Fico na rua a observar o mundo, fico na rua a observar as pessoas.

Fico na rua a observar o homem animal que tritura e mastiga a calçada, o chão a procura de espaço pra mais coisa num cu onde não cabe nem mais um pau. Fico a observar, pensando o que cada um faz, o que cada formiga é, se as com cara de inteligente, que se dizem tão saibas e fortes, firmes como um pilar grego, dando segurança ao Partenon, não chorariam, soluçariam como menininhas frágeis como bracinho de bailarina porcelanada, se uma arma bem no meio da venta lhes fosse apontada, perante os três centímetros que ficam entre um bago branco de outro. Fico na rua a olhar e pensar sobre as pessoas sentadas, se seriam como eu, que sentado fico peidando, ando e fico peidando, paro e fico peidando, e ainda sorrio pra elas e elas nem sabe porque, acham uma graça, e ficam a cheirar meus gases onde quer que seja. o podre gás que vem do meu mais profundo interior, da barreira invisível corpo-alma,

Fico na rua a observar o mundo e o mesmo ocorre quando pego um ônibus e penso nas mãos nojentas que passaram por ai, sendo sincero, segurando e equilibrando-se como símios na selva profunda, selva sinistra, com as bundas sujas que coçaram, os sacos cabeludos acariciados. Fico pensando nas mulheres e suas calcinhas, molhadas de suor e de fluidos, ao, nos apertos da vida, serem roçadas por tarados ou por simples inconseqüência, que elogiadas na rua de maneira mais bruta e máscula, ficam consternadas, mas ao interior se sentem realizadas, se sentem gostosas, possuídas e possessas. Fico a pensar nos aproveitadores, aliciadores, que na falta de um consolo, se consolam de maneira suja e impune, roçaroçaroça, num contato escroto e nojento, sem pudor, sem vergonha, sem rancor, que apalpam daqui, apalpam de lá, esperando a mão gentil apalpar num tapa seu rosto destapado e explodir num desejo sem fim, saboroso desejo.

Fico na rua a observar o sol que queima o afasto, que queima a pele, que queima o papel através da lente. Fico na rua e observo o sol que vem e vai, que se esconde entre nuvens, nuvens que escondem o sol, brincando de você não me ve, fico observar esse sol poente, nascente, e que não deixa nem olhar nos seus olhos, ficar olho no olho, que, com medo de ter um brilho maior que o seu, cega quem se atreve a lhe olhar, a medusa espacial. Fico a observar as crianças, tímidas e estridentes, sendo puxadas pela mão por mães apressadas em chegar em casa e ver a novela descansando após mais um dia de escravidão. O que será que essas crianças levarão de lembranças para sua vida adulta desse mundo que impõem que elas cresçam mais rápido que ovo de galinha chocadeira. Fico a observar esses meninos e meninas e penso se serão tão bonitos quanto são agora em seus 20 anos, o quanto de maldade ou bondade ainda será criado em seus corações, de razão prevalecerá perante a emoção, de medo tirará o lugar da paz, se terão o mesmo senso maluco e sem razão que eu tenho, de ficá-los observando em sua total beleza inocente, ou serão evangelizados na busca da salvação de seus pecados freudianos.

Fico a observar os telefones celulares e sua ameaça ainda não verdadeira de propagar o câncer, das cabeças abobradas por abobrinhas e cobranças, os churros gordurosos de banha transgênica, da soja que nasce no coração do país bombeado por sangue daqueles que morreram ou perderam seu canto para a expansão da voraz e faminta máquina do negócio alimentício, em razão de alimentar as 200 milhões de bocas e um sem números de dentes. Fico a observar os pombos comendo o lixo, para logo defecarem nos vidros dos carros. Fico a observar o ratos que correm escondidos no calar da noite, anarquistas do lixão buscando a sobrevivência em meio ao capitalismo gatuno. Fico na rua a observar estes cachorros. o melhor amigo do homem, com sua língua suja de masturbação e focinho podre de cheirar merda. Nada contra, eu mesmo quando era pequeno tinha paixão por duas coisas: uma eram as goiabas do vizinho. E a outra era a cadela da minha mãe, Fifi.

Fico na rua a observar as caras de soluções e problemas. quais soluções eles teriam para os problemas inventados pelos os outros, que inventam de problematizar como uma dor no nervo ciático às 3 da manha. Quais os problemas que lhe são impostos, se os impostos que lhe tiram uma fatia de dinheiro serão capaz de deixar no fim do dia uma fatia de bolo, um copo de suco sobrando para a derradeira refeição de um corpo cansado. Fico a pensar e observar o entra e sai dos banheiros públicos, das lojas de conveniências, dos elevadores que sobem e desce, sobem e desce, imitando e sendo imitados por atores de filmes sujos de terceira categoria. Fico a observar as expressões e pensamentos, no que se pegam mirando, como se cada um tivesse seu ponto no horizonte particular, seu spa-resort mental, e dele fazem seu mirante de reflexão, de frente para a Lagoa da Conceição. Racionalistas do terceiro mundo esperando a condução passar em meio a sacolas de comidas, roupas e revistas de fofoca.

Fico a observar esses carros e seus vidros fechados, os vapores do corpo vaporizados pela turbina do ar condicionado. As películas que não sabe se protegem do medo que vem de fora, que bate na janela vendendo bala, pedindo esmola ou se são para incorporar o medo do que pode haver ali dentro, da ameaça em forma de segurança, da sensação de perigo por trás dos negros vidros.

Fico a observar os vendedores nas portas de loja, pecando perante o sexto mandamento, a favor de seus patrões, pecadores ao terceiro mandamento, que nada mais são que marionetes ou fantoches do sétimo mandamento. o décimo mandamento, daqueles que degustam sem pagar o chocolate cobiçado, que dizem foda-se, que isso não é pecado, mal-dizentes, o quinto, que não se vê gravado nas testas, mas sente-se martelando cabeças e consciências; o quarto, na dor dos tapas, palmadas, cintadas, queimaduras de cigarro e outros sopapos; o oitavo, perante a autoridade máxima, não senhor, sim senhor, cala a boca, aqui quem manda sou eu; o nono, no nono andar do prédio, moças jovens, bonitas, 40 reais uma, oitenta duas, vem o pacote completo; o décimo, os diamantes no dedo, o relógio no pulso, a mulher, o homem, os dois, lado a lado, e o olho engrandecido dos que os rodeiam; o segundo e primeiro, que, Deus do céu, a quem amo mais que tudo, todos e o resto dos outros, se esqueço, o que será de mim?

Fico na rua a observar e uma vez ao comentar que eu ficava na rua observando as pessoas, imaginando como elas ficariam velhas um dia, com suas sinais e expressões, suas cicatrizes da passagem do tempo, uma amiga me perguntou:

– Carlos, como você me imagina como velha?
– Olha, eu te digo que até os 60 eu te foderia de boa…

Fico na rua a observar e olho que poderia ser mais otimista. Que poderia dar mais valor as pequenas coisas que a vida faz de brilhar, que meu medo de se jogar ao mundo pode ser uma mera tolisse, caindo numa contradição de me tornar um daqueles que tanto julgo ter a mente pequena, fechada. Observo que as coisas poderiam dar mais certo se tivesse um tanto mais de fé, de crer que é possível, mesmo isso sendo pouco constante de mim, porém observo o comum, que se fôssemos todos iguais, com as mesmas vontades e intenções, a humanidade seria chamada de unanimidade, e isso seria a burrice divina, escrevam, leiam e repassem o que digo. Observo que outros são tão mais felizes com pouco, que fico confuso com outros que acreditam que a riqueza está no muito. Penso de que me adianta ser imediato, o aqui agora, o é ou não é, se o que eu busco é o inesquecível, a eternidade perante seus e nossos olhos?.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s