nome pozzuoli. O nome dela não é Loren, é Villani Scicolone, o Villani por parte da sua mãe, que se chama Romilda e o outro nome, Sicolicolone – disse eu brincando – é por parte de seu pai, Ricardo.” Enquanto isso, deixei de citar, a irmão mais velho de Lucy, Jack, estava vendo o programa pois justamente era fã de Sofia e nós apenas víamos o programa por causa ele. Foi quando ele, escutando a conversa, fez uma cara de espanto e perguntou: “garoto, de onde você tirou tudo isso?” eu lhe disse que apenas sabia e que sabia muito mais só de olhar para Sofia e que iria lhe falar mais, que “Pozzuoli ficava perto de Nápoles, que ela ainda tinha dois irmãos, Giuliano e Giuseppe, que seu pai tinha deixado ela quando pequena e ela tinha ido morar com a avó e que sua mãe era professora de piano” não deu outra e ele como fã, tendo revistas e posters de Sofia pelo quarto, um admirador do cinema e da musa italiana, ficou chocado “ei, como você sabe disso? onde você leu isso?” Lucy riu “ele não sabe nem ler direito” nesse momento disse “apenas sei, lalala!” Lucy riu e disse “é, apenas ele sabe, lalala!” e a partir desse momento ela pôs a crer em mim.

“e o irmão de Lucy?”

O irmão de Lucy saiu gritando pela casa. Ao contar para seus pais, eles não acreditaram tamanha a mentira que seu filho contava sobre uma criança, falando que era impossível. de tanto ele insistir, seus pais decidiram lhe colocar de castigo por contar tamanha mentira. Até hoje ele acha que eu li aquilo, que decorei por suas revistas e coisas de cinema. Sabe como é, que aquilo era coisa de criança.

“hahahahahaha” riram a platéia e o apresentador

A entrevista transcorreu bem. O entrevistador ainda me fez alguns testes, como perguntar quem eram os membros da platéia, do auditório, entre outros, sendo que respondi todos corretamente, com curiosidades e segredinhos. Questionaram-me se eu usava algum tipo de ponto, de sinais, de “ajuda divina”, porém provei e neguei todos os recursos. Para todos contei fatos da minha vida, o que pretendia fazer dela após ser descoberto – sendo essa uma outra história muito interessante – e como estava me sentindo, como sentia-me em ter esse poder, esse dom. Respondi que era normal, que não havia nada demais. Logo que a entrevista acabou, vieram recolher o microfone, me cumprimentar, modos sociais, sendo ao fim que me levantei e fui embora.

Ao pegar o elevador, um senhor aparentando bastante idade, baixo e bem trajado, entrou comigo a cabine e me cumprimentou com um carregado sotaque alemão “olá”. Eu, despercebidamente, acenei a cabeça e fiquei a olhar o chão, cantarolando. Como tinha dito, desligo do mundo, não presto atenção as pessoas para não me sobrecarregar, ou até mesmo no momento me fazia ausente. O elevador parou novamente, passageiros entraram e saíram e eu, ao levantar a cabeça, num movimento qualquer, tomei um choque. Não pude crer o que via, o que se passava aos meus olhos e aos restantes dos olhos não se vislumbrava. O homem, ao sair do elevador, olhou nos meus olhos, percebendo assim eu seu tapa-olho direito, e neste momento, percebi quem ele era. Percebi quem se fazia na minha frente, incrédulo, sendo desmentindo pela verdade e desmentindo a história. Olhei, e o homem, nada mais, nada menos, era Adolf Hitler.

a velha fica na janela
olhando quem passa por ela
seu fulano, seu siclano
moça bonita e carregador de piano
as vezes fuma um cigarro
acompanhada de um café
as vezes cospe um pigarro
roçando perna com pé

a velha fica na janela
espiando tim-tim por tim-tim
xereta o movimento incomum
dos transeuntes ali no jardim
todavia sacanagem alguma descorre
são eles comportados, coisa nenhuma ocorre
admiram a bela praça e o exuberante gramado
gargalhando suas piadas, engraçadas, um bocado

a velha fica na janela
as vezes chove, as vezes venta
põem-se a pensar e senta
ao longo do sofá, acomoda-se e pensa
degusta ingleses biscoitos
com uma xicara de chá
trazidos por seu marido
num navio de xangrilá
o telefone toca, porém é um engano
o número da velha é parecido
com o do bordel do seu luciano

a velha fica na janela
e não sorri pra ninguém
uma vez mamãe me disse
que isso é pura lorotisse
ela perguntou seu nome
e a velha respondeu ivone
o grande problema que havia
não era a aparente antipatia
é que quando a boca abria
a falta dos dentes se via.

Poema para Florianópolis, 7 de dezembro de 2012

Desvergonhado
Teu suvaco, todo suado
Me faz de gato e sapato
Fico tão atormentado
Quando me põe a`tentar

Tenho uma tara
Ó minha estimada menininha
Por tu`axilas tão bonitinhas
Uma e outra tão amigas
Lindas d`admirar

Escute bem
Não leve-me a mal, meu bem
De ameaça, há ninguém
Apenas um`afiada navalha vem
A teus pelinhos raspar

Não sou tarado
Apenas louco apaixonado
Ao olor, embriagado
De partes tuas, entusiamado
Cujas ninguém tende a`mar.

Acordo bêbado
E sem pensamentos
Encontro tuas chaves,
Minhas verdades
Um branco lenço
E falsos documentos
Procurando a certeza
De que prova alguma
Ficou em cima da mesa
Tornando-me por conseqüência,
Vitima de um vil carrasco
Maldito, por quem carrego asco
De nome fácil,
O temido consciência

Penso
Que para mais ninguém
E para todos, nada
Preciso algo provar
Minha professora é a morte
Que cochicha pelos orifícios
Por qual rua dev’andar
Até menos o opaco brilhante ver
Até menos o fraco coração bater
Eu tendo a seguir
Inseguro, feio e tenso a sorrir
Não que daqui eu fuja
É verso ao contrário
Daqui eu saio, obrigado
Aceno e espero a desculpa
Dos filhos da puta, desgraçados
Que ao invés de pôr,
Me tiraram a devida culpa

Penso
Que do vermelho caqui
Ao oiapoque chui
Eu já andei e degustei,
Mergulhei e sobre-voei
E foi, durante uma dança,
Bailando por lembrança e esperança,
Que lembrei
Dos amargos doces sabores
Que a vida me fez provar
Este, um presente dado
Com um bonito papel de jornal
Ao redor,
Fish ‘n chips embrulhado

Tenho um pai e um cachorro,
Um amigo e as melhores ações
Todavia esses só vivem
Em nossos dignos corações
Deles recordo quando passo,
Recortando caminhos
Com meu passo apressado,
Por filmes, por uivos
Por festas regadas a samba canções
Pelo mercado financeiro
De toscas especulações
E que para eles,
Sempre deixo um beijo e um abraço,
Da Suíça, um queijo e da virgem, o cabaço

Tive a mãe, o gato, uma ex-namorada
E minha foto num velho retrato
E vi que um dia,
Todos ficaram ao meu lado
Todavia abandonado, atropelado,
Apaixonado e abnegado
Fiz-me um degenerado
Entretanto sabendo
Que esses continuam vivendo
Coloco-me um bocado feliz
Vivem em outro lugar
Vivem so far away from here
Onde jamais alguém
Por mais que lhe queira bem
Conseguirá seus lamúrios,
Por alguns segundos,
Minimamente ouvir.