Há terremotos na Turquia, há maremotos no Peru, há explosões de usinas nucleares no Canadá. Há. Há mais casas ali, há mais trabalhos aqui, há mais balões no céu acolá, há mais irmãs e irmãos daqui que estão indo pr’ali procurar casas, trabalhos e balões no céu por lá. Há. Há mais sacolas de supermercado, há mais tampas de garrafa, há mais cacos de vidro pelo chão enfarpando em teus pés. Há. Há mais moscas na merda, há mais merda nas calçadas, há mais calçadas no fundo do mar. Há.

E o que ele fazia? Pegava os há da vida, juntava tudo e ria: hahahahahahahaha.

Dois. Velhos, barrigudos, com cabelo branco, sem dentes. Sentados a beira da entrada, Deca Lanches, olhavam o movimento. Eu passei e eles não me viram, me pus aqui e não me viram. Muitos passam e eles não veem também. Para outros eles dão um aceno, dizem qualquer coisa. A vida levada de forma leve. Não precisam falar nada um para o outro que apenas pelo olhar já dizem. Não só pelo olhar, mas é que não precisam dizer nada mesmo. O silêncio negro dos olhos. Dois. Carecas, sem camisa, o sol pegando em suas pernas e barriga, o movimento. Carros vão, motos vem, pedestres na ida e volta e os dois ali, parados. Alguém passa, os cumprimenta, eles apenas dão um aceno de rosto e continuam naquilo ali. Uma hora um levanta, vai até a porta, olha, fica, olha, uma mulher passa, uma olhadinha e tudo continua. Uma criança passa, faz uma brincadeira, eles sorriem e nada mais.

Ao lado fica uma pizzaria e do outro lado, uma rua. Ao lado da pizzaria fica uma mecânica e mais ao lado uma igreja. Todos ali passam e os cumprimentam, e mesmo os que parecem não os conhecer, de forma cordial, uma maneira educada, uma coisa da cidade, daquele bairro de ainda casas, acenam com a cabeça e dão um olá, como reconhecimento, como lembrança. Sim, ele passou aqui, me lembro deles, fedia e como fedia, é o que diriam os dois se alguém os perguntassem se passou um de boné, sem camisa, apressado. Mais afastado fica um bar, eles vão até ali, dão uma olhada, alguém fala algo, eles ficam quietos. Olham para a rua, olham para o chão, olham para cima, para o morro, para o céu, olham procurando alguma coisa. Um conhecido passa e eles falam, gritam, felicidade, no bar, cerveja e churrasco, e os dois ali, hoje é dia de jogo.

Um carro passa, buzina, eles gritam. Foguetes no céu e um grita, o outro nada. A música que toca se espalha pelo ar, música popular. A fumaça sobe. Passa bicicleta, uma pipa, mulher e seus filhos e um homem também, na bicicleta, de garupa com duas crianças, um menino e uma menina. O movimento é quase constante, talvez porque seja sábado ou domingo, por volta de 3 da tarde, pacificamente. Poderia ser maior, é dia de jogo, mas é sem importância. No outro bar, pelo que olho daqui, o movimento é maior que na rua. Bar do time que joga daqui a pouco, vejo pela TV no outro lado da rua. Estou na esquina, minha bicicleta de lado, não conheço ninguém, mas olho tudo, tanto faz. É estranho isso, todo o movimento e você parado numa esquina onde nunca parou e fintando o mundo. É interessante, essa zona aqui eu me lembro quando era pequeno, eu ia pra catequese por aqui.

É uma encruzilhada e, agora ou antes ou depois, poderia ou poderá, ter um despacho, não duvido nada ou não, nem vai ter lixo porque está pichado “Proibido lixo aqui”. Tem essa parte aqui que vai sair lá na avenida e logo em frente sobe um morro que eu não sei onde vai dar. Alguém grita lá longe, mais foguetes. Os dois agora gritam, gritam alto. E mais alguém grita mais alto também para eles não gritarem. Uma amiga minha mora ali pra cima, se estiver em casa, será que daqui poderia me ver? Mesmo eu não sabendo se da casa dela tem como ver o ponto onde estou, contudo pergunto que se ela me visse, eu iria vê-la? Poderia deduzir que sim, que ela me veria e eu a veria, já que se você vê alguém num espelho, olho no olho, essa mesma pessoa pode te ver, mas aqui não é espelho, é a vida real, mesmo que a vida real possa parecer com a de alguém, entende? Você olha os outros nos olhos? Sabe aquela coisa de falar a mesma palavra ao mesmo tempo? Imagina se vocês fazem a mesma coisa ao mesmo tempo, tipo sexo? A vida de duas pessoas se cruzam, como pau e buceta falando “vem em mim”, como olhos debaixo pra cima dizendo tudo sem falar nada. Estou na esquina, se ela me ver, que me dê um aceno, sou míope. Não sei reconhecer qual casa é a dela, talvez nem reconheça ela também. Tanto faz. Dois. Barba rala, sorriso frouxo, boca aberta, olhos cansados. O dono os chama “vem!” e lhes dá de comer o salame do churrasco.

Me lembro que foi uma tarde que escureceu rápido, os bares fechados, um ou outro garçom fazendo sala, com cara de bunda esperando algum cliente. Não tinha quase ninguém na rua, bem pouca gente, só morador e uns turistas perdidos, como sempre tem. Eu me lembro que a ultima vez que vi as horas eram 7 e pouquinho, não sei. Tinha uma garoa rolando, era domingo, eu ia pro Japa e o ônibus demoraria mais que se eu caminhasse. Ônibus no fim de semana é complicado, todos sabem, e lá fui eu, andar toda aquela avenida. Uma hora, deu um clarão no céu, que já não tinha lua nem luz alguma, e iluminou tudo, iluminou muito. Foi como um raio, bizarro. Aquele estouro, disparou os alarmes, a cachorrada apavorada, tudo. Foi um impacto forte, que alagou as Rendeiras, lembro que fiquei molhada antes mesmo de entrar na água, não duvido que isso foi até as dunas, deu um cheiro ruim. Passavam alguns carros, eles pararam e ficaram como eu, vendo aquilo sem acreditar, sem saber direito o que era. Era um avião, monomotor ou sei lá o que, um helicóptero, algo pequeno que voava? Tava escuro, não dava pra saber o que era, só que tinha caído na Lagoa. Sério, não deu pra acreditar, sem mentira nenhuma. Caiu bem no meio, ali pelo John Bull, um pouco pra lá, não sei. Foi perto de onde eu tava, foi chocante. De primeira não deu pra saber o que era, era fogo, era brilhante, estrondoso. Um rastro que veio do céu e se espatifou na Lagoa da Conceição. Algum morto, algum ferido, quem era, como era? Nessas horas você nem pensa e na verdade eu nem pensei, algo me pensou, algo me fez pensar. Foi mais que um risco mergulhar, imaginar tocar neles, tocar naquilo. Uma voz disse pra eu ir lá. Não era anjo, não era Deus, não era o Diabo. Era algo diferente, como alguém que te aborda no meio duma multidão. Eu senti uma presença na minha cabeça, uma coisa de outro mundo, dizendo pra eu ir e me aproximar. Eu sei que podia correr, que podia me esconder, ficar parada, mas não, não deu. Fui parar, fui nadar até lá no meio, nem sabia se dava pé, se tava cheio de merda, o que tinha me esperando lá. Nadei, toquei e apaguei.

Me falaram depois que na TV, no jornal, em tudo, é um alarde. Gente de fora veio pra cá, coisa de filme, sério. Soube também que capturaram eles, me capturaram. Não sei onde estou, não sei o que é, sei que eles me falam, me explicam as coisas e eu não preciso nem olhar, nem abrir a boca, que faço igual. São de longe, é difícil de acreditar. Foi a primeira tentativa deles de virem pra cá, eles não me dão medo, estão sendo bem gente boa, me mantendo calma e dizendo pra não se preocupar. Aconteceu isso e mudou tudo, todos mudaram, eles sabem, eu sei. Olha, desculpa, você não tem nada a ver com isso, mas se não você, com quem eu poderia contar? Alguém precisava escrever isso, alguém precisava registrar e só podia ser você. Desculpe tá na sua cabeça, fazendo você passar por isso, a preocupação. Não pense que tais doida, não fique maluca, mas eu precisava dizer pra alguém o que aconteceu e só podia ser você. Sei que faz tempo que não digo isso, mas obrigada mãe.

Eram cegos. Ele desde o nascimento. Ela havia 15 anos, pelo motivo dum acidente de transito. Brasil, Espanha, Holanda, Turquia. Faziam essa rota há 5 anos e nunca tiveram problemas. Não enxergavam absolutamente nada, todavia viajavam o mundo, conhecendo os lugares à seu modo e jeito. Adoravam os grandes centros, os passeios, os museus, os restaurantes, o povo, aproveitavam cada hora, minuto, segundo, tudo isso mesmo desprovidos das funções oculares. Questiono mesmo se o que os olhos não enxergam, o coração não sente? Há os sons, há o toque, há o respirar, há os sabores, há muito o que desbravar. Corajosos, sabiam como viver.

O seguinte, me explicam, é que o preço pago é 30 dólares a grama. Cada olho pesa 7,5 gramas. Como são um casal, seriam 4 olhos ocos preenchidos com 7,5 gramas, 30 ao total, ao custo de 900 dólares. A mais pura heroína afegã seria traficada para Florianópolis de uma maneira mais que imperceptível aos olhos de qualquer um. Aceitei.