Um novo post, um novo título, uma nova escrita, um novo texto, poema, fragmento, imaginário, um novo de novo tudo novo de novo mas que vem do velho, do que já existe, mas é reformado, remoldado, remastigado e cuspido de novo, em uma nova forma, um novo momento, uma nova maneira, jeito. Os textos de agora são reflexos de textos de antes, toda a novidade é uma semi-velharia, que, posta ao papel, já é velha, já é passado, já são letras passadas, momentos passados, sentimentos passados. Todo texto reflete outro texto, todo texto traz em si outras vozes, outras visões, outras vidas. Este, de agora, é resultado de tantos outros, escritos, reescritos, não escritos, destruídos, de outro momento, de outro passado. É de se pensar que não há como controlar o que vai ser escrito – agora – – já – – instante – – momento – – local. Você apenas pensa, supõe, pressupõe, mas não dá para saber, pois pode mudar o rumo, o curso, pode não escrever, pode apenas esboçar, voltar, apagar, refazer e já não era, era um palimpseto, escrito, revisto, refeito, novo e novo de novo, embaixo e em cima de algo já feito, já datado, já posto, criado. É como a pele, que continua sendo uma, mas todo dia, toda hora, todo momento, escamada, raspada, construida, reconstruida, recelulada, refeita, não dá para saber como virá aquela nova pele, mas dá para ver a pele velha, soprada ao vento, largada ao leu, indo de encontro ao infinito. Eu mesmo, ao escrever esse fragmento, esse trecho, já pensei em outras tantas coisas, mesmo que seguindo o ditado da minha voz interior, cerebral, em outras letras, sílabas, fonemas, palavras, que poderiam ter sido ditas, mas não foram, em outras suposições, em outras formas, moldes, armações, mas que não se ergueram, que não cresceram, que não fluiram, fluxionaram, que ficaram contidas, mas que podem ser vertidas – aqui – – agora – – depois – – já – – nunca.

Todo texto, toda fala, toda ideia, eu penso, já veio de antes. Posso seguir a lógica de Lavoisier, já que não conheço outra lógica que funciona semelhante, outra teoria, teorema. Posso seguir também a lógica de Newton, apoiado no ombros de gigantes para fazer algo novo, algum novo, trazer à tona uma novidade não vista anteriormente, mas que o criador, o estudioso sabe, que há muito contido ali para que ela seja nova, seja fresca, seja inédita, exclusiva. Mas como determinar algo límpido, cristalino, algo que seja nascido de um nada, como perceber, como não ter outros modelos, outras vozes, outras vertentes fluindo em si, como conceber uma novidade sem que haja uma fonte criadora, um primeiro passo, uma primeira voz, alma mater, antes? Como ser novo, sem se encabeçar por algo que antes pensava ser novo, mas que já era velho, pois antes dele, já havia outra inspiração, outra luz, uma primeira luz. Teríamos que retroceder até os tempos onde os homens se abrigavam em cavernas, que havia apenas a linguagem oral, não existia a escrita – apesar do registro oral – para termos a sensação, o gosto, o sabor do inédito, do ímpar. Como a criação do 0 (zero), que antes não existia, não se sabia seu valor, apenas se supunha que existia, mas que não havia, não fazia falta, nos calculos, apenas de supor que havia seu valor, mas desconhecê-lo. A ex-crita, que, posta no papel, dada a voz, é ex, já não possui valor de inédito, pois está marcado, registrado, está critado, cravado, clipado. O que se procura é a crita, a fonte, de onde brota, jorra, o que será e deixará de ser, o que virá, o que será marcado, inovado. O que se procura é o que faz essa crita , o que dá seu volume, de onde vem seu líquido, sua forma, se é inédita, nova, principalmente, se não sofreu influência, fluência.

Creio que outros já tocaram nesse ponto e eu ainda não os descobri, mas sinto sua influência, pois penso neles. Creio que outros já se questionaram, que apenas questiono mais uma vez estas questões, creio que já se perguntaram o que os fez perguntar tudo isso, de onde surgiu esse questionamentos, o que há por trás da volta do infinito, quem alimenta a fome do universo – Uni, uno, um, 1, ., Já não sou inédito, sou uma voz, um eco, de seus questionamentos, suas perguntas. Se perguntam, estudam, de onde vem o inédito, o novo, se perguntam o que tece um texto, o tecido, o que dá forma a este espaço, o que preenche esse branco, preto vazio, o que dá vontade, o que espiritualiza, o que faz crer e descrer, o que faz a fibra, a flor, a seiva, a célula que entrança a fibra para formar o tecido, o papel, o texto, a base, a forma. O que poliniza essa flor sem saber, sem que ela tenha consciência do que há fez, do que a deu a vida, o que a faz não ter consciência, diferentemente de nós, que sabemos o que nos soprou a vida, o que a deu a vida sem ela saber, sem ninguém suspeitar. Essa flor, que ao ser transformada, feita em tecido, sua fibra, dá base, essa flor, é a pedra fundamental. Essa flor – ideia, algo que seja puro, novo, não mesclado, apesar de trazer uma conotação racial contraditória, mas essa flor é a busca.

Devemos ter em mente que a mescla de conhecimentos, a intertextualidade é o que faz os textos tão fortes, a mistura de conhecimentos, o saber abrangente. Dizem-me para saber um pouco de tudo, mas tudo de uma única coisa, trazer esse um pouco de tudo para esta única coisa é que a faz fortalecer, é o que faz com que suas fibras, seus emaranhados, seus tecidos, sejam fortes e resistentes, se tornem preponderantes, com o abastecimento de conhecimentos, mesmo nesses textos de ultrainformação. Como não mesclar vozes, visões, conhecimentos, como manter-se puro para fazer algo puro, algo vítreo, que não tenha sido embasado, embarrado, com outras impurezas. Será isto bom, certo, será que devemos criar algo novo, há como criar algo novo sem influências, ou tudo está previamente influenciado. Quem foi a inspiração de Deus na criação, qual foi sua vontade – apenas criar sua semelhança, passar sua semente? O que dizer das moléculas em ebulição que resultaram no Big Bang – o que as fez ferver, o que as pressionou, que força foi essa, se onde surgiu? Um novo ritmo, uma nova cor, uma nova forma, uma nova palavra, são frutos de um estralo, involuntário como uma ação intuitiva – mas o que desperta essa intuição, de onde vem, o que a excita? – ou são frutos de outros frutos, de outras flores, das fibras, do terreno, dos nutrientes, de outros pensares, vozes, pontos? Procura-se o novo, mas o que falta para ser descoberto, o que falta para ir à tona, para vir ao centro, para ser novo, sem ser novo de novo, sem ser o que não se veio antes, o que não foi pensado, adquirido, passado, abolir-se sua novidade, ser mais que novo, ser ultranovo, algo extraterreno, extraterreste, que todos possam ver o que nunca viram, que desconheçam o sabor, desconheçam a forma, ser mais que o passado, o presente, o futuro, a temporalidade, ser mais que algo, ser mais que ser, ser como o invisível, ser mais que a essência, mais que a palavra, o verbo, ser como uma inovidade, anovidade, unovidade, ser mais que a inteligência, mais que o vazio, mais que a busca.

A vida antes, durante, pós o texto, o reflexo, a repetição, a morte depois da vida, há a vida após a morte, há o porvir, o devir, o que virá, será que virá, o texto, ele viverá, ele morrerá, como prever o que não há previsto, como saborear o imprevisto, aprender, como antecipar, interceptar, como calcular – provavelmente isto já é feito, com tantas estatísticas, estudos, probabilidades, matrizes, suposições, analises – os 10, 20, 50 anos, fazer todos os movimentos como um jogo de xadrez na sua cabeça sem que se mova o peão, o cavalo, o rei. Como saber o que a ideia final resultará logo no inicio do texto, como escrever seu final antecipadamente e após isto dar forma e conteúdo ao corpo do texto, como saber o que vai alimentar esse corpo, o que virá, os contornos e retas, como saber o final antes do começo, como dar fim, como dar momento. Como prever o que virá após terminado esse texto, como impedir ou saber a vontade, o ímpeto, de reformar, formar novas linhas, nesse texto, como saber o que ainda falta ser escrito, como dar gatilho para esta criação. Você pode ter a ideia final na cabeça, mas sentirá o gosto, o mesmo gosto, de ter desenvolvido uma história, um texto, um tecido, e ao final ver aquele resultado não planejado, seja lá qual for seu fim, bom ou dispensável; pode ter a ideia de um fim, de como terminar, mas e se tiver só a forma, sem conteúdo, como andar, saber o caminho, sem passar por toda a estrada anteriormente, como chegar ao resultado sem antes o esforço, o primeiro passo, a primeira voz, a primeira letra, o primeiro som. Como ser o milhão sem começar do zero, e manter isto por mais de um segundo, por mais de 15 minutos, por mais de uma vida toda, sem ter a experiência, o passar, o sentir, o renovar das células, o saber do conhecimento? É a sabedoria mais importante que a experiência? É a experiência mais importante que a travessia? Procuro saber isso como procuro saber com o quê vou preencher a folha, com o quê vou adornar o trabalho, com o quê se seguirá a partir do momento que a consciência retorna do vazio do sono, do sonho, e começa um novo dia, um novo momento, um novo instante.