Me lembro que foi uma tarde que escureceu rápido, os bares fechados, um ou outro garçom fazendo sala, com cara de bunda esperando algum cliente. Não tinha quase ninguém na rua, bem pouca gente, só morador e uns turistas perdidos, como sempre tem. Eu me lembro que a ultima vez que vi as horas eram 7 e pouquinho, não sei. Tinha uma garoa rolando, era domingo, eu ia pro Japa e o ônibus demoraria mais que se eu caminhasse. Ônibus no fim de semana é complicado, todos sabem, e lá fui eu, andar toda aquela avenida. Uma hora, deu um clarão no céu, que já não tinha lua nem luz alguma, e iluminou tudo, iluminou muito. Foi como um raio, bizarro. Aquele estouro, disparou os alarmes, a cachorrada apavorada, tudo. Foi um impacto forte, que alagou as Rendeiras, lembro que fiquei molhada antes mesmo de entrar na água, não duvido que isso foi até as dunas, deu um cheiro ruim. Passavam alguns carros, eles pararam e ficaram como eu, vendo aquilo sem acreditar, sem saber direito o que era. Era um avião, monomotor ou sei lá o que, um helicóptero, algo pequeno que voava? Tava escuro, não dava pra saber o que era, só que tinha caído na Lagoa. Sério, não deu pra acreditar, sem mentira nenhuma. Caiu bem no meio, ali pelo John Bull, um pouco pra lá, não sei. Foi perto de onde eu tava, foi chocante. De primeira não deu pra saber o que era, era fogo, era brilhante, estrondoso. Um rastro que veio do céu e se espatifou na Lagoa da Conceição. Algum morto, algum ferido, quem era, como era? Nessas horas você nem pensa e na verdade eu nem pensei, algo me pensou, algo me fez pensar. Foi mais que um risco mergulhar, imaginar tocar neles, tocar naquilo. Uma voz disse pra eu ir lá. Não era anjo, não era Deus, não era o Diabo. Era algo diferente, como alguém que te aborda no meio duma multidão. Eu senti uma presença na minha cabeça, uma coisa de outro mundo, dizendo pra eu ir e me aproximar. Eu sei que podia correr, que podia me esconder, ficar parada, mas não, não deu. Fui parar, fui nadar até lá no meio, nem sabia se dava pé, se tava cheio de merda, o que tinha me esperando lá. Nadei, toquei e apaguei.

Me falaram depois que na TV, no jornal, em tudo, é um alarde. Gente de fora veio pra cá, coisa de filme, sério. Soube também que capturaram eles, me capturaram. Não sei onde estou, não sei o que é, sei que eles me falam, me explicam as coisas e eu não preciso nem olhar, nem abrir a boca, que faço igual. São de longe, é difícil de acreditar. Foi a primeira tentativa deles de virem pra cá, eles não me dão medo, estão sendo bem gente boa, me mantendo calma e dizendo pra não se preocupar. Aconteceu isso e mudou tudo, todos mudaram, eles sabem, eu sei. Olha, desculpa, você não tem nada a ver com isso, mas se não você, com quem eu poderia contar? Alguém precisava escrever isso, alguém precisava registrar e só podia ser você. Desculpe tá na sua cabeça, fazendo você passar por isso, a preocupação. Não pense que tais doida, não fique maluca, mas eu precisava dizer pra alguém o que aconteceu e só podia ser você. Sei que faz tempo que não digo isso, mas obrigada mãe.

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