Dois. Velhos, barrigudos, com cabelo branco, sem dentes. Sentados a beira da entrada, Deca Lanches, olhavam o movimento. Eu passei e eles não me viram, me pus aqui e não me viram. Muitos passam e eles não veem também. Para outros eles dão um aceno, dizem qualquer coisa. A vida levada de forma leve. Não precisam falar nada um para o outro que apenas pelo olhar já dizem. Não só pelo olhar, mas é que não precisam dizer nada mesmo. O silêncio negro dos olhos. Dois. Carecas, sem camisa, o sol pegando em suas pernas e barriga, o movimento. Carros vão, motos vem, pedestres na ida e volta e os dois ali, parados. Alguém passa, os cumprimenta, eles apenas dão um aceno de rosto e continuam naquilo ali. Uma hora um levanta, vai até a porta, olha, fica, olha, uma mulher passa, uma olhadinha e tudo continua. Uma criança passa, faz uma brincadeira, eles sorriem e nada mais.

Ao lado fica uma pizzaria e do outro lado, uma rua. Ao lado da pizzaria fica uma mecânica e mais ao lado uma igreja. Todos ali passam e os cumprimentam, e mesmo os que parecem não os conhecer, de forma cordial, uma maneira educada, uma coisa da cidade, daquele bairro de ainda casas, acenam com a cabeça e dão um olá, como reconhecimento, como lembrança. Sim, ele passou aqui, me lembro deles, fedia e como fedia, é o que diriam os dois se alguém os perguntassem se passou um de boné, sem camisa, apressado. Mais afastado fica um bar, eles vão até ali, dão uma olhada, alguém fala algo, eles ficam quietos. Olham para a rua, olham para o chão, olham para cima, para o morro, para o céu, olham procurando alguma coisa. Um conhecido passa e eles falam, gritam, felicidade, no bar, cerveja e churrasco, e os dois ali, hoje é dia de jogo.

Um carro passa, buzina, eles gritam. Foguetes no céu e um grita, o outro nada. A música que toca se espalha pelo ar, música popular. A fumaça sobe. Passa bicicleta, uma pipa, mulher e seus filhos e um homem também, na bicicleta, de garupa com duas crianças, um menino e uma menina. O movimento é quase constante, talvez porque seja sábado ou domingo, por volta de 3 da tarde, pacificamente. Poderia ser maior, é dia de jogo, mas é sem importância. No outro bar, pelo que olho daqui, o movimento é maior que na rua. Bar do time que joga daqui a pouco, vejo pela TV no outro lado da rua. Estou na esquina, minha bicicleta de lado, não conheço ninguém, mas olho tudo, tanto faz. É estranho isso, todo o movimento e você parado numa esquina onde nunca parou e fintando o mundo. É interessante, essa zona aqui eu me lembro quando era pequeno, eu ia pra catequese por aqui.

É uma encruzilhada e, agora ou antes ou depois, poderia ou poderá, ter um despacho, não duvido nada ou não, nem vai ter lixo porque está pichado “Proibido lixo aqui”. Tem essa parte aqui que vai sair lá na avenida e logo em frente sobe um morro que eu não sei onde vai dar. Alguém grita lá longe, mais foguetes. Os dois agora gritam, gritam alto. E mais alguém grita mais alto também para eles não gritarem. Uma amiga minha mora ali pra cima, se estiver em casa, será que daqui poderia me ver? Mesmo eu não sabendo se da casa dela tem como ver o ponto onde estou, contudo pergunto que se ela me visse, eu iria vê-la? Poderia deduzir que sim, que ela me veria e eu a veria, já que se você vê alguém num espelho, olho no olho, essa mesma pessoa pode te ver, mas aqui não é espelho, é a vida real, mesmo que a vida real possa parecer com a de alguém, entende? Você olha os outros nos olhos? Sabe aquela coisa de falar a mesma palavra ao mesmo tempo? Imagina se vocês fazem a mesma coisa ao mesmo tempo, tipo sexo? A vida de duas pessoas se cruzam, como pau e buceta falando “vem em mim”, como olhos debaixo pra cima dizendo tudo sem falar nada. Estou na esquina, se ela me ver, que me dê um aceno, sou míope. Não sei reconhecer qual casa é a dela, talvez nem reconheça ela também. Tanto faz. Dois. Barba rala, sorriso frouxo, boca aberta, olhos cansados. O dono os chama “vem!” e lhes dá de comer o salame do churrasco.

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