Pareço uma mosca no vidro. 87 hexágonos oculares, um par de asas, ágil para escapar das mãos incessantes que nos fazer passar e assim passar a agonia. Ou então nos matar com um aplauso e assim comemorar o fim do incomodo. Uma mosca no vidro, querendo fugir, ultrapassar a barreira invisível, intransponível de areia. Uma mosca escrota e nojenta, no vidro, limpo, límpido, 75% de transparência mínima. É assim que me sinto

Querendo fugir de você, de um jeito ou de outro, e você não deixa. Eu com minhas cores verdes vibrantes metálicas e você tão simples, contudo tão paisagística. E fico me debatendo, batendo a cara, a fuça e minha língua áspera lambedora de coxinha na vendinha da esquina.  Do cachorro morto no terreno baldio com o focinho estourado de rojão pelos meninos da rua que não tinham nada melhor do que fazer a não ser alimentar uma mosca faminta como eu. Hmmmmm, já até esfrego minhas patinhas pensando no cardápio do dia..

Me deixa sair, abre a janela pra mim, me deixa. É tudo tão bonito lá fora, tão apetitoso, tão atraente, tem tanta coisa pra eu lamber, tanta podreira, sujeira perfeita, pra botar meus ovinhos, procriar a especie e 25 dias depois morrer feliz. Vai ser como os humanos, você vai ver. Nascem, crescem, reproduzem, infestam e morrem. Alguns 25 dias, outros 25 anos. Nós e eles, eles e nós. Felizes. Um dependendo do outro num longo casamento onde o companheirismo é a chave do sucesso. Abre o vidro, vai, e me deixa ali lamber uma ferida.

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