(O outro texto não ficou da maneira desejada. Coloquei alguma coisa, tirei outras, arrumei. E ficou assim. Acho que agora foi…)

Eu trago ele pela mão, apesar da bengala, e ele vem falando, cantarolando, sorrindo, mostrando a falta dos dentes de trás na boca um tanto desgastada, apesar da pouca idade.

“O que me dá mais medo nem é a escuridão da cegueira e sim de um segundo pro outro eu ver um clarão e nem saber porque eu tô entrando no reino dos céus. Desde sempre eu sou cego, desde que me lembre por gente.”

Sentamos numa dessas mesas de pedra com marcação de xadrez, num jardim, onde outras pessoas também se fazem por perto, conversando baixinho, casais namoram, uma ou outra criança corre ao longe. Passarinhos, faz um dia fresco de sol, é domingo.

“Sabe, filho, moro na região central da cidade e o Tobi, que não é guia, mas bem que vira uma lata legal, me acompanha. Me viro como escritor, sou poeta, além de contador de histórias. Quando era pequeno, vou te falar, ouvi muita coisa que minha vó e todo mundo ao redor me contava sobre essa cidade, isso me deu um incentivo e uma imaginação grande. Vó Meloca. Pelas contas, já tenho três livros publicados, trabalho solto em tudo que é canto e todo santo dia saio pra vender, sento na praça e fico ouvindo o canto dos pássaros vendendo minha obra e alguns outros livros, pra dá uma ajuda no final das contas. Falo com um, falo com outro, tenho companhia o tempo todo, pelo menos isso. E apesar de acharem o cego um incapacitado na arte da escrita, aliás, não só nisso, eu bem sei, desenvolvi muito bem meu sentido para o uso das palavras, lendo em Braile, que graças ao bom Deus minha mãe fez questão e esforço pra que eu aprendesse, tão quanto perfeitamente como se fosse letras perante meus olhos ativos. Já li Alexandre Dumas, Cervantes, Victor Hugo, Fernando Pessoa, Jorge Amado, gosto muito, meu amigo.”

Vestindo roupas simples, camisa de botão, chinelo de couro, a bengala na frente do corpo sentado e castigado. As mãos e braços com veias marcantes, pele queimada, a calvice se mistura com o grisalho. Um óculos escuro, barato, protege a vista. Disse ele, antes de dizer tudo isso, que não gosta do sentimento das pessoas olharem seus olhos cegos. Fica incomodado, “parece que eu tô cagado, porra”.

“Assim diz o Senhor: Que o sábio não se glorie de sua sabedoria, que o forte não se glorie de sua força e o rico não se glorie de sua riqueza. Se alguém quer se gloriar, que se glorie de conhecer e compreender… Como que é o resto mesmo, porra… Ah! Se alguém quer se gloriar, que se glorie de conhecer e compreender que eu sou o Senhor, que na terra estabeleço o amor, o direito e a justiça, e assim que deve ser. Palavra do Senhor. É, muito bonito. As madres me ensinaram bem. Não sou cristão, católico, que seja, mas gosto, acho bonito, respeito.”

“Jeremias, capítulo 9, 23 ao 24 versículo”, me recorda, em seguida. E continua.

“Sabe, o grande problema do cego é ter o mundo todo aos seus dedos, o que é um perigo, pois bem saiba que o fio da tomada pode virar cobra num piscar de olhos.”

Quando pergunto a ele sobre sobre outros tempos, ele me diz.

“Vejamos, o Underberg é sem erro, composto de ervas que alemão nenhum bota defeito. Dá pra sentir o cheirinho, o gosto e diferenciar bem de Stanheger, este é mais amargo, abate mais a língua, quer ver um submarino, a bomba. Chopp, cerveja, teste cego ninguém me ganhava. Skol, Antartica, Brahma, Bohemia, escura, clara, o caralho a quatro, podia botar até mestre cervejeiro perante mim que eu ganhava dele, sem mais complicações. Complicava um pouco quando é cerveja de fora, mas tem aquela argentina, Quilmes, né? Essa dai eu acho melhorzinha, tem um pouco de Skol, um pouco de Brahma, deu uma mistura legal. Vinho eu nem vou entrar na brincadeira, gosto de Shiraz, Syrah, pimenta. Uma vez botaram na minha frente um Sangue de Boi, essa porra vagabunda, dizendo que era argentino, Pinot Noir de Córdoba, porra, tá de brincadeira? Sou cego mas não sou tanso, porra!”

Ele percebe um tanto minha agitação, me pergunta o que há. Eu digo que é o calor, ele me diz que não sente tanto. Eu lhe digo, que tal uma água e sombra? Ele topa, ajudo-o a levantar, sento-o num banco espaçoso e largo de madeira próximo, enquanto peço água. Ele prossegue.

“Vodka, whisky, bitter, quente, frio, gosto de tudo, bebia de tudo. Drink te digo um por um, nem precisava colocar na boca. Agora legal mesmo é cinqüenta e um, a do velho, ypioca, limãozinho, até garrafa plástica tem seu valor. Artesanal então, bebo e fico de joelho. Tem pra todos e é do bom.”

A enfermeira chega, consigo alguns remédios, “pra controlar isso, manter aquilo e continuar funcionando esse”, diz ele rindo, junto com a moça morena, sorriso bonito. Ela vai, ele me pergunta como ela é, falo que é bonita, ele diz “bonita nada, um tesão. Qualquer dia desses pego ela arrumando a cama e ó, créu!”, rindo. Mas continua, em tom sério.

“Bem. Eu não gosto de admitir, mas é a terceira vez que eu to aqui. Clinica Rural de Reabilitação para Dependentes Químicos São Miguel. Somando as três, 1 ano e meio. Já participei do AA, 12 passos, fichas, bem, não gosto muito de falar, mas é bom, eu sei que é, mas me faço teimoso pra não aceitar. O principal problema do alcoólatra é isso, a aceitação, que se a sociedade não aceita, a família não aceita, os amigos não o aceitam, como ele vai se aceitar, crer que é um doente?. Eu sou cego, sou alcoólatra e esta é a minha situação.”

Respira, me pede um pouco de água.

“Meu problema com a bebida vem desde jovem, eu saia pra cantar a noite, tenho uma voz bonita, e pra não ficar tímido, mesmo não vendo nada, bebia. E bebia. E bebia. Aí já sabe. Cego e bêbado é mais perigoso que tomar leite com pera, que ficar parado no meio do tiroteio. Eu sinto que meu corpo sofre, sofreu bastante. É foda, vomitar sem saber onde, cair sem saber como, cara, quanta coisa já fiz e passei. E olha, ainda bem que Deus me protege e por Ele que não tive coisa pior na vida. Por Ele e a Rosana, minha ex-mulher. Mesmo sendo ex, não tenho palavras pra dizer como gosto ela, por me salvar, deixar a garrafa de álcool longe de mim. A Rosana, eu te digo que pelo toque ela é bonita, tem cabelo comprido e diz me fala que é loira, com olhos verdes. Grande pessoa, grande mulher. E meu amigo, eu te digo que ter precisão nessas horas é fundamental. E bota fundamental nisso, sem mentira nenhuma. Precisão e confiança, precisa ter taco nessa vida, ainda mais não vendo nada. Você imagina, se eu erro e quando eu vejo, acho uma cobra no meio do matagal?!”

Gargalhadas e a enfermeira de bonito sorriso volta, anuncia que acabou o horário de visitas. Nós nos levantamos e seguimos caminhando, falando sobre a vida, o caminho verde, as crianças ao fundo, os últimos raios do fresco domingo. Levo ele até a entrada, lhe olho e sigo para a saída. Até em breve.